Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Enzo Ruggeri Parede Monteiro (USP)

Minicurrículo

    Estudante de Audiovisual pela USP, pesquisador com foco em cinema queer, corporalidade e sensorialidade, orientado pela Drª. Profª Esther Hamburger e bolsista de Iniciação Científica pela CNPq. Atua também como roteirista, diretor e diretor de arte em projetos de curtas-metragens. Possui experiência com curadoria e produção de mostras e festivais, com trabalhos no Kinoforum, Spcine Play e Doclisboa.

Ficha do Trabalho

Título

    Corporalidades Queer em crise: Imaginando a AIDS por Sérgio Bianchi, Rafael França e Alfredo Alves

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    O trabalho propõe uma análise comparativa das representações do HIV no audiovisual brasileiro durante o auge da crise da AIDS (1986-2000), por meio das obras Romance (1988) de Sérgio Bianchi, Prelúdio de uma Morte Anunciada (1991) de Rafael França e Homens (1993) de Alfredo Alves. O estudo discute como essas obras tensionam o discurso imagético hegemônico sobre o HIV, ao privilegiarem a corporalidade e a sensorialidade na construção das identidades e desejos queer das personagens ou dos autores.

Resumo expandido

    A associação negativa entre o HIV e a comunidade queer remonta ao início do conhecimento público da doença, como, por exemplo, sua nomenclatura inicial, GRID (Gay-Related Immune Deficiency). Esse enquadramento discursivo, alinhado à veiculação midiática de imagens associadas à degradação do corpo, resultou em um estigma aterrorizante e direcionado sobre a doença. No Brasil, essa ideia também estava presente com termos como “peste gay” e “doença de bicha”. Esse imaginário da morte foi contestado pelo New Queer Cinema no eixo EUA-Reino Unido, ainda nos anos 90, no qual o queer passou a ser representado pela sensorialidade manifestada em tela pelo desejo das personagens, em vez de reforçar um lugar de vítima ou de culpa. Porém, um cinema queer brasileiro voltado tão expressivamente para a crise da AIDS não se consolidou por diversos fatores, incluindo a instabilidade da produção decorrente do fim da Embrafilme e as dificuldades de circulação de filmes queer, mesmo no circuito independente. No entanto, esse trabalho se debruça sobre as obras nacionais que estão fora da curva, pois, ainda que não numerosas, revelam propostas imagéticas diferentes da hegemonia alarmista sobre o HIV em meio à crise: o longa-metragem de ficção Romance (1998) de Sérgio Bianchi, a videoarte Prelúdio de uma Morte Anunciada (1991) de Rafael França (1957-1991) e o curta documentário Homens (1993) de Alfredo Alves.
    No caso da ficção de Bianchi, ainda que a narrativa se concentre na figura do falecido intelectual de esquerda Antônio César, há o enredo paralelo de André, amigo homossexual de Antônio, que lida com o medo de se contaminar e o desejo por sexo. A experiência do cruising (busca por parceiros sexuais em locais públicos) faz parte do arco do personagem que, embora tenha medo, não resiste a participar. Bianchi filma o momento durante a noite, entre recortes de luzes que revelam os corpos, mas sem comprometer o mistério do ambiente, colocando somente fragmentos do explícito e reforçando a corporalidade entre as sombras, onde o prazer do personagem se mistura com o medo. O final do personagem é aberto, o temor continua, mas ele supera o isolamento no quarto.
    Já no campo da não ficção, Rafael França, artista soropositivo, é o protagonista de sua última obra, centrada em sua própria condição. Em seu adeus, ele faz uma videoarte na qual aparece em cena com seu companheiro, Geraldo Rivello. Observam-se planos-detalhe de mãos que se tocam e de lábios beijando rostos, intercalados por planos médios de mais carícias, enquanto, em alguns momentos, nomes de amigos que morreram em decorrência da AIDS passam pela tela. Essa obra coloca o corpo soropositivo como incontornável e sem sombras, levando o espectador a uma experiência háptica. Não é erótico, mas existe um apelo ao carinho sobre a corporalidade de alguém vivendo com AIDS, sem ser despersonalizado. No âmbito documental, o cineasta Alfredo Alves em parceria com a IBASE, fundada pelo ativista Herbert de Souza (1935-1997), realizou projetos audiovisuais voltados a denúncias sociais, como a crise do HIV. Homens insere-se nesse contexto ao apresentar Mauro, Raimundo e Cláudio, que narram suas trajetórias, incluindo as mudanças de cidade, a descoberta da homossexualidade e as implicações da AIDS em suas vidas. Não há intenção háptica e opta pelo foco no relato, no entanto, a corporalidade é fundamental à medida que existem diversos enquadramentos dos rostos e corpos dessas pessoas que expressam suas visões de mundo, recusando a fatalidade e totalmente agentes de si.
    Nessa perspectiva, é possível discutir que embora escassa, existe uma diversidade de formatos na produção brasileira que dialoga com a crise da AIDS diretamente. Essa experiência em tela do HIV, corporalizado, tocado e escutado, ocupando um espaço para além da morte, integra a história imagética nacional e complexifica o debate sobre a nossa produção como parte das expressões cinematográficas que responderam a esse momento histórico.

Bibliografia

    BALTAR, Mariana. Corpo e Afeto: Atualizações do Regime de Atrações no Cinema Brasileiro Contemporâneo, Aniki: Revista Portuguesa da Imagem em Movimento, 10(2), pp. 4–28, 2023
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    HAMBURGER, Esther. Desigualdades sociales, la crisis de la democracia y el audiovisual. Ñawi, v. 6, p. 105-124, 2022
    JUHASZ, Alexandra. AIDS TV: Identity, Community, and Alternative Video. Durham e Londres, Duke University Press, 1995.
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