Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Lucas Andries Mendonça de Castro (USP)

Minicurrículo

    Roteirista, redator e produtor cultural. É bacharel em Rádio, TV e Internet pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), mestrando no PPG em Artes Cênicas da Universidade de São Paulo (USP) e tem capacitação em roteiro audiovisual pela Roteiraria. É também idealizador do Escreva!, espaço de formação gratuita sobre narrativas.

Ficha do Trabalho

Título

    A dança como afetação sensorial em Suspiria (2018)

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    O trabalho investiga a dimensão sensorial em Suspiria (2018). A partir da análise de cenas de dança e dos conceitos de produção de presença, de Gumbrecht (2010), e de dança como cinema, como proposto por Borges (2022), estuda-se como o aparato audiovisual é mobilizado para propor uma afetação do espectador pelo corpo. Argumenta-se que as danças constroem uma “dramaturgia das formas puras” (Rohmer, 1991) que deslocam a fruição do racional para o sensorial, tornando o horror uma apreensão corpórea

Resumo expandido

    O filme de horror Suspiria (2018), dirigido por Luca Guadagnino, acompanha o enredo de Susie Bannion, uma jovem norte-americana que se muda para a Alemanha para ingressar em uma prestigiada academia de dança. Mas, sob a fachada de instituição de ensino, oculta-se algo sombrio: suas professoras são, na realidade, bruxas.
    O nosso trabalho investiga de que modo o longa mobiliza seus elementos formais nas cenas de dança visando propor ao espectador uma experiência que ultrapassa a fruição intelectual de uma narrativa, adquirindo, muitas vezes, contornos pulsionais e suscitando uma afetação do público pelo corpo. Importante salientar que este trabalho consiste em um recorte de uma pesquisa maior em andamento, intitulada “O coração sensorial de Suspiria”, que está sendo desenvolvida em nível de mestrado no âmbito do PPG em Artes Cênicas da Universidade de São Paulo (USP).
    Partimos de um questionamento relevante proposto por Paulo Santos Júnior (2019): em uma atualidade marcada pela dispersão da atenção e bombardeios constantes (e estonteantes) de informação, como convocar os indivíduos para as salas de cinema, espaços projetados para que a atenção se concentre em um único ponto, a tela? O autor nota, levando em conta as várias possibilidades de adaptação do cinema à cultura sensorial do público contemporâneo, que uma das reconfigurações possíveis consiste exatamente em narrativas cujo interesse reside, em maior ou menor grau, no deslocamento da fruição das obras, favorecendo um regime menos ancorado na intelectualidade e mais aberto à afetação sensorial.
    À luz de tal perspectiva, nos valemos do conceito de produção de presença, do alemão Hans Ulrich Gumbrecht, que “aponta para todos os tipos de eventos (…) nos quais se inicia ou se intensifica o impacto dos objetos presentes sobre corpos humanos” (Gumbrecht, 2010, p. 13). Isto é, em nossos estudos, aspectos cinematográficos que catalisam uma relação corporal entre público e filme em detrimento de uma interação pautada na interpretação. Santos Júnior (2019) destaca, inclusive, que esse autor associa as danças à produção de presença, especialmente pela importância que elementos como espaço, ritmo e concentração nos corpos possuem nesta arte.
    Analisaremos, dessa maneira, as cenas de dança em Suspiria (2018), notando que as construções formais propõem aos espectadores, muitas vezes, experimentá-las quase como se fossem dançarinos. Em consonância com o que observa Santos Júnior (2019), ouvimos em “primeiro plano” respirações e movimentações corporais viscerais de personagens, bem como experimentamos a visualização do espaço de modo entrecortado, como se dançássemos com movimentos de cabeça rápidos e bruscos.
    Isso sugere uma experiência das coreografias que procura ser cinematográfica – o que está atrelado, em algum nível, ao conceito de dança como cinema, tal como cunhado em 1969 pela cineasta Amy Greenfield e atualizado por Cristian Borges (2022). O termo se refere a uma dança que só existe em função do dispositivo cinema e que vive para ser captada pela câmera e organizada criativamente pela montagem.
    Contudo, argumentamos que, embora o espectador vivencie as coreografias, ele não executa movimentos de fato. Na realidade, ele vive a experiência “por procuração” (Xavier, 2003, p. 78): os espectadores são convidados a processar sensações cinéticas e espasmos (quase miméticos) em resposta às danças. Tal dinâmica resulta em afetações sensoriais, que, como Rodrigo Carreiro investiga no campo do som no cinema, permite que os filmes sejam experienciados não apenas com a audição e a visão, mas com o corpo inteiro (Carreiro, 2025).
    Concluindo, acreditamos que as cenas de dança em Suspiria, de 2018, produzem presença. Apesar de diegeticamente justificadas e de fazerem avançar a trama, elas operam em uma esfera mais sensorial do que cognitiva e apontam que o horror pode se materializar enquanto apreensão corpórea.

Bibliografia

    BORGES, Cristian. “A dança como cinema: sua sobrevida na tela, entre corpórea e conceitual”. Anais do 31° Encontro Anual da Compós, Galoá, 2022. Disponível em: https://proceedings.science/compos/compos-2022/trabalhos/a-danca-como-cinema-sua-sobrevida-na-tela-entre-corporea-e-conceitual?lang=pt-br. Acesso em: 9 abr. 2026.
    CARREIRO, Rodrigo. “Construindo um cinema sensorial: música, voz e efeitos sonoros além de fronteiras”. Revista Música, p. 377-401, 2025. Disponível em: https://revistas.usp.br/revistamusica/article/view/236166. Acesso em: 8 abr. 2026.
    GUMBRECHT, Hans. Produção de presença: o que o sentido não consegue transmitir. Rio de Janeiro: Contraponto/ PUC-Rio, 2010.
    ROHMER, Éric. L’Organisation de l’espace dans le Faust de Murnau. Paris: UGE, 1991.
    SANTOS JÚNIOR, Paulo. “Suspiria (2018) e o cinema de presença”. Rebeca, 2019. Disponível em: https://rebeca.socine.org.br/1/article/view/562. Acesso em: 8 abr. 2026.
    XAVIER, Ismail. O olhar e a cena. São Paulo: Cosac Naify, 2003.