Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Rafael Saar da Costa (UFF)

Minicurrículo

    Doutorando pelo PPGCine UFF. Dirigiu curtas-metragens, entre eles “Depois de tudo” e “Homem-ave”, premiados em diversos festivais. É realizador, pesquisador e montador. Seu primeiro longa, “Yorimatã”, foi exibido no Festival de Havana, Mostra de SP 2014 e ganhou o prêmio de Melhor Filme no In-Edit 2015. “Peixe abissal” estreou na Mostra de Tiradentes e ganhou os prêmios de Melhor Documentário no Queer Lisboa 2024 e Melhor Diretor no FIDBA.

Ficha do Trabalho

Título

    Mimbre: entre as cordas do vime de Manzanito e do violão de Violeta Parra

Seminário

    Cinema e audiovisual na América Latina: novas perspectivas epistêmicas, estéticas e geopolíticas

Resumo

    Em “Los artistas plásticos de Chile” (1960), a presença de Violeta Parra e Manzanito ecoa o encontro ocorrido em “Mimbre” (1957), de Sergio Bravo, curta documental sobre o artesão. Este trabalho propõe uma análise deste diálogo entre a canção e o cinema latino-americano, destacando a valorização do popular e sua dimensão estético-política. A recente restauração de “Mimbre” amplia possibilidades de leitura, situando-o como marco na articulação entre Nuevo Cine e Nueva Canción Latinoamericana.

Resumo expandido

    Em “Los artistas plásticos de Chile” (1960), filme dirigido por Jorge Di Lauro e narrado por Nieves Yankovic, encontramos um panorama dos artistas plásticos contemporâneos, seja em seus ateliês ou na “Feria de Artes Plásticas del Parque Forestal de 1959”. É ali que vemos Violeta Parra expondo, entre um violão e escritos, esculturas de cerâmica de figuras humanas com instrumentos musicais. Começamos a ouvir o violão instrumental de Violeta que é somado à voz de Yankovic, que narra “Por la sangre, por los dedos surge, la arte popular”. Vemos então Manzanito, artista que tem o vime como matéria-prima para seu trabalho artesanal. Sentado em uma cadeira ao pé de uma árvore, Manzanito está ao lado de uma senhora e uma menina que manuseiam objetos de vime, enquanto duas senhoras elegantes chegam com um pequeno cachorro. Parra entoa os versos do villancico religioso “Una estrella floreciente”: “Una estrella floreciente / reluce en el alto cielo / Los que le ven con anhelo / que es la estrella del Oriente / Los Reyes primeramente le han seguido…”

    Este não seria o primeiro encontro entre a música de Violeta Parra e a arte Manzanito, já que, em 1957, sob direção de Sergio Bravo, foi realizado o curta-metragem “Mimbre”, que seria a primeira incursão de Parra no cinema. Propomos então, neste trabalho, um percurso iniciado na pesquisa prévia acerca do diálogo entre a obra de Violeta Parra e Nieves Yankovic, e voltamos à experiência inicial da artista na expressão cinematográfica. Soma-se a impulso, o fato de “Mimbre” estar na etapa final da restauração realizada pela Cineteca Nacional de Chile, o que certamente possibilitará uma análise mais sensível de seus aspectos formais.

    Em entrevista a David Vera-Meiggs, Yankovic afirma que Violeta não era especialmente conhecida quando a encontrou nos anos 1950, e que se empenhou em promover seu trabalho e apresentá-la aos meios culturais. É através deste esforço que Violeta se junta a Sergio Bravo em “Mimbre” (YANKOVIC; DI LAURO, 2018, p. 26-27). O filme sobre o artista Manzanito insere na cartela inicial o seguinte letreiro: “En la Quinta Normal, calle Abtao 275, vive Alfredo Manzano, ‘Manzanito’ hijo de pescadores y virtuoso en el arte de tejer “Mimbre”.” Em seguida: “En este documental solo queremos dar a conocer las impresiones visuales que sacuden al visitante que llega a su taller”. A trilha instrumental composta por Violeta Parra dialoga com as imagens e as cordas de seu violão se confundem com as cordas do vime trabalhado pelo artista. A música integra o único elemento sonoro do curta-metragem de aproximadamente dez minutos e foi composta de improviso sobre a projeção das imagens, reunindo diversos temas que Violeta estava trabalhando naquele momento. Zuzana Pick afirma: “se vale de elementos formales para traducir la realidad en términos visuales. La intención de darle un sentido artístico y creativo al trabajo manual del artesano corresponde a un impulso de valorización del arte popular”. (PARANAGUÁ, 2003, p. 288)

    “Mimbre” es un hito del cine chileno, donde la música de Violeta intensifica aún más su intención casi fundadora de un cine que finalmente voltea la mirada hacia lo verdaderamente popular, con intenciones plásticas totalmente modernas, con el fin de así configurar imágenes auténticas y removedoras. Fue esta la misma idea que luego unos años después tendrá como centro el llamado Nuevo Cine Chileno (MORALES, 2021, p. 1).

    Este encontro entre o Nuevo Cine Chileno e a Nueva Canción Latinoamericana a partir da obra de Manzanito em “Mimbre” pode ser compreendido como a síntese de uma ponte fundamental entre tradição e modernidade que atravessa a América Latina daquele período. Tal articulação evidencia aspectos que atravessam a experimentação visual e sonora, configurando uma proposta de renovação de linguagem que também constitui um projeto político-cultural de reafirmação identitária nacional.

Bibliografia

    CIFUENTES, M. Una poética de la luz, el sonido y el lugar en el documental Mimbre de Sergio Bravo con música de Violeta Parra. Dossier Punto Suró: jan-jun, p. 69-84, 2022.
    COLECCIÓN YANKOVIC – DI LAURO. Santiago de Chile: Centro Cultural La Moneda, 2018. Encarte da coleção em DVD realizada pela Cineteca Nacional de Chile.
    GUERRERO, C., VUSKOVIC, A. La música del Nuevo Cine Chileno, Santiago: Editorial Cuarto Propio, 2018.
    MORALES C., Marcelo. Violeta Parra y el cine chileno. Disponível em . Acesso em: 01 de março de 2021.
    PARANAGUÁ, P. A. (edit.). Cine Documental en América Latina. Catedra: Madrid, 2003.
    WOZNIAK-GIMÉNEZ, A. B. Música Popular e engajamento nos anos 60: Cultura Política nas trajetórias artísticas de Violeta Parra, Mercedes e Elis Regina. Escritas – Revista de História de Araguaína. Araguaína, v.6 n.1, p. 66-83, 2014.