Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Priscila de Assis Lopes de Andrade (UFMG)

Minicurrículo

    Priscila é artista visual e realizadora em audiovisual. Seus trabalhos e pesquisas são voltados para o cinema, atuando na interface entre fantasmagorias, assombros e agência das mulheres negras no processo de criação. Graduada em Artes Visuais pelo Instituto Federal do Ceará. Mestre em Artes pela Universidade Federal do Ceará. Doutoranda em comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Ficha do Trabalho

Título

    Fantasmagoria colonial: elaborar o espectro, expor a estrutura.

Mesa

    Cinema espectral: entre rastros e aparições

Resumo

    A proposta desta comunicação é argumentar que a fantasmagoria colonial se estrutura em dois eixos espectrais: como dispositivo invisível de expropriação, na produção de subalternização da vida, e como fantasma social, produzido pelas vidas atravessadas por esse processo. A análise mobiliza o filme Cães Errantes (2013), de Tsai Ming-liang, como exemplo dessa dupla dimensão: uma lógica que cria espectros e, ao mesmo tempo, é por eles assombrada, abrindo espaço para crítica e ruptura.

Resumo expandido

    Há um paradoxo na dupla estruturação da fantasmagoria colonial: se, por um lado, ela opera como sistema que subalterniza e expropria a vida, por outro, os fantasmas produzidos por esse processo passam a assombrar a própria estrutura que os engendrou. Entretanto, é aí que habita um perigo: a fantasmagoria colonial não se limita ao [re]torno dos espectros que emergem das vidas expropriadas, mas se ancora, sobretudo, em uma estrutura social que permanece, em grande medida, invisível, e é precisamente nessa invisibilidade que reside sua força. Trata-se de uma estrutura ainda presente nas formas de organização social e jurídica sob as quais vivemos, entre ruínas e vestígios. É preciso, portanto, elaborar a fantasmagoria colonial, sustentada por essas estruturas ainda vigentes, tanto quanto os fantasmas que emergem em confronto com essa máquina fantasmagórica.
    Quero dizer, com isso, que a assombração não reside apenas no [re]torno dos sujeitos, mas na exposição e elaboração das estruturas que produzem esses fantasmas. Essa organização social é, ela própria, espectral: não apenas porque nos assombra, mas porque possui uma materialidade que não se vê, embora sabemos que está ali. Confundir a fantasmagoria colonial com os fantasmas que ela gera é uma armadilha colonial. Trata-se de analisar tanto a máquina que produz espectros quanto as formas de assombração que a confrontam.
    Barreto escreve que “a fantasmagoria colonial tem cor, e sua escavação traz à tona faces da luta contra o racismo no Brasil” (BARRETO, 2019, p. 51), propondo a noção de fantasmagoria colonial e negrofeminina. No entanto, ao se pensar a fantasmagoria colonial, frequentemente se privilegia aquilo que ela produz, os fantasmas das vidas expropriadas, como se fossem a própria estrutura. É preciso, contudo, deslocar o olhar para a própria estrutura, compreendendo-a como fantasmática e geradora desses espectros.
    Nesse sentido, a fantasmagoria pode ser compreendida como uma forma de organização do visível e do invisível: um dispositivo que projeta, oculta e dá a ver espectros.
    A fantasmagoria colonial, de modo mais específico, opera em via dupla: é, ao mesmo tempo, a conjuntura da violência branca colonial, que produz subalternização e expropriação, e também a potência de ruptura dessa mesma estrutura. O espectro produzido pela violência colonial pode, em outros tempos, adquirir agência sobre aquilo que o engendrou. Essa transformação se dá pela assombração: “assombrar é uma maneira particular de saber o que aconteceu ou está acontecendo. Ser assombrado nos atrai afetivamente […] para uma realidade experimentada não como conhecimento frio, mas como reconhecimento transformado” (GORDON, 2008, p. 8).
    Essa dupla dimensão espectral aparece no filme Cães Errantes (2013), de Tsai Ming-liang, que acompanha um pai e seus dois filhos que vagam pela cidade e dormem em um lugar abandonado. Aqui, o fantasma não se apresenta como figura humana, mas como materialidade topográfica. Em uma cena, uma criança pergunta: “As rachaduras nas paredes são por causa de fantasmas?”. A mulher responde: “a casa é como uma pessoa, fica doente, fica velha”. Ao ser humanizada, a casa adquire corporeidade, adensando a presença espectral que atravessa a narrativa. Suas rachaduras e ruínas figuram no próprio fantasma da colonialidade.
    A fantasmagoria colonial se mantém ativa, produzindo espectros e sendo por eles tensionada. Em Cães Errantes, essa persistência se evidencia no vaguear da família e nas ruínas que habitam: não como exceção, mas como inscrição material dessa lógica. O filme, ao tornar visível essa condição, expõe tanto a máquina que produz espectros quanto os modos pelos quais esses corpos a assombram. O filme, assim, permite apreender tanto os fantasmas que encarnam a colonialidade, na produção de subalternização e expropriação que atravessa a vida dos personagens, quanto o espectro dessa família, que passa a assombrar a sociedade que a produziu.

Bibliografia

    ANDRADE, Priscila. ESCUTAS FANTASMAS: processos de criação entre memória, documento e ficção. Dissertação de mestrado em artes. PPGARTES-UFC: Fortaleza, 2026.

    DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx O Estado da dívida, o trabalho don luto e a nova Internacional.Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994.

    GORDON, Avery. Ghostly matters: haunting and the sociological imagination. Minneapolis: New University of Minnesota Press, 2008.

    BARRETO, Paola. Fantasmas Coloniais. Dramaturgias do real. Monica Toledo Silva (org.). Belo Horizonte: Impressões de Minas, 2019.

    ROBERTSON, E. G. (Etienne Gaspard). Mémoires récréatifs, scientifiques et anecdotiques du physicien-aéronaute E.G. Robertson. Paris: Chez l’auteur et à la Librairie de Wurtz, 1831.