Ficha do Proponente
Proponente
- Fernanda Rocha Miranda (PUC RJ)
Minicurrículo
- Fernanda Rocha Miranda é doutoranda em Literatura, Cultura e Contemporaneidade (PUC-Rio), mestre em Comunicação (UFRJ) e pós-graduada em Filosofia da Arte (PUC-Rio). Jornalista, roteirista e realizadora audiovisual, atua há mais de 20 anos no campo do cinema e da educação. É professora de roteiro e desenvolve pesquisas sobre imagem, memória e contracultura.
Ficha do Trabalho
Título
- O cinema latente de Geneton Moraes Neto: Super-8, contra-arquivo e desvio da imagem
Resumo
- O trabalho investiga os filmes em Super-8 de Geneton Moraes Neto, digitalizados pela Cinemateca Pernambucana, com foco o curta-metragem A flor do Lácio é vadia, para refletir sobre modos de produção, circulação, preservação e reinscrição de imagens não canônicas. Propõe-se ler essas imagens como cinema latente, onde sentidos permanecem em suspensão. A análise articula memória, contracultura e gesto autobiográfico para repensar o estatuto da imagem como documento e campo de disputa histórica.
Resumo expandido
- Nas franjas da história oficial do cinema brasileiro, nas margens da estética industrial e longe do olhar institucional, pulsa um outro cinema, íntimo, político, dissonante, poético. É nesse espaço de ruído e invenção que se insere a obra em Super-8 de Geneton Moraes Neto, realizada em meio à efervescência do Surto do Recife, no período entre 1974 e 1984. Muito antes de se tornar uma referência no jornalismo nacional, Geneton já era um cineasta, autor de uma filmografia curta, mas radical em seu desejo de falar de um outro lugar: aquele em que a memória pessoal e a história cultural se enroscam num gesto de resistência estética e subjetiva.
Este trabalho investiga a produção em Super-8 de Geneton Moraes Neto, recentemente digitalizada pela Cinemateca Pernambucana, como campo privilegiado para pensar as relações entre imagem, memória e contracultura no Brasil. O foco recai sobre o curta-metragem A flor do Lácio é vadia (1978), analisado como uma experiência estética que tensiona o documento e desestabiliza narrativas históricas consolidadas. Essa pesquisa parte do desejo de escavar esse gesto inaugural. Em meio a imagens instáveis, vozes poéticas, ruínas coloniais, emerge uma pergunta que atravessa toda a investigação: Como nascem as narrativas experimentais dos filmes de Geneton Moraes Neto? O que acontece quando ele os constrói a partir do precário, do marginal, do lacunar? Como esses filmes instauram um regime de visibilidade que desafia a separação entre arquivo e criação.
A pesquisa parte da noção de cinema latente, entendendo a imagem como superfície em estado de potência, atravessada por tempos, lacunas e disputas de sentido. Nesse horizonte, os filmes de Geneton são abordados como dispositivos que suspendem a evidência documental e abrem espaço para outras leituras, onde o visível se articula ao que permanece em suspensão.
Ao mesmo tempo, a investigação mobiliza o conceito de contra-arquivo para compreender esses filmes como práticas que desafiam regimes institucionais de memória. Ao trabalhar com registros precários, íntimos e marginais, o cinema de Geneton desloca o arquivo de sua função estabilizadora e o reinscreve como território de conflito e reinvenção. A digitalização recente desses materiais recoloca essas imagens em circulação, reativando sua dimensão política e estética.
No curta analisado, a errância da câmera pelas ruínas coloniais, associada à oralidade poética, produz um gesto crítico que não ilustra o passado, mas o fricciona. A imagem não organiza uma narrativa linear; ao contrário, opera por sobreposições e desvios, instaurando uma temporalidade instável. Não se trata de representar a história, mas de expor suas fissuras.
A hipótese central é que o cinema de Geneton Moraes Neto configura um espaço de latência onde memória pessoal e história coletiva se entrelaçam sem se resolver. Seus filmes funcionam como zonas de indeterminação, nas quais o “eu” se dispersa e a imagem se torna campo de experimentação. Suas imagens não apenas documentam uma experiência contracultural, mas instauram um regime de visibilidade que desafia a separação entre arquivo e criação.
Ao articular cinema experimental, estudos do arquivo e teoria da imagem, o trabalho propõe uma leitura que desloca a centralidade do documento e enfatiza a potência das imagens marginais. Nesse sentido, contribui para ampliar o debate sobre práticas de contra-arquivo no contexto brasileiro, destacando o Super-8 como meio estético-político de invenção e resistência.
Bibliografia
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A flor do Lácio é Vadia de Geneton Moraes Neto. Super-8mm. Recife, julho de 1978 disponível em: https://cinematecapernambucana.com.br/filme/?id=3001