Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Bernardo Ladaniski (UNESPAR)

Minicurrículo

    Estudante do curso de bacharelado em Cinema e Audiovisual na UNESPAR/FAP. É bolsista do Programa de Iniciação Científica (PIBIC/Unespar) com fomento da Fundação Araucária no ciclo entre setembro de 2025 a agosto de 2026 sob orientação do Professor Dr. Alexandre Rafael Garcia. Faz parte do grupo de pesquisa Cinecriare: Cinema – Criação e Reflexão (Unespar/CNPq). Dirigiu dois curtas-metragens e produziu outros três, com interesse também na área de distribuição.

Ficha do Trabalho

Título

    A topofilia como escape do trabalho em “A Ilha de Bergman” e “O Fim da Viagem, O Começo de Tudo”.

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    A partir de “A Ilha de Bergman” (2021) e “O Fim da Viagem, o Começo de Tudo” (2019) a comunicação busca analisar a organização espacial presente em ambos os filmes na criação de um elo afetivo entre cineastas e personagens, que viajam a trabalho, com as paisagens através da mise en scène. Se apoia nos conceitos de topofilia (Yi-Fu Tuan) e olhar do turista (John Urry) para reforçar como a condição estrangeira pode afetar a criação de vínculos com os lugares visitados.

Resumo expandido

    No filme “A Ilha de Bergman” (2021) a diretora francesa Mia Hansen-Løve mostra um casal que viaja para a ilha de Fårö, na Suécia, para que cada um deles escreva um roteiro, além de conhecer o local que Ingmar Bergman viveu e filmou. Paralelamente, em “O Fim da Viagem, O Começo de Tudo” (2019), o diretor japonês Kiyoshi Kurosawa acompanha uma equipe de TV japonesa em sua jornada pelo Uzbequistão para a gravação do episódio final de um programa de viagens. As obras selecionadas compartilham dois eixos fundamentais, sendo o primeiro a condição estrangeira dos cineastas e de suas protagonistas em relação ao local onde a história se desenvolve. O segundo ponto reside no fato de que as protagonistas viajam para outro país a trabalho, contudo, a exploração espacial do destino acaba por se tornar uma forma de escape. Estabelece-se, assim, uma relação profunda entre personagem e espaço que pode ser estendida para a própria relação entre cineasta e ambiente filmado, na medida em que há o interesse em explorar as paisagens formalmente a partir da mise en scène. Diante desses fatores, busca-se realizar uma análise comparativa focada na forma e no estilo de Hansen-Løve e Kurosawa, observando a representação espacial turística proposta por cada um deles em seus respectivos filmes a partir dos conceitos de topofilia, de Yi-Fu Tuan, e olhar do turista, de John Urry.
    O geógrafo Yi-Fu Tuan define topofilia como “o elo afetivo entre a pessoa e o lugar ou ambiente físico. Difuso como conceito, vivido e concreto como experiência pessoal […]” (2015). Por meio dessa visão, é possível destacar as protagonistas, Chris (Vicky Krieps) e Yoko (Atsuko Maeda), das demais personagens secundárias. São elas que portam um olhar singular sobre a paisagem e constroem uma conexão sensível com o lugar durante a viagem. Tal dinâmica afeta diretamente a mise en scène, fazendo com que ambos os cineastas utilizem a linguagem cinematográfica para criar uma dimensão espacial afetiva através de panorâmicas, travellings e planos abertos que se estendem e aparentam ter uma prioridade maior em comparação com planos que não valorizam o ambiente. Além disso, os dois filmes têm a mesma proporção de tela panorâmica (2.39:1), que destaca as paisagens encontradas pelas personagens dentro da diegese e pelos cineastas em sua filmagem. Em contrapartida, observa-se o oposto no vínculo dos demais personagens. Em “A Ilha de Bergman”, Tony (Tim Roth) percorre o local de modo institucionalizado, seguindo roteiros consagrados, enquanto no filme de Kurosawa, a equipe de TV encara o ambiente de forma fria e funcional, evitando vínculos que não sejam trabalhistas.
    Nesse sentido, a análise também incorpora as reflexões do sociólogo John Urry sobre o “olhar do turista”, processo pelo qual o visitante transforma elementos cotidianos em algo especial. Urry articula essa noção com a figura do flâneur, o indivíduo que caminha sem rumo fixo pelos ambientes, observando-os e deparando-se com o novo e o inesperado. Verifica-se, portanto, que as protagonistas são figuras que se relacionam de forma topofílica com o entorno e possuem um olhar capaz de ver o extraordinário no que é comum. A forma fílmica atravessa essas questões e exibe o encantamento sentido pelas personagens ao tornarem o espaço também um protagonista. O próprio Urry reforça em seus textos o vínculo histórico da fotografia e da imagem com o turismo na perspectiva de organização espaço-temporal, o que valida a proposta de que a câmera, nestas obras, organiza a percepção subjetiva do lugar visitado.
    Posto isso, é verificável em ambos os filmes uma confluência singular na busca de um elo afetivo entre personagens e cineastas com as paisagens presentes no país visitado. Desde o modo de produção até na narrativa “A Ilha de Bergman” e “O Fim da Viagem, O Começo de Tudo” são obras que evidenciam a profunda relação existente entre pessoas e lugares, sendo a própria imagem cinematográfica um registro dessa experiência.

Bibliografia

    BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin. A Arte do Cinema: Uma Introdução. Campinas: Editora Unicamp, 2013.

    GARCIA, Lawrence. Two Weeks in Another Town: Kiyoshi Kurosawa Discusses “To the Ends of the Earth”. Notebook, 30 set. 2019. Disponível em: https://mubi.com/en/notebook/posts/two-weeks-in-another-town-kiyoshi-kurosawa-discusses-to-the-ends-of-the-earth.

    HANSEN-LØVE, Mia. Bergman Island: How Two Trips to Ingmar Bergman’s Home Inspired Mia Hansen-Løve. MovieMaker, 8 maio 2025. Disponível em: https://www.moviemaker.com/bergman-island-mia-hansen-love/.

    JULLIER, Laurent; MARIE, Michel. Lendo as Imagens do Cinema. São Paulo: Editora Senac, 2012.

    TUAN, Yi-Fu. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. Londrina: Eduel, 2015.

    TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. Londrina: Eduel, 2015.

    URRY, John. The Tourist Gaze. 2. ed. SAGE Publications, 2002.

    ZAN, Vitor. Espaço, lugar e território no cinema. Galáxia, v. 47, 2022, p. 1-23.