Ficha do Proponente
Proponente
- Caio Chung Micca (USP)
Minicurrículo
- Graduado em Ciências Econômicas pela UNICAMP e Mestre em Divulgação Científica e Cultural na mesma instituição com a dissertação com o título de “Cinema e Negacionismo Climático: confluências imaginárias”. Doutorando na Faculdade de Educação na linha de pesquisa de Cultura e Educação sob a orientação do professor doutor Rogério de Almeida. Trabalha na área de programação cultural do Sesc São Bento na capital paulista, onde organiza cineclubes, palestras e debates sobre sustentabilidade.
Ficha do Trabalho
Título
- Recife Frio (2009) e a emergência climática: fins e recomeços
Resumo
- O presente trabalho propõe uma análise do curta-metragem Recife Frio (2009) a partir da hermenêutica simbólica. O filme apresenta uma Recife que perdeu o seu caráter tropical após uma estranha mudança no clima. A narrativa se desenrola como um mockumentário que apresenta as adaptações dos moradores frente à nova realidade climática. É proposto que o fim do mundo tropical de Recife mostra os problemas atuais da sociedade e que a saída para o Novo Regime Climático é coletiva e não individual.
Resumo expandido
- O presente trabalho se propõe a analisar o curta metragem Recife Frio (2009) de Kleber Mendonça Filho a partir da hermenêutica simbólica (Ricoeur, 2013), apresentando como o mockumentário distópico se utiliza de uma mudança no clima da cidade para discutir elementos da realidade da época que foi gravado, mas que ainda assim se mostram atuais, sobretudo em tempos de emergência climática.
Portanto, a película apresenta o fim de um mundo tropical para a cidade do Recife, ao mesmo tempo em que abre margem para se debater diferentes questões cruciais da emergência climática, como racismo ambiental, os distintos impactos segundo as vulnerabilidades, além de problemáticas sobre sociabilidade e urbanismo.
Por meio de um mockumentário o diretor vai observando as contradições que a sociedade recifense – e de maneira mais ampla a sociedade brasileira – enfrenta, trazendo junto a ideia de exacerbar essas questões, premissa de uma ficção de especulação e da chamada distopia.
Embora seja comum a distopia estar associada ao futuro, como um horizonte possível, ela remete a um presente dado, com certas características intensificadas, de modo que a ambientação futurista pode ser dispensada. O que o discurso distópico faz é alertar sobre o caminho que presumivelmente estamos seguindo. (Almeida, 2024, p. 104)
Se de um lado temos que o Novo Regime Climático (Latour, 2020) de Recife é o fim de um clima tropical para uma cidade que tem o turismo como um dos fatores importantes para sua economia, por outro nos são apresentadas diversas problemáticas que, se não resolvidas na atualidade, se tornarão questões muito mais complexas e difíceis de serem solucionadas. Assim, podemos enquadrar o filme no imaginário distópico, já que exacerba, através da especulação, problemáticas atuais, a fim de expôr e nos alertar.
No início nos é apresentada a ideia de que tal evento acontecerá dali a alguns anos, dando a ideia de um futuro, mas não muito distante. Em sua filmografia posterior, Kleber Mendonça continua a olhar para estes mesmos problemas que não foram solucionados. Seja ele a presunção e da classe alta recifense, que não se importa com as condições de trabalho das pessoas que estão a seu serviço. Seja o mimetismo cultural, o consumo conspícuo (Campos, 2014) ou então pelo complexo de vira-lata ainda comum em alguns estratos da sociedade.
Ao adotarmos a perspectiva de um tempo não linear, mas cíclico, o fim pode ser visto como uma oportunidade para um recomeço, seja através das adaptações à nova realidade climática, seja a partir da ideia de que existem outras possibilidades de futuro enquanto ainda a distopia não é completa.
Tínhamos uma brincadeira que dizia que o rei perguntou para um sábio: “Onde é o fim do mundo?”. O sábio colocou o calcanhar no chão, dobrou os dedos, transformou o pé em um compasso, fez um círculo e disse: “O fim do mundo é aqui, onde ficou meu calcanhar, porque o mundo é redondo”. E o rei perguntou: “E o começo do mundo?”. “É aqui também”, ele respondeu. Aqui é o fim e aqui é o começo, depende de quem está se posicionando. (Santos, 2023, p. 51)
Por mais que boa parte das adaptações apresentadas no filme em um primeiro momento aparentam ser efetivas de alguma maneira, ao observarmos mais a fundo, percebemos que elas acabam se mostrando saídas individuais e não duradouras. A família rica que a solução é se mudar, o dono da pousada que funda uma ONG, o vendedor que imita os costumes europeus…
O filme se encerra de maneira demasiadamente simbólica trazendo uma importante figura da cultura popular não só recifense e pernambucana, mas do Brasil como um todo, Lia de Itamaracá cantando uma ciranda.
Portanto, a saída é coletiva, é a partir da ancestralidade, da cultura popular, é partir da canção que não é só da cantora, mas de todos aqueles que estão acompanhando, cantando e juntando as mãos. O fim desse mundo não significa o fim por si só, mas é também um recomeço.
Bibliografia
- ALMEIDA, R. de. Cinema, imaginário e educação: os fundamentos educativos do cinema. Universidade de São Paulo. Faculdade de Educação, 2024. DOI: https://doi.org/10.11606/9786587047706
CAMPOS, F. A. de. Meios e fins do desenvolvimento para Celso Furtado. Revista Espaço Acadêmico, v. 14, n. 162, p. 79-83, 2014.
LATOUR, B. Diante de Gaia: oito conferências sobre a natureza no Antropoceno. Trad. Maryalua Meyer. Revisão técnica. André Magnelli. São Paulo / Rio de Janeiro: Ubu Editora / Ateliê de Humanidades Editorial, 2020.
LINDOSO, D. P. Adaptação à mudança climática: ciência, política e desenvolvimento sustentável. ClimaCom Cultura Científica – pesquisa, jornalismo e arte, ano 2, n.2, 2015.
RECIFE Frio. Direção: Kleber Mendonça Filho. Produção: Cinemascópio. Local: Recife. Vitrine Filmes, 2009.
RICOEUR, Paul. Hermenêutica e Ideologias. Trad. Hilton Japiassu. Petrópolis: Editora Vozes, 2013.
SANTOS, A. B. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora / PISEAGRAMA, 2023.