Ficha do Proponente
Proponente
- Rodrigo Corrêa Gontijo (UEM)
Minicurrículo
- Rodrigo Gontijo é artista, curador e professor na Universidade Estadual de Maringá. É Doutor e Mestre em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP e Bacharel em Comunicação e Multimeios pela PUC-SP. Organizou os livros “Cineclubismo à Distância” (EDUC, 2022) e “Sobre o Contemporâneo: multimeios de possibilidade” (Vox Littera, 2023). Como artista desenvolve projetos de cinema ao vivo, instalações audiovisuais e filme-ensaio.
Ficha do Trabalho
Título
- ENTRE ALICE E PINÓQUIO: DA FÁBULA AO DOCUMENTO
Mesa
- Cinema, Arte, Política – entre deslocamentos e invenções II
Resumo
- Esta comunicação analisa, à luz dos conceitos de “livro-máquina” (Deleuze e Guattari), “documentalidade” (Steyerl) e “campo expandido do documentário” (Kim), como as exposições “As Aventuras de Alice” (2022) e “As Aventuras de Pinóquio” (2025) mobilizam estratégias com qualidades documentais que, ao evidenciar dimensões históricas e políticas das obras, tensionam as fronteiras entre ficção e documento e ativam novas leituras no presente.
Resumo expandido
- Esta comunicação analisa as exposições “As Aventuras de Alice” (2022) e “As Aventuras de Pinóquio” (2025), realizadas no Farol Santander, em São Paulo, concebidas como um projeto curatorial desenvolvido pelo próprio autor desta comunicação, que articula literatura, história das imagens, entretenimento e práticas artísticas contemporâneas. Partindo dos universos criados por Lewis Carroll (1865) e Carlo Collodi (1883), ambas deslocam os textos de seus contextos originais para um campo ampliado de experimentação audiovisual, no qual dispositivos pré-cinematográficos, instalações imersivas e arquivos históricos operam como mediadores de uma leitura crítica.
No caso de Alice, a exposição se estrutura como um percurso que vai da materialidade do livro, de suas primeiras edições, ilustrações e contexto histórico, à sua expansão em imagens em movimento. Ao atravessar dispositivos ópticos do século XIX e fragmentos de quarenta adaptações cinematográficas, o visitante acompanha a passagem de um regime textual a um regime imagético. Nesse deslocamento, o nonsense carrolliano revela tensões da sociedade vitoriana, como as relações entre infância e vida adulta, monarquia e cotidiano, trabalho e lazer, ordem e absurdo.
Em Pinóquio, a mostra apresenta a dimensão histórica e política da obra de Collodi, articulando a trajetória do boneco ao processo de formação da identidade nacional italiana no contexto do Risorgimento. A exposição reúne notícias de jornais, obras de arte, autômatos e fragmentos fílmicos, ao mesmo tempo em que apresenta as condições sociais marcadas pela pobreza e desigualdade presentes na narrativa.
Em ambos os casos, evidencia-se o potencial político dessas obras que, embora destinadas ao público infanto-juvenil, operam como dispositivos críticos que, sob a forma de fábula, elaboram modos indiretos de contestação e comentário social.
Compreendidos como disparadores poéticos, clássicos como Alice e Pinóquio podem ser pensados como “livros-máquinas” (DELEUZE; GUATTARI, 2000), desdobrando-se em exposições que incorporam estratégias documentais. Materiais de arquivo, reproduções de edições originais, obras de ilustradores, trechos de filmes, iconografia, entrevistas e depoimentos não apenas contextualizam historicamente as obras, mas produzem uma rede de saberes que tensiona as fronteiras entre ficção e documento. Nesse sentido, tais exposições mobilizam “documentalidades” (STEYERL, 2003) e se inscrevem no “campo expandido do documentário” (KIM, 2022), ao deslocar a dimensão documental para além do cinema tradicional e integrar múltiplas mídias e modos de experiência..
Dispositivos pré-cinematográficos, compilações de found footage e instalações audiovisuais imersivas configuram um espaço híbrido, no qual imagem, arquivo e espectador se articulam de forma não-linear. O visitante deixa de ser apenas observador e se torna agente na construção de sentidos, navegando por diferentes camadas temporais e midiáticas.
Assim, as exposições não apenas celebram a permanência desses clássicos, mas os reativam como ferramentas críticas no presente, reiterando que o clássico “é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer” (CALVINO, 2002).
Bibliografia
- CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
CARROLL, Lewis. As aventuras de Alice no País das Maravilhas. São Paulo: Editora 34, 2015.
COLLODI, Carlo. As aventuras de Pinóquio. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. Vol.1. São Paulo: Editora 34, 2000.
GARDNER, Martin. Alice – Edição comentada e ilustrada. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
KIM, Jihoon. Documentary’s Expanded Fields: new media and the twenty-first-century documentary. New York: Oxford University Press, 2022.
MANGANELLI, Giorgio. Pinóquio: um livro paralelo. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
STEYERL, Hito. Documentarism as Politics of Truth. Transversal Texts, 2003.
Disponível em: https://transversal.at/transversal/1003/steyerl/en
Acesso em: 21 abr. 2026.