Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Raphaela Benetello (UFMG)

Minicurrículo

    Doutora em Artes, na linha de Cinema, pelo Programa de Pós-graduação em Artes da UFMG. Mestra em Artes, Cultura e Linguagens pela UFJF. Desde 2017, é Técnica em Audiovisual na UFMG.

Ficha do Trabalho

Título

    Ponto de escuta imersivo e desdobramentos sensoriais

Seminário

    Histórias e tecnologias do som no audiovisual

Resumo

    O trabalho propõe o ponto de escuta imersivo como categoria analítica para escutas audiovisuais nas quais a espacialidade sonora tridimensional torna-se experiência corporal e afetiva, conduzindo o espectador às sensações vividas pelo personagem-ouvido. O conceito se articula a outras teorias e é verificado por análise fílmica que examina a mixagem orientada a objetos como amplificador afetivo, propondo novos instrumentos para a compreensão do lugar do ouvinte no audiovisual contemporâneo.

Resumo expandido

    O trabalho propõe o conceito de ponto de escuta imersivo como categoria analítica no campo dos estudos de som no audiovisual. Em análises anteriores, mapeamos as tecnologias de mixagem orientadas a objetos, como Dolby Atmos e MPEG-H, e suas possibilidades de escuta em dispositivos domésticos, apontando o potencial ainda subexplorado do som tridimensional como recurso expressivo para além da sala de cinema. A pesquisa atual avança para as implicações perceptivas e estéticas do uso dessas ferramentas e para a modalidade de experiência auditiva que delas emerge.
    O conceito parte da definição de ponto de escuta subjetivo (Chion, 2011), na qual o som é ancorado na representação da perspectiva de um personagem específico, mas busca expandi-lo ao considerar configurações sonoras nas quais o espectador é envolvido pelo campo acústico de modo tridimensional, participando da diegese como se estivesse inserido fisicamente em seu espaço. No ponto de escuta imersivo, o som vai além da escuta do personagem, envolvendo o corpo do espectador e inserindo-o dentro da ação fílmica. A espacialidade sonora torna-se uma experiência de presença, na qual é possível partilhar fisicamente as emoções, angústias e estados de tensão de seu personagem-ouvido.
    Essa proposição encontra base em um conjunto de elaborações teóricas, desenvolvidas em campos adjacentes, que acabam por convergir na compreensão da escuta como experiência corporal e afetiva. A primeira remonta à noção de valor acrescentado (Chion, 2011), segundo a qual o som atribui à imagem qualidades sensoriais que o espectador experimenta antes de uma elaboração interpretativa. Essa noção ganha certa densidade quando posta em diálogo com a visualidade háptica de Marks (2000), conceito pelo qual a autora descreve uma modalidade de percepção em que o sujeito suprime a distância em relação ao objeto e o experiencia como superfície sensível e envolvente. Transposta para o campo sonoro, essa lógica permite compreender o campo acústico tridimensional como uma forma de endereçamento háptico, em que o som envolve o espectador e o inclui em sua materialidade, atuando como presença sensorial. A partir dessa perspectiva, é válido também mencionar a ideia de ontologia vibratória de Goodman (2010), para quem o som é, em sua condição primária, vibração que atravessa e afeta o corpo inteiro, produzindo estados afetivos de ordem pré-cognitiva, anteriores à identificação da fonte sonora ou à apreensão de qualquer significado.
    No ponto de escuta imersivo, essas dimensões se articulam e se reforçam mutuamente, uma vez que a sensação acrescentada ao visível, a dissolução da distância perceptiva e a vibração que age sobre o corpo antes de ser reconhecida compõem juntas essa corporeidade que define a condição estética da escuta audiovisual espacializada.
    Para verificar de que modo essa escuta se manifesta, o trabalho pretende ainda identificar, através de análise fílmica, momentos em que o campo acústico deixa de apenas representar o espaço diegético e passa a produzi-lo como experiência sensorial direta para o espectador, agindo como um amplificador afetivo e corporal que define primariamente o conceito.
    A proposição deste conceito busca contribuir para o campo dos estudos de som no audiovisual ao compreender as possibilidades de transformação do lugar do ouvinte na narrativa a partir das tecnologias de mixagem de áudio imersivo. A partir do momento em que o som pode ser distribuído e movimentado no espaço, criando campos acústicos que ultrapassam os eixos fixos e independem de canais, a escuta avança a mediação narrativa e passa a atuar também com a ideia de imersão perceptiva.
    O ponto de escuta imersivo se apresenta, portanto, como categoria em desenvolvimento, cuja consistência teórica pretende ser progressivamente validada por meio do aprofundamento conceitual e da ampliação do corpus analítico, a partir de produções que exploram o potencial narrativo e afetivo do som tridimensional no audiovisual contemporâneo.

Bibliografia

    CARREIRO, Rodrigo, OPOLSKI, Débora, MEIRELLES, Rodrigo. A imersão sonora no cinema. São José dos Pinhais: Estronho, 2023.

    CHION, Michel. A audiovisão: som e imagem no cinema. Lisboa: Texto & Grafia, 2008.

    GOODMAN, Steve. Sonic Warfare: Sound, Affect, and the Ecology of Fear. Cambridge: MIT Press, 2010.

    MARKS, Laura U. The Skin of the Film: Intercultural Cinema, Embodiment, and the Senses. Durham: Duke University Press, 2000.