Ficha do Proponente
Proponente
- Eduardo Paschoal de Sousa (FAUUSP)
Minicurrículo
- Pesquisador de pós-doutorado na FAUUSP e na EHESS-Paris, com bolsa Fapesp. Possui doutorado em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA-USP e mestrado pela mesma instituição. Realizou doutorado sanduíche na Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3 (bolsa Fapesp). É membro dos grupos de pesquisa CNPq RITe – Representações: Imaginário e Tecnologia (FAUUSP); e MidiAto – Grupo de Estudos de Linguagem: Práticas Midiáticas (ECA-USP).
Ficha do Trabalho
Título
- Experiências contemporâneas de arquivamento e as representações de territórios periféricos
Seminário
- Arquivo e contra-arquivo: práticas, métodos e análises de imagens
Resumo
- Este estudo tem por objetivo analisar as representações dos territórios periféricos das cidades a partir de propostas contemporâneas de arquivamento, como é o caso da Cinémathèque idéale des banlieues du monde, na França, e da Cinemateca da Quebrada, no Brasil. De maneira mais ampla, a análise comparativa desses acervos em construção nos permite colocar em tensão as representações de territórios físicos e simbólicos, constituídos a partir das experiências nas cidades.
Resumo expandido
- Este estudo tem por objetivo analisar as representações dos territórios periféricos das cidades a partir de propostas contemporâneas de arquivamento, como é o caso da Cinémathèque idéale des banlieues du monde, na França, e da Cinemateca da Quebrada, no Brasil. Ambos os projetos tiveram sua origem no Centre Pompidou, órgão cultural francês, como maneiras de produzir arquivos audiovisuais que documentem minorias políticas historicamente sub representadas na Europa e nas Américas.
A Cinémathèque idéale des banlieues du monde é uma plataforma on-line criada em 2021 pela realizadora francesa Alice Diop, em parceria com o Centre Pompidou e o Ateliers Médicis, aparelhos culturais atuantes em Paris e região metropolitana. A proposta foi criar um catálogo histórico de filmes ambientados nas periferias das grandes cidades, ou por agentes provenientes dessas regiões, tensionando as maneiras hegemônicas de representação dos sujeitos a partir das periferias. Com recorte temporal de 1920 à contemporaneidade, o catálogo é dividido por alguns eixos temáticos, além dos países de origem das obras. Segundo Alice Diop (2021), sua intenção é a de inscrever as memórias e histórias das periferias em um registro coletivo, mais amplo, para preencher lacunas, ausências e silêncios: “O projeto consiste em registrar as memórias e as histórias dos bairros populares, além de complementar uma produção de imagens que foi feita a partir do centro, por pessoas que tinham o poder e o direito de narrar”.
Com uma carreira iniciada em 2005, Alice Diop faz parte de uma nova geração de realizadoras(es) francesas(es) que compõem o que a pesquisadora Claire Diao (2017) denominou “double vague” (dupla onda) do cinema francês, agentes do audiovisual provenientes das periferias e de famílias de imigrantes que reivindicam a possibilidade de contar suas próprias histórias, a partir de arquivos familiares e fabulações. Nascida em uma família de imigrantes senegaleses que se estabeleceram na região de Seine-Saint-Denis, periferia norte de Paris, Alice Diop sempre tematizou esse território em seus filmes, o que a levou a pensar em um registro mais amplo dessas imagens a partir da ideia de uma cinemateca.
Esse é um caminho parecido ao que levou o cineasta brasileiro Lincoln Péricles a propor uma Cinemateca da Quebrada, ideia iniciada em sua residência artística junto ao Ateliers Médicis e ao Centre Pompidou, entre 2024 e 2025. Proveniente do Capão Redondo, periferia da Zona Sul de São Paulo, ele reuniu um grupo de realizadoras(es) para projetar um arquivo coletivo da memória audiovisual das periferias brasileiras, ainda em início. Em palestra recente (2026) na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Lincoln Péricles explicou que a proposta de uma cinemateca colaborativa surgiu da indagação constante dele e de colegas do audiovisual, de pensar a quem é permitida a memória.
De maneira mais ampla, a análise comparativa desses acervos em construção nos permite colocar em tensão as representações de territórios físicos e de outros territórios simbólicos, constituídos a partir de uma interpretação subjetiva e sensorial das experiências nas cidades e, em especial, as disputas de representação e imaginários em torno das periferias urbanas. Sem descartar as diferenças entre as propostas, considerando suas origens geográficas, os agentes envolvidos em sua catalogação, os debates em torno dos cânones e dos arquivos, e as tensões políticas que circundam essas iniciativas, nos interessa pensar maneiras de arquivamento contemporâneo que dêem conta de registrar uma memória coletiva mais ampla sobre os territórios e as pessoas nos ambientes das cidades.
Bibliografia
- DIAO, Claire. Double vague: le nouveau souffle du cinéma français. Paris: Au Diable Vauvert, 2017.
GRODNER, Manon. Le “cinéma de banlieue”: représentation des quartiers populaires?, enjeux d’un cinéma entre réalité et fantasme. Paris: L’Harmattan, 2020.
HAMBURGER, Esther. Guerra das imagens. Rapsódia. N. 12, 2018, p. 25-44.
HARTMAN, Saidiya. Vidas rebeldes, belos experimentos: histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais. São Paulo: Fósforo, 2022.
HOOKS, bell. Art on my mind: visual politics. Nova York: The New Press, 1995.
VERGÈS, Françoise. Decolonizar o museu: Programa de desordem absoluta. São Paulo: Ubu, 2023.
VICENTE, Wilq. Cinema de periferia: narrativas do século 21. São Paulo: Funilaria, 2025.