Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Rafael Garcia Madalen Eiras (UFF)

Minicurrículo

    Rafael Garcia Madalen Eiras é doutorando em Cinema e Audiovisual pelo Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (PPGCine/UFF). É graduado em Cinema e História e atua como professor na rede municipal do Rio de Janeiro. É autor do livro De Ganga Zumba a Quilombo: carnavalização e utopia na obra de Cacá Diegues. Sua pesquisa investiga as relações entre cinema, história e estética no contexto da redemocratização brasileira.

Ficha do Trabalho

Título

    A cidade fragmentada: espaço e experiência histórica em Um Trem para as Estrelas (1987)

Seminário

    Cinema e Espaço

Resumo

    O trabalho analisa Um Trem para as Estrelas (1987) a partir da relação entre espaço urbano e experiência histórica. Argumenta-se que o filme constrói um Rio de Janeiro fragmentado, sem imagem estável de si, no qual a crise da utopia moderna se inscreve na forma espacial. A cidade surge como superfície de circulação, afetos e descontinuidade, expressando a perda de um horizonte coletivo no contexto da redemocratização.

Resumo expandido

    Este trabalho propõe uma análise de Um Trem para as Estrelas (Cacá Diegues, 1987) a partir da centralidade do espaço urbano como forma de inscrição histórica. Em diálogo com a chamada “virada espacial” nos estudos de cinema e audiovisual, investiga-se como o filme constrói uma experiência da cidade do Rio de Janeiro que condensa as tensões da redemocratização brasileira, articulando estética e política em uma configuração espacial fragmentada.
    A hipótese central é que a crise da utopia moderna — que orientava o cinema brasileiro das décadas anteriores — não se manifesta apenas no plano temático, mas se inscreve na própria produção do espaço fílmico. Se em Quilombo (1984) ainda se delineava uma imaginação coletiva e totalizante, em Um Trem para as Estrelas o espaço urbano deixa de operar como totalidade e passa a se configurar como superfície descontínua, composta por fragmentos heterogêneos — o ferro-velho, o shopping center, a favela, o metrô, o espaço do espetáculo — que não se articulam em síntese.
    Nesse contexto, o filme esvazia a imagem simbólica do Rio de Janeiro como paisagem identitária, afastando-se da noção de “cidade maravilhosa” para produzir um espaço sem centro e sem raiz, marcado por zonas de passagem, circulação e instabilidade. A cidade não organiza a experiência, mas a dispersa: o percurso do protagonista não conduz a uma resolução narrativa, mas se configura como deriva, atravessada por encontros precários, interrupções e deslocamentos erráticos.
    A noite desempenha papel fundamental nessa configuração. Compreendida como um espaço de fronteira, no sentido proposto por Murray Melbin (1978), ela intensifica a experiência sensorial e fragmentada da cidade convertendo o ambiente urbano em uma superfície de fluxos, ruídos e afetos. Nesse regime espacial, a experiência histórica se desloca do campo da totalidade para o da percepção imediata, marcada pela instabilidade e pela descontinuidade.
    Um momento exemplar dessa dinâmica ocorre na cena do ferro-velho, em que Vina observa a cidade ao longe. Diante de um espaço marcado por restos e ruínas urbanas, o personagem fecha os olhos e passa a reorganizar os ruídos da cidade como se fossem música, convertendo a cacofonia urbana em experiência sensorial. Nesse gesto, suspende a materialidade do espaço e projeta sobre ele uma imagem desejada, transformando a cidade em superfície de imaginação. O contraste com a fala de Nicinha — “é bonita… de longe e no escuro” — explicita a fratura entre fantasia e realidade: a cidade só se sustenta como imagem quando afastada de sua vivência concreta. A sequência revela, assim, um deslocamento fundamental: a impossibilidade de produzir uma experiência histórica totalizante é substituída por uma experiência espacial fragmentada, mediada pelo desejo e pela percepção.
    Essa configuração pode ser pensada à luz das reflexões de Fredric Jameson sobre a espacialização da experiência na cultura pós-moderna, bem como de contribuições que compreendem o espaço como produto de relações sociais e campo de disputas. Ao mesmo tempo, dialoga com leituras como a de Angela Freire Prysthon, que destacam a dimensão melancólica da paisagem no cinema, permitindo compreender o espaço urbano como superfície afetiva marcada pela perda de horizonte.
    Assim, Um Trem para as Estrelas constrói uma cartografia fragmentada da cidade que expressa não apenas transformações urbanas, mas a crise de um imaginário histórico coletivo. O espaço urbano torna-se operador central da relação entre cinema e história, configurando uma experiência em que o “fim do mundo” se manifesta não como catástrofe, mas como dissolução da totalidade e dificuldade de imaginar futuros comuns. Nesse sentido, a cidade não apenas representa uma crise histórica, mas a encena como forma, tornando visível a experiência de um mundo que já não se organiza como totalidade, mas como fragmento.

Bibliografia

    DIEGUES, Cacá. Um Trem para as Estrelas. Brasil, 1987.
    DIEGUES, Cacá. Vida de Cinema. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
    HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
    JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 2006.
    MELBIN, Murray. Night as Frontier. American Sociological Review, v. 43, n. 1, p. 3–22, 1978.
    PRYSTHON, Angela Freire. “Uma pálida neblina: paisagem e melancolia no cinema italiano moderno”. Galaxia, n. 39, set.-dez. 2018, p. 53–71.
    SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Edusp, 2009.