Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Davi Ribeiro Pedro Braga (PPGCine – UFF)

Minicurrículo

    Davi Pedro Braga é mestrando no PPGCine – Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense. Possui graduação em Cinema pela mesma instituição. Atua como técnico de preservação no Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual (LUPA – UFF). É colaborador da Revista Limite – Revista de ensaios e crítica de arte.

Ficha do Trabalho

Título

    Riso, nazismo e comunismo: política, guerra e estilo tardio em Charlie Chaplin e Jerry Lewis.

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Propondo uma análise comparativa de obras tardias com temáticas políticas e históricas das filmografias de Charlie Chaplin (Um Rei em Nova York, 1957) e Jerry Lewis (Qual o Caminho para a Guerra?, 1970), observaremos como elementos autobiográficos irrompem no seio das narrativas e os aproximam. Acreditamos que estes elementos, somados à uma transformação radical na forma em relação a seus filmes anteriores, indicam uma vinculação com aquilo que Adorno e Said definem como “estilo tardio”.

Resumo expandido

    O caráter político na obra de Charlie Chaplin é ressaltado sobretudo em filmes como Tempos Modernos (1936), O Grande Ditador (1940) e Monsieur Verdoux (1947). Seja em seu canto do cisne no cinema mudo, na deflagração de um confronto direto com Adolf Hitler ou na denúncia da hipocrisia mundial por sua postura belicista, o intérprete de Carlitos sempre se posicionou como um cineasta consciente do papel que ocupava no século XX e o alcance de seus filmes neste contexto. Para além do engrandecimento de sua obra e figura, a culminação de todo este movimento foi sua taxação como comunista pelo Comitê de Atividades Antiamericanas e a posterior proibição de entrada nos Estados Unidos nos anos 1950.

    A perseguição não abalou Chaplin, que aproveita do fato em Um Rei em Nova York (1957), filme no qual interpreta o Rei Shahdov, líder de um país fictício que é deposto e busca asilo político justamente nos EUA, ficcionalizando assim sua própria presença no país. Para além de gags focadas na situação do império norte-americano, o filme se concentra sobre a representação metatextual de Chaplin como uma personagem envelhecida, um homem sem o vigor de outrora, deslocado não apenas no espaço (um país no qual ele não deveria ou poderia estar) como também no tempo – durante o filme, ele se mostra avesso a experiências comuns do hiper estilizado cotidiano do país, como se tornar uma estrela publicitária ou fazer uma cirurgia plástica para parecer mais jovem.

    O discurso político é mais sútil do que em outrora, abordado através da amizade que o Rei cultiva com Rupert, jovem interpretado por seu filho, Michael Chaplin, cujos pais estão presos acusados de serem comunistas. Chantageado pelas autoridades, o rapaz entrega dois amigos da família também perseguidos em troca da liberdade de seus pais. Suas lágrimas e silêncio ao encontrar o Rei pela última vez ao final do filme demarcam uma grande diferença quanto aos discursos de tons enfáticos de O Grande Ditador e Monsieur Verdoux, embora não se possa dizer, como fizeram alguns críticos, que sua posição era tímida. Ela indica, na verdade, um estilo tardio – nos moldes do que definem Adorno e Said – de Chaplin no momento final de sua carreira.

    Outro expoente do panteão de cineastas burlescos, Jerry Lewis realizou, em 1970, Qual o caminho para a guerra?, filme que destoa de sua produção anterior concentrada na década de 1960; ambientado na Segunda Guerra, ele mostra Lewis como um milionário entediado, Brandon Byers III. Frustrado com a sensação de já ter “conquistado” tudo (embora seja um herdeiro), Byers é surpreendido com sua convocação para a guerra. Para maior surpresa, ele é rejeitado junto de outros três outsiders, todos com motivos de sobra para preferirem se isolar nas trincheiras a resolverem seus problemas em casa. Traumatizado pela rejeição, o protagonista propõe a eles a insana ideia de que criem um exército privado e embarquem sozinhos no conflito contra a Alemanha nazista.

    Indomável na sua verve absurda, o filme abre mão de discursos frontais como os de Chaplin para pintar todo o entourage bélico como um celeiro de loucuras do qual Lewis é a maior potência. Um de seus últimos filmes na direção, Qual o caminho para a guerra? também contém um acentuado viés autobiográfico. Se Lewis nunca deixou de refletir sobre sua própria posição dentro do show business na safra dos anos 1960, este filme de 1970 parece ser mesmo um espelho: Brendan Byers, o milionário entediado, é na verdade Jerry Lewis, o cineasta que acreditava ter esgotado suas possibilidades nos anos 60 – daí a virada brusca de tema e estilo. Lidando com um tópico mais sensível, Lewis inaugura uma nova fase de sua filmografia, que nem por conta de seu fracasso deixa de conter uma singularidade admirável.

    A proposta comparação entre os filmes traçará melhor a fase final da carreira de dois dos cineastas mais icônicos do cinema americano, e entender a influência de suas respectivas trajetórias em cada uma delas.

Bibliografia

    ADORNO, Theodor W. “Late Style in Beethoven.” In Essays on Music. Berkeley: University of California Press, 2002, p.564–68

    BAZIN, André. Charlie Chaplin. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

    BENAYOUN, Robert. D’une mégalomanie en saine remontée. In. Positif – Revue du cinéma, no. 122, dezembro de 1970.

    DANEY, Serge. Which Way to the Front?. In Cahiers du cinéma, no. 228. Paris: Março/Abril de 1971: 60–61.

    FUJIWARA, Chris. Jerry Lewis. Chicago: Urbana: University of Illinois Press, 2009.

    HINCHLIFFE, Arnold. The absurd. Londres: Methuen, 1987.

    MARÍAS, Miguel. Repelling Rejection, or: The Disappearance of Jerry Lewis, and Some Side-Effects. In: LOLA, Issue 3: Masks, 2012. Disponível em www.lolajournal.com/3/lewis.html

    NACACHE, Jacqueline. O Cinema Clássico de Hollywood. Lisboa: Edições Texto e Grafia, 2005.

    SAID, Edward W. Estilo tardio. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

    RECASENS, Gérard. Jerry Lewis. Paris: Éditions Seghers, 1970.