Ficha do Proponente
Proponente
- André Corrêa da Silva de Araujo (UFRGS)
Minicurrículo
- André Araujo é professor e pesquisador. Doutor em Comunicação pela UFRGS, pesquisa atualmente temas vinculados à filosofia da comunicação, literatura especulativa, humanidades ambientais e estudos de mídia. É membro fundador do Grupo de Pesquisa em Ecologia das Práticas (GPEP) e do Grupo de Pesquisa Semiótica e Comunicação (GPESC).
Ficha do Trabalho
Título
- Fantasmas do Deserto: arquivos, espectralidade e geotrauma em Nostalgia de la luz
Mesa
- Cinema espectral: entre rastros e aparições
Resumo
- Este trabalho discute o filme Nostalgia de la luz, de Patricio Guzmán, propondo o deserto do Atacama como um meio de inscrição que articula registros geológicos, arqueológicos, cósmicos e políticos. Ao reunir cientistas e familiares de desaparecidos da ditadura de Augusto Pinochet, Guzmán propõe uma geosemiótica capaz de analisar a paisagem, como arquivo espectral, onde memória, tecnologia, extração e violência histórica se entrelaçam.
Resumo expandido
- O documentário Nostalgia de la luz (2010), de Patricio Guzmán, propõe uma reconfiguração radical da paisagem do deserto do Atacama ao concebê-lo não apenas como cenário, mas como um verdadeiro meio de inscrição. Este trabalho parte da hipótese de que o Atacama é apresentado como um dispositivo midiático complexo, no qual diferentes regimes de registro — geológico, arqueológico, astronômico e político — se sobrepõem e se articulam. Trata-se de pensar o deserto como um arquivo vivo, cuja materialidade geográfica sustenta práticas de leitura e escrita do passado em múltiplas escalas temporais. A partir da noção de meio tecno-geográfico desenvolvida por Gilbert Simondon, argumenta-se que o Atacama constitui um ambiente no qual condições climáticas e formações geológicas se acoplam a aparatos técnicos — como telescópios e instrumentos de medição — possibilitando a observação e o registro do tempo profundo do cosmos. Nesse contexto, o deserto emerge como suporte material para uma ecologia das mídias que ultrapassa o humano, aproximando-se da ideia de uma semiótica material, tal como sugerida por Donna Haraway.
O filme também apresenta diferentes comunidades de “leitores” do deserto: astrônomos, geólogos, arqueólogos e, especialmente, as mães dos desaparecidos da ditadura de Augusto Pinochet. Cada uma dessas práticas implica uma forma específica de hermenêutica da superfície terrestre, configurando aquilo que se pode chamar de uma geosemiótica. Nesse ponto, o Atacama deixa de ser um espaço vazio e passa a ser compreendido como uma paisagem densamente povoada por vestígios e inscrições que insistem em retornar. A noção de espectralidade é central para compreender esse regime. Inspirado na reflexão de Jacques Derrida sobre o cinema como máquina de produzir fantasmas — especialmente em Ghost Dance — o artigo propõe que o filme de Guzmán ativa uma conjunção entre o arquivo da paisagem e o arquivo cinematográfico. Como sugere Friedrich Kittler, as tecnologias de registro ampliam o mundo dos espíritos, preservando presenças espectrais que retornam continuamente. Nesse sentido, o cinema não apenas documenta o passado, mas o reanima, instaurando uma ontologia fantasmática da imagem. Essa dimensão espectral pode ser aprofundada a partir da noção de paisagem, de Anna Tsing, para quem toda paisagem é assombrada por modos de vida passados. No caso do Atacama, esses fantasmas incluem tanto eventos geológicos traumáticos quanto violências históricas — colonização, exploração mineradora e terrorismo de Estado. Propõe-se, assim, a noção de um regime geotraumático de inscrição, no qual as fronteiras entre natureza e história se tornam indistintas. A articulação entre arquivo e extração é igualmente central. Retomando a noção de “zona extrativa” de Macarena Gómez-Barris, argumenta-se que o Atacama é simultaneamente um espaço de memória e de exploração material. A presença espectral das minas — passadas e contemporâneas — evidencia a dependência material do cinema e da imagem em relação à geologia, conforme discutido por Nadia Bozak. Tal dependência se intensifica no presente com a extração de lítio no Salar de Uyuni, elemento fundamental para as tecnologias digitais contemporâneas. Por fim, o trabalho propõe compreender os fantasmas não apenas como figuras de trauma, mas como agentes políticos que articulam diferentes escalas — do mineral ao cósmico, do colonial ao tecnológico. Em diálogo com Gilles Deleuze, argumenta-se que a imagem cinematográfica, ao revelar as camadas geológicas e históricas da paisagem, torna visível o entrelaçamento entre Terra, história e luta. Em Nostalgia de la luz, o deserto não é apenas um arquivo: é um campo de forças onde memória, cinema e política se entrecruzam, fazendo dos fantasmas operadores centrais de uma crítica geocosmopolítica da imagem.
Bibliografia
- BOZAK, Nadia. The Cinematic Footprint: Lights, Camera, Natural Resources. New Brunswick: Rutgers University Press, 2012.
CRAWFORD, Kate. Atlas of AI. New Haven: Yale University Press, 2021.
DELEUZE, Gilles. Cinéma 2: L’image-temps. Paris: Minuit, 1985.
DERRIDA, Jacques. Specters of Marx. New York: Routledge, 1994.
GUZMÁN, Patricio. Nostalgia de la luz. Chile, 2010.
HARAWAY, Donna. Staying with the Trouble. Durham: Duke University Press, 2016.
KITTLER, Friedrich. Gramophone, Film, Typewriter. Stanford: Stanford University Press, 1999.
PETERS, John Durham. Speaking into the Air. Chicago: University of Chicago Press, 1999.
SIMONDON, Gilbert. Du mode d’existence des objets techniques. Paris: Aubier, 1958.
TSING, Anna. The Mushroom at the End of the World. Princeton: Princeton University Press, 2015.