Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Gabriel José Batista Lima (UFC)

Minicurrículo

    Gabriel Lima é roraimense formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR), mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará (UFC). Produtor cultural, roteirista das obras Rosa D’água e Nem Tudo Reluz, diretor dos curtas Mecanismo (2022) e O dia em que fomos aos cinemas (2025).

Ficha do Trabalho

Título

    Cinema e Sonho Yanomami: Rituais da imagem em “Casa dos Espíritos” e “A Árvore do Sonho”

Seminário

    Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos

Resumo

    O projeto analisa o cinema de Morzaniel Iramari como sistema cultural e ritualístico. Com base em Clifford Geertz, investiga-se como as obras “Casa dos Espíritos” (2010) e “A Árvore do Sonho” (2023) fundem o mundo vivido e o imaginado através do xamanismo e do sonho. A análise foca no audiovisual como flecha digital, propondo que a imagem atua como comportamento consagrado na fixação da memória ancestral e na reexistência política frente ao caos provocado pelo contato com culturas distintas

Resumo expandido

    Os Yanomami, somam aproximadamente 54 mil pessoas que ocupam um território de cerca de 220 mil km² de floresta, situado de um lado e do outro da fronteira do Brasil com a Venezuela. Seu território de 96 650 km², um pouco mais vasto que Portugal, foi homologado por um decreto presidencial em 25 de maio de 1992 (Kopenawa, 2023).
    O trabalho propõe uma análise interpretativa da cinematografia de Morzaniel Iramari Yanomami, compreendendo-a como um dispositivo de arquivismo vivo e decolonial. O cinema indígena yanomami não pode ser compreendido apenas como um registro documental, ele deve ser analisado como um sistema cultural, uma ferramenta de luta. Morzaniel Iramari, ao apropriar-se da tecnologia ocidental, transforma a câmera em uma ferramenta de contatos, de resistência. Sob a ótica de Clifford Geertz, essa prática insere-se em uma teia de significados que o próprio povo teceu e na qual se constitui. O audiovisual torna-se o suporte para o que Geertz chama de descrição densa: uma interpretação do fluxo do discurso social que busca salvar o dito de sua possibilidade de extinguir-se, fixando-o em formas pesquisáveis e vivas.
    O foco recai sobre mudanças simbólicas de duas de suas obras: “Watoriki Xapiripë Yanopë – Casa dos Espíritos” (2010) e “Mãri Hi – A Árvore do Sonho” (2023). A problemática investiga como o cinema traduz a cosmovisão Yanomami em narrativas que articulam o xamanismo e o onirismo como flechas digitais de reexistência frente ao caos provocado pelo contato com culturas distintas.
    Este trabalho fundamenta-se na teoria de Clifford Geertz, que define a cultura como um sistema de símbolos que estabelece motivações poderosas ao vestir concepções de existência com uma aura de fatualidade (componente fundamental da religião que transforma conceitos abstratos sobre o mundo em realidades inquestionáveis). A hipótese defendida é que o ato cinematográfico de Morzaniel opera como um ritual contemporâneo no qual o mundo como vivido e o mundo como imaginado fundem-se, transformando o sentido de realidade dos sujeitos.
    A análise incorpora contribuições de Hanna Limulja sobre a teoria da pessoa Yanomami, na qual o sonho (mari) é o momento em que a imagem (utupë) locus dos sentimentos, do conhecimento e da volição se desprende do corpo para interagir com a alteridade. Em “Casa dos Espíritos”, o ritual cinematográfico fixa a imagem dos espíritos auxiliares (xapiripë), permitindo que a ancestralidade seja traduzida de forma transmodal para outras culturas. Já em “Mãri Hi”, o cinema explora a Árvore do Sonho, criada pelo demiurgo Omama para que os humanos pudessem estudar e conhecer a floresta através da visão das imagens.
    Diante a análise geertziana, esses filmes funcionam como modelos de (expressando a estrutura da realidade espiritual) e modelos para a realidade social. O onirismo yanomami, revelado na tela, não é um evento privado, mas um ato motivado pelo desejo dos outros (espíritos, mortos e inimigos). O cinema retrata, então, um comportamento consagrado de resistência: ao fixar o saber onírico, os yanomami refutam o desejo de morte imposto pelos pore (espectros) e pelas violências externas, reafirmando o compromisso de continuar vivos (ya temi xoa).
    Conclui-se que a cinematografia de Morzaniel Iramari realiza uma psicologia metafísica, onde, ao utilizar a flecha digital para projetar a subjetividade e a ancestralidade na tela, o cineasta permite que a cultura seja observada sobre o viés da importância da sua sobrevivência. E sob a análise de Geertz e Limulja, o cinema yanomami é um sistema simbólico que torna a resistência indígena singularmente realista, o audiovisual assim contribui para proteger contra o absurdo da invasão física e cultural, fornecendo um vocabulário visual para o que é sagrado. Desta forma, o sonho, socializado através da imagem fílmica, torna-se o fundamento de uma política do significado, onde viver longe do “mundo de pedras” é apresentado como o único modo genuinamente racional de existir.

Bibliografia

    ALBERT, B.; KOPENAWA, D. O espírito da floresta. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.

    BRASIL, André; BELISÁRIO, Bernard. Desmanchar o cinema: variações do fora-de-campo em filmes indígenas. Revista Sociologia & Antropologia, v. 06, p. 601-634, 2016.

    DAMINELLO, L. A. Uma etnografia de dentro para fora: ensaios sobre cinema indígena. Porto Alegre: Editora Sulina, 2020.

    FELIPE, M. A. Domínios do Cinema Indígena: a problemática do sujeito revisitada. Revista Brasileira de Estudos da Presença, v. 14, n. 1, 2024.

    GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.

    LIMULJA, Hanna. O desejo dos outros: uma etnografia dos sonhos yanomami. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

    MIGNOLO, W. D. O pensamento descolonial, o desprendimento e a abertura: um manifesto. Telar, n. 3, 2005.

    STAM, R. Introdução à teoria do cinema. Campinas: Papirus, 2003.