Ficha do Proponente
Proponente
- Xosé Iván Villarmea Álvarez (USC)
Minicurrículo
- Iván Villarmea Álvarez trabalha como professor de história do cinema na Universidade de Santiago de Compostela (Galiza, Espanha). Publicou o livro ‘Documenting Cityscapes. Urban Change in Contemporary Non-Fiction Film’ (2015) e co-editou os volumes ’Memórias em Movimento. História e Trauma nos Cinemas Ibero-Americanos’ (2023), ‘New Approaches to Cinematic Space’ (2019) e ’Jugar con la Memoria. El Cine Portugués en el Siglo XXI’ (2014).
Ficha do Trabalho
Título
- Realismo mágico como ferramenta para o devir krahô nos filmes de Renée Nader Messora e João Salaviza
Resumo
- Esta proposta de comunicação tenciona analisar as estratégias de encenação das paisagens naturais e humanas que aparecem nos filmes ‘Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos’ (Messora & Salaviza, 2018) e ‘A Flor do Buruti’ (Messora & Salaviza, 2023) em relação com elementos próprios do realismo mágico com o intuito de explicar os procedimentos pelos quais os cineastas criam um terreno comum que possibilita uma maior compreensão intercultural entre a comunidade krahô e o público cinematográfico.
Resumo expandido
- O antropólogo visual David MacDougall escreveu há cinquenta anos que “nenhum filme etnográfico é meramente um registo de outra sociedade: é sempre um registo do encontro entre um cineasta e essa sociedade” (1975: 282). Quase meio século depois, a cineasta brasileira Renée Nader Messora e o cineasta português João Salaviza fizeram dois filmes junto à comunidade indígena krahô, no estado de Tocantins: ‘Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos’ (2018) e ‘A Flor do Buruti’ (2023). Estas duas ficções documentais utilizam o dispositivo cinematográfico como um lugar de encontro com a comunidade representada (Vilhena 2025, 156), onde o próprio processo de filmagem está concebido como “um ritual, um lugar-comum de atuação, onde cada interveniente tem o seu papel” (Messora em Roque 2024). Nesse sentido, o convívio entre cineastas e sujeitos representados antes, durante e depois da realização destes filmes permite negociar o seu lugar de fala: Messora e Salaviza tencionam fazer filmes colaborativos com e para a comunidade krahô em lugar de filmes expositivos sobre esta comunidade, embora construam uma representação pensada para espectadores que não fazem parte dela através da importação de narrativas externas à sua mundividência — nomeadamente, a narrativa da viagem iniciática de personagens individuais: primeiro, o itinerário de ida e volta entre a aldeia e a cidade de Ihjãc, o jovem xamã de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos; depois, a viagem para Brasília de Patpro, a mulher protagonista de A Flor do Buruti, com o intuito de participar nas mobilizações indígenas do ano 2021.
As paisagens —naturais e humanas— que aparecem representadas nestes dois filmes são a materialização em forma de espaços cinemáticos —espaços que apenas existe enquanto imagens cinematográficas— desses processos de negociação entre cineastas e sujeitos representados no tocante ao lugar de fala do filme. Estas paisagens têm uma dimensão objetiva, documental, enquanto registos de lugares e pessoas reais que habitaram o mundo histórico, mas também tem uma dimensão subjetiva, ficcional, enquanto espaços cinemáticos abertos à fabulação que surge como resultado da criação coletiva. Um dos elementos que permite abrir estes espaços à fabulação é o realismo mágico, percebido como ferramenta narrativa que revaloriza as crenças marginalizadas, questiona as narrativas dominantes e promove a construção de comunidades inclusivas.
O teórico da literatura Mariano Siskind tem refletido sobre a dupla consideração do realismo mágico como “uma estética universal que revela o núcleo sobrenatural da realidade” e, simultaneamente, também como “uma estética que pertence organicamente a culturas marginalizadas marcadas por experiências coletivas traumáticas de opressão” (2016, 101-102). No caso destes dois filmes, o realismo mágico, por um lado, permite representar os elementos sobrenaturais da mundividência krahô no mesmo plano de realidade cinematográfica que o registo objetivo de lugares e pessoas reais e, por outro lado, dá voz a uma comunidade marginalizada vítima da violência associada aos processos de luta pela terra entre comunidades indígenas e fazendeiros brancos. O realismo mágico, portanto, seria a resposta estética e narrativa ao desejo de dois cineastas desterritorializados de “devir krahô” (Messora em Roque 2024), isto é, de abraçar e partilhar a mundividência do outro, utilizando as figuras do fantasma, do espírito ou do xamã como mediadores para integrar as epistemologias do sul global no seu discurso cinematográfico.
Esta proposta de comunicação tenciona assim analisar as estratégias de encenação das paisagens naturais e humanas que aparecem nos filmes Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos e A Flor do Buruti em relação com elementos próprios do realismo mágico com o intuito de explicar os procedimentos pelos quais Messora e Salaviza criam um terreno comum que possibilita uma maior compreensão intercultural entre a comunidade krahô e o público cinematográfico.
Bibliografia
- · Gee, F. (2025). Magic Realism, World Cinema, and the Avant-Garde. Routledge.
· Lima, L. & Martins, A. (2021). Cristais cinemáticos em ‘Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos’, de João Salaviza e Renée Nader Messora. Cinema & Território 1 (6), 121-134.
· McDougall, D. (1975). Beyond Observational Cinema. In Hockings, P. (ed.), Principles of Visual Anthropology (pp. 109-124). Mouton.
· Nogueira, P. (2026). O Cinema de Manejo da Realidade: Entrevista com Renée Nader Messora e João Salaviza. Aniki. Revista Portuguesa da Imagem em Movimento 13 (1), 219-242.
· Roque, A. (2024). O cinema de Messora e Salaviza com o povo indígena Krahô: Uma mesa farta para todos. Buala. https://www.buala.org/pt/afroscreen/o-cinema-de-messorae- salaviza-com-o-povo-indigena-kraho-uma-mesa-farta-para-todos
· Vilhena, J. (2025). Tão Longe, Tão Perto: Paisagens do Deslocamento no Cinema Diaspórico Contemporâneo. Estudo Geral da Universidade de Coimbra. https://hdl.handle.net/10316/122005