Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Luís Fellipe dos Santos (UERJ)

Minicurrículo

    Doutorando do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UERJ, tendo sido bolsista da CAPES nos dois primeiros anos e bolsista do Programa Nota 10 da FAPERJ a partir do terceiro ano. Foi pesquisador visitante na Université de Montpellier Paul-Valéry com bolsa CAPES – PDSE (2025-2026). Mestre pelo mesmo Programa, tendo sido bolsista da CAPES no primeiro ano e bolsista do Programa Nota 10 da FAPERJ no segundo ano. Graduado em Letras – Português e Literaturas de Língua Portuguesa pela UFRJ.

Ficha do Trabalho

Título

    Pensar com imagens: filme-ensaio contemporâneo como experiência sensível em Inconfissões

Resumo

    Esta comunicação analisa a obra Inconfissões (2018), de Ana Galizia, e propõe compreender o filme-ensaio como um modo de pensamento sensível. Amparando-me em Català, Bellour e Bourriaud, investigo como a articulação entre imagens, montagem e experiência produz sentido e mobiliza o espectador na construção do pensamento no seu encontro com a obra.

Resumo expandido

    Esta intervenção surge como um desdobramento do que pesquiso em meu doutoramento, no qual estudo o filme-ensaio brasileiro contemporâneo partindo de curtas exibidos no festival É Tudo Verdade. Nos últimos anos, tenho me debruçado sobre o filme-ensaio não apenas como uma forma cinematográfica, mas como um modo de pensamento – um pensamento que se constrói nas e pelas imagens, e pelos gestos que as atravessam. Em diálogo direto com Català, parto da ideia de que há um pensamento-ensaio, não apenas uma tradução de um discurso racional, mas uma experimentação sensível que se constrói no espaço entre o ver e o pensar. É nesse espaço intermediário, o qual Raymond Bellour chama de entre-imagens, que o pensamento se move, de maneira hesitante, fragmentário, atravessado por gestos, vozes e afetos.
    É a partir dessa perspectiva que eu gostaria de propor um pensamento sensível do filme-ensaio. Um pensamento que não se organiza em torno de conceitos fechados, mas se aproxima daquilo que sentimos e imaginamos diante das imagens. Se o ensaio, como nos sugere Català, pensa com imagens, talvez o filme-ensaio também pense pelas sensações que ele provoca: como a textura da imagem, o tempo dos gestos cotidianos e pelo modo como o olhar toca o mundo.
    Sustento que o filme-ensaio é construído a partir de imagens, sons e outras técnicas. Sendo assim, minha hipótese propõe que todos esses elementos são necessários para o desenvolvimento do pensamento sensível. Para mim, o filme-ensaio se desdobra dentro de uma estética relacional, inspirada em Bourriaud. É essencial que se estabeleça uma relação, não apenas entre a obra e os espectadores, mas também entre os elementos utilizados. O sentido do filme emerge dessa relação, que é fundamental para a construção do pensamento.
    O filme-ensaio ocupa esse espaço de estranheza, escapando a definições exaustivas que insistem em categorizá-lo. É sutil, elusivo e existe na fronteira, deixando-nos incertos se é um documentário, um filme de ficção ou um filme experimental. É algo. Mas não é só isso.
    O significado do filme-ensaio reside nesse espaço intermediário, nesse espaço liminar onde imagens, narração, som e montagem convergem. Esse espaço híbrido onde a definição falha. É nesses espaços intermediários, criados pelos filmes-ensaio, que os pensamentos emergem.
    Nesses filmes, o espectador é convidado a agir ativamente e construir significado a partir dos fragmentos de imagens, sons e narrativas que lhe são apresentados. Nada é gratuito, mas também devemos agir de forma colaborativa com o cineasta. Somos convidados a trabalhar como espectadores-montadores.
    A construção é feita através da experiência, e cada pessoa tem a sua própria. É por isso que proponho considerar o filme-ensaio como um veículo para um pensamento sensível: um pensamento que não se estrutura em torno de conceitos fechados, mas se desdobra na experiência perceptiva das imagens.
    Desse modo, analisarei um dos filmes que compõem o meu corpus, Inconfissões (2018), de Ana Galizia. O filme mobiliza imagens de arquivo, fotografias e imagens em super-8, como operadores de pensamento sensível para reconstruir, de forma fragmentária, a memória de Luiz Roberto Galizia. Interessa-me observar como o filme articula esses materiais não apenas como documentos, mas como operadores de pensamento, produzindo um campo sensível no qual memória, afeto e fabulação se entrelaçam.
    Assim, a análise busca evidenciar como o filme-ensaio, ao habitar um espaço liminar entre formas e regimes de imagem, instaura um modo singular de pensamento, que se desdobra na experiência, na relação e na abertura ao seu espectador.

Bibliografia

    BELLOUR, Raymond. Entre-imagens – Foto, cinema e vídeo. Campinas: Editora Papirus, 1997.
    BENJAMIN, Walter. L’opera d’arte nell’epoca della sua riproducibilità tecnica. Torino: Einaudi, 2000.
    BOURRIAUD, Nicolas. Estética Relacional. São Paulo: Martins Fontes, 2024.
    CATALÀ, Josep Maria. Estética do ensaio: A forma ensaística, de Montaigne a Godard (Prismas nº 11). Valência: Publicações da Universidade de Valência. Edição Kindle, 2014b.
    BLÜMLINGER, Christa. “O atrativo de planos encontrados”. In: Devires. Belo Horizonte, v. 12, n. 1, 2015.
    BLÜMLINGER, Christa. “Leer entre las imágenes”. In: WEINRICHTER, Antonio (Org.). La forma que piensa: tentativas en torno al cine-ensayo. Pamplona: Governo de Navarra, 2007.
    RASCAROLI, Laura. The Personal Camera – Subjective cinema and the essay film. Londres: Wallflower Press, 2009.
    RASCAROLI, Laura. How the essay film thinks. Nova Iorque: Oxford University Press, 2017.
    RASCAROLI, Laura. “Unfolding Borders: For a Semiotics of Essayistic Border Images”.