Ficha do Proponente
Proponente
- Lara Freitas de Carvalho (UFBA)
Minicurrículo
- Lara Carvalho é professora de Cinema e Audiovisual na UFBA, doutoranda e mestre pelo Póscom/UFBA. Roteirista, realizadora e pesquisadora soteropolitana, integra o grupo (An)arqueologias do Sensível. Pesquisa cinemas feitos por mulheres e questões do corpo, do sensível, da ritualidade e do espectral no audiovisual. Autora de livros sobre mulheres no cinema, assina os projetos autorais 56 Dias, Menarca, Meridianos e Fuxicos.
Ficha do Trabalho
Título
- O que insiste na imagem: ruído, fantasmagoria e materialidade técnica
Mesa
- Cinema espectral: entre rastros e aparições
Resumo
- Discute-se a fantasmagoria audiovisual como dado ontológico material: sistemas de captação e armazenamento vulneráveis a ruídos, interferências e até mesmo raios cósmicos. O audiovisual, como um regime de presença instável, aponta para a virada espiritual no período vitoriano e a mais recente virada espectral na história das mídias. Dialoga-se sobre fantasmas coloniais em cinemas do Sul Global, a potência de uma necromancia arquivística e o uso de IA para conjurar imagens sem indexicalidade.
Resumo expandido
- Com este trabalho, propõe-se uma leitura ontológica da fantasmagoria no audiovisual, compreendida como condição material inerente aos dispositivos técnicos de captação, processamento e armazenamento de imagem e som. Parte-se da hipótese de que tais dispositivos constituem campos de inscrição expostos, estruturalmente vulneráveis à interferência de forças não intencionais – como ruídos eletromagnéticos, deteriorações materiais ou mesmo eventos de origem cósmica (Hess, 1932; Ziegler, 1996) – que introduzem perturbações nos registros audiovisuais. Nesse sentido, o audiovisual se configura como um regime de presença instável, continuamente atravessado por inscrições que excedem o controle humano.
A história das mídias evidencia essa instabilidade como potência fantasmagórica constitutiva. Desde o fonógrafo, frequentemente associado, em sua recepção inicial, à evocação de vozes ausentes, até as práticas de spirit photography no século XIX (Ferreros, 2025), observa-se a emergência de um imaginário técnico-espiritual que acompanha o desenvolvimento dos dispositivos de registro. Ainda que distintos em seus regimes de validade científica, esses fenômenos apontam para um traço comum: a compreensão das mídias como superfícies sensíveis à inscrição de forças invisíveis. Essa linhagem se desdobra em experimentações como a fotografia Kirlian e o Haunt Project (French et al, 2009), que investigam, por meio de campos eletromagnéticos e infrassom, a produção de sensações de presença, e alcança o contemporâneo digital, onde glitches e soft errors revelam a abertura dos sistemas computacionais a eventos aleatórios que interferem diretamente no código (Ziegler et al, 1996; Menkman, 2011).
A partir desse enquadramento, propõe-se pensar o espectral como efeito da própria materialidade instável das imagens técnicas (Felinto, 2008). No cinema, essa condição se articula a processos históricos e políticos, especialmente no contexto do Sul Global, onde a espectralidade frequentemente se associa à persistência de violências coloniais (Carvalho, 2025). Em obras como Noche de Fuego (Tatiana Huezo, 2021), La Teta Asustada (Claudia Llosa, 2009) e Exhuma (Jang Jae-hyun, 2024), o fantasmagórico emerge como forma de inscrição de memórias interrompidas, nas quais corpos, territórios e arquivos operam como superfícies de reativação de traumas históricos.
Nesse contexto, apresenta-se aqui a noção de necromancia arquivística como prática crítica de escuta de arquivos audiovisuais e dos vestígios materiais das imagens – arranhões, falhas de sincronia, interrupções – compreendidos como índices de uma memória que resiste à estabilização, bem como efeitos materiais do tempo e do espaço na superfície de inscrição. Tal perspectiva se desdobra, no presente, em investigações sobre inteligência artificial generativa, entendida aqui como um dispositivo de produção de imagens sem referente direto. Ao operar por meio de modelos probabilísticos, esses sistemas tensionam a indexicalidade fotográfica e instauram uma fantasmagoria maquínica, na qual presenças emergem da articulação entre dados, cálculo e ruído.
Ao articular materialidade técnica, história das mídias e práticas contemporâneas, o trabalho propõe deslocar a espectralidade para o campo das condições de possibilidade das imagens técnicas, contribuindo para o debate sobre as formas pelas quais o audiovisual elabora presença, ausência e memória.
Bibliografia
- CARVALHO, Lara. What remains: Latin American cinema and the spectres of colonization. 2025.
FELINTO, Erick. A imagem espectral: comunicação, cinema e fantasmagoria tecnológica. São Paulo: Ateliê, 2008.
FERREROS, Ronella. An exploration of deception and belief: spirit photography. The iJournal, v. 11, n. 1, p. 71–84, 2025.
FRENCH, Christopher et al. The “Haunt” project. Cortex, v. 45, n. 5, p. 619–629, 2009.
HESS, Victor F. The penetrating radiation in the atmosphere. Reviews of Modern Physics, v. 4, n. 4, p. 459–498, 1932.
KIRLIAN, Semyon D. et al. Sobre as manifestações luminosas. Journal of Scientific and Applied Photography, v. 6, p. 317–323, 1939.
MENKMAN, Rosa. The glitch moment(um). 2011.
ZIEGLER, James F. et al. IBM experiments in soft fails. IBM Journal, v. 40, n. 1, p. 3–18, 1996.