Ficha do Proponente
Proponente
- Rafael Garcia Madalen Eiras (UFF)
Minicurrículo
- Rafael Garcia Madalen Eiras é doutorando em Cinema e Audiovisual pelo Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (PPGCine/UFF). É graduado em Cinema e História e atua como professor na rede municipal do Rio de Janeiro. É autor do livro De Ganga Zumba a Quilombo: carnavalização e utopia na obra de Cacá Diegues. Sua pesquisa investiga as relações entre cinema, história e estética no contexto da redemocratização brasileira.
Ficha do Trabalho
Título
- A cidade fragmentada: espaço e experiência histórica em Um Trem para as Estrelas (1987)
Seminário
- Cinema e Espaço
Resumo
- O trabalho analisa Um Trem para as Estrelas (1987) a partir da relação entre espaço urbano e experiência histórica. Argumenta-se que o filme constrói um Rio de Janeiro fragmentado, sem imagem estável de si, no qual a crise da utopia moderna se inscreve na forma espacial. A cidade surge como superfície de circulação, afetos e descontinuidade, expressando a perda de um horizonte coletivo no contexto da redemocratização.
Resumo expandido
- Este trabalho propõe uma análise de Um Trem para as Estrelas (Cacá Diegues, 1987) a partir da centralidade do espaço urbano como forma de inscrição histórica. Em diálogo com a chamada “virada espacial” nos estudos de cinema e audiovisual, investiga-se como o filme constrói uma experiência da cidade do Rio de Janeiro que condensa as tensões da redemocratização brasileira, articulando estética e política em uma configuração espacial fragmentada.
A hipótese central é que a crise da utopia moderna — que orientava o cinema brasileiro das décadas anteriores — não se manifesta apenas no plano temático, mas se inscreve na própria produção do espaço fílmico. Se em Quilombo (1984) ainda se delineava uma imaginação coletiva e totalizante, em Um Trem para as Estrelas o espaço urbano deixa de operar como totalidade e passa a se configurar como superfície descontínua, composta por fragmentos heterogêneos — o ferro-velho, o shopping center, a favela, o metrô, o espaço do espetáculo — que não se articulam em síntese.
Nesse contexto, o filme esvazia a imagem simbólica do Rio de Janeiro como paisagem identitária, afastando-se da noção de “cidade maravilhosa” para produzir um espaço sem centro e sem raiz, marcado por zonas de passagem, circulação e instabilidade. A cidade não organiza a experiência, mas a dispersa: o percurso do protagonista não conduz a uma resolução narrativa, mas se configura como deriva, atravessada por encontros precários, interrupções e deslocamentos erráticos.
A noite desempenha papel fundamental nessa configuração. Compreendida como um espaço de fronteira, no sentido proposto por Murray Melbin (1978), ela intensifica a experiência sensorial e fragmentada da cidade convertendo o ambiente urbano em uma superfície de fluxos, ruídos e afetos. Nesse regime espacial, a experiência histórica se desloca do campo da totalidade para o da percepção imediata, marcada pela instabilidade e pela descontinuidade.
Um momento exemplar dessa dinâmica ocorre na cena do ferro-velho, em que Vina observa a cidade ao longe. Diante de um espaço marcado por restos e ruínas urbanas, o personagem fecha os olhos e passa a reorganizar os ruídos da cidade como se fossem música, convertendo a cacofonia urbana em experiência sensorial. Nesse gesto, suspende a materialidade do espaço e projeta sobre ele uma imagem desejada, transformando a cidade em superfície de imaginação. O contraste com a fala de Nicinha — “é bonita… de longe e no escuro” — explicita a fratura entre fantasia e realidade: a cidade só se sustenta como imagem quando afastada de sua vivência concreta. A sequência revela, assim, um deslocamento fundamental: a impossibilidade de produzir uma experiência histórica totalizante é substituída por uma experiência espacial fragmentada, mediada pelo desejo e pela percepção.
Essa configuração pode ser pensada à luz das reflexões de Fredric Jameson sobre a espacialização da experiência na cultura pós-moderna, bem como de contribuições que compreendem o espaço como produto de relações sociais e campo de disputas. Ao mesmo tempo, dialoga com leituras como a de Angela Freire Prysthon, que destacam a dimensão melancólica da paisagem no cinema, permitindo compreender o espaço urbano como superfície afetiva marcada pela perda de horizonte.
Assim, Um Trem para as Estrelas constrói uma cartografia fragmentada da cidade que expressa não apenas transformações urbanas, mas a crise de um imaginário histórico coletivo. O espaço urbano torna-se operador central da relação entre cinema e história, configurando uma experiência em que o “fim do mundo” se manifesta não como catástrofe, mas como dissolução da totalidade e dificuldade de imaginar futuros comuns. Nesse sentido, a cidade não apenas representa uma crise histórica, mas a encena como forma, tornando visível a experiência de um mundo que já não se organiza como totalidade, mas como fragmento.
Bibliografia
- DIEGUES, Cacá. Um Trem para as Estrelas. Brasil, 1987.
DIEGUES, Cacá. Vida de Cinema. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 2006.
MELBIN, Murray. Night as Frontier. American Sociological Review, v. 43, n. 1, p. 3–22, 1978.
PRYSTHON, Angela Freire. “Uma pálida neblina: paisagem e melancolia no cinema italiano moderno”. Galaxia, n. 39, set.-dez. 2018, p. 53–71.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Edusp, 2009.