Ficha do Proponente
Proponente
- Marcos Serafim (UoA)
Minicurrículo
- Artista/pesquisador brasileiro, Professor Associado na School of Art, University of Arizona. MFA em Elect. Arts/Intermedia pela Michigan State University e MA em Studio Art pela Eastern Illinois University. Sua pesquisa prático-teórica, exibida internacionalmente, investiga cinema experimental, documentário, computação e inteligência artificial, com foco em sexualidade, memória e histórias dissidentes. Coordena a área de Imaging, voltada ao cinema expandido e sistemas computacionais de imagem.
Ficha do Trabalho
Título
- Transposição audiovisual de O Onanista: roteiro não realizado, arquivo e imaginação espectral
Seminário
- Arquivo e contra-arquivo: práticas, métodos e análises de imagens
Resumo
- Este trabalho relata a pesquisa para a adaptação audiovisual de O Onanista, vinculada ao conto de 1976 e ao roteiro não filmado de João Silvério Trevisan. A investigação se ancora em decupagem realizada com o autor e na construção de uma imaginação audiovisual articulada por apropriação de arquivos e inteligência artificial generativa. A recombinação desses materiais mobiliza sexualidade dissidente e sobrevivências do cinema brasileiro, compreendendo o roteiro como forma espectral ainda ativa.
Resumo expandido
- Este trabalho relata a pesquisa em desenvolvimento para a transposição audiovisual de O Onanista, vinculada ao conto publicado em 1976 por João Silvério Trevisan, escritor, cineasta e ativista decisivo para a dissidência sexual no Brasil, e ao posterior roteiro de longa-metragem não filmado. A investigação se ancora na decupagem realizada em 2026, em colaboração com Trevisan, e nas conversas e anotações desse encontro, tratadas aqui como material crítico do processo. Em percurso ensaístico, o estudo acompanha a construção de uma imaginação audiovisual delineada pela apropriação de arquivos e pelo uso de inteligência artificial generativa como operadora que recombina, sintetiza e comenta a imagem. O dispositivo condensa questões decisivas para uma elaboração capaz de lidar com uma história do cinema sob latência, interrupção e sobrevivência, de modo que a imagem se dê como restituição do que foi retido, em regimes renovados de visibilidade.
A decupagem colaborativa torna legíveis situações, atmosferas e ritmos de presença que orientam a constituição de um banco de dados imagético, ativado pela IA em recomposição e desvio. Esse conjunto inclui materiais de linhagens dissidentes do cinema brasileiro, especialmente Cinema Novo e Cinema Marginal, em diálogo com a poética de Trevisan e com referências trocadas na leitura do roteiro. A aproximação entre Bresson e Candeias, formulada pelo autor por meio da “candura” com que ambos tratam seus personagens, organiza uma ética da imagem. Gestos mínimos, vulnerabilidade corporal e instabilidade espacial configuram um campo no qual sobrevivências históricas e decisões contemporâneas fazem da imagem um lugar de fricção entre tempos. A geração algorítmica tenciona essas potências imagéticas e intensifica essa coexistência, como aderência sensível de restos históricos ainda ativos, onde uma temporalidade estratificada se inscreve na granulação do preto e branco e dos espaços.
A sexualidade dissidente de O Onanista, inscrita em repressão moral, tensão política e marginalização social, mobiliza a escolha dos materiais, a constituição das atmosferas e a imaginação das relações espaciais. Corpo e historicidade permanecem enredados na fabricação da imagem, onde, como formula Trevisan, “a sexualidade em circuito fechado revela a sacralidade no mais corriqueiro da experiência humana” (TREVISAN, 2017, p. 115). Suspendendo distinções estáveis entre o visível e o narrável, o roteiro tensiona o corpo no limite entre a pornografia e a poesia. Operando também em circuito fechado, o arquivo, como banco de dados para a IA, produz e reabsorve seu próprio conteúdo, deslocando a imagem de seu estatuto representacional para um campo operativo. Em sua inflexão como deriva sensível dessas operações, a persistência da poética radical de Trevisan ressoa a formulação benjaminiana da imagem histórica como constelação, como choque entre tempos heterogêneos que cintilam num mesmo campo, onde a imagem do passado “relampeja no instante de perigo” (BENJAMIN, 1987, p. 225).
Nesse horizonte, a transposição de O Onanista encontra na assombrologia formulada por Mark Fisher uma chave decisiva, onde o presente é assombrado por futuros não realizados, cuja presença não se resolve, mas é atravessada por descontinuidades. O roteiro não filmado concentra possibilidades que não se extinguem com sua não realização, conservando força histórica e potência crítica e poética. Entre decupagem colaborativa, arquivo e geração algorítmica, o filme se configura como campo de persistências. A candura radical do roteiro reaparece cintilada pela artificialidade dos processos generativos. Fragilidade do gesto, vulnerabilidade do corpo e cálculo algorítmico coexistem sem síntese. Nesse intervalo, o inacabado permanece ativo, e a artificialidade técnica intensifica a sobrevivência de uma sensibilidade que insiste em reaparecer.
Bibliografia
- AZOULAY, Ariella Aïsha. História potencial: desaprender o imperialismo. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987. (Obras escolhidas, v. 1).
DIDI-HUBERMAN, Georges. Devolver uma imagem. In: ALLOA, Emmanuel (org.). Pensar a imagem. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. p. 205-226.
FAROCKI, Harun. Phantom Images. Public, n. 29, p. 12–22, 2004.
FISHER, Mark. Fantasmas da minha vida: escritos sobre depressão, assombrologia e futuros perdidos. São Paulo: Autonomia Literária, 2021.
TREVISAN, João Silvério. Meu irmão, eu mesmo. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2023.