Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Bruno Carboni Gödecke (PUCRS)

Minicurrículo

    Bruno Carboni Gödecke é doutorando em Comunicação Social na PUCRS e pesquisador visitante na Université Paul Valéry – Montpellier III (França). Sua pesquisa, “O papel do julgamento intuitivo no processo criativo da edição cinematográfica”, investiga processos intersubjetivos e a tomada de decisão qualitativa na montagem. Como montador, editou o longa Futuro Futuro (2024), que recebeu os prêmios de Melhor Edição e Melhor Filme no 58º Festival de Brasília.

Ficha do Trabalho

Título

    Cortando o futuro: IA generativa e tensões criativas na montagem de Futuro Futuro (2024)

Seminário

    Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas

Resumo

    A apresentação explora a montagem do longa Futuro Futuro (2024), analisando como o uso de IA generativa gerou tensões éticas e estéticas no processo criativo. Para investigar as transformações formais e narrativas deste conflito, propõe-se a aproximação com a psicanálise pela teoria de campo de Antonino Ferro, defendendo que as soluções criativas são intersubjetivas: nascem da relação sensível entre imagens, pares de trabalho e demais “habitantes” do campo que se forma na ilha de edição.

Resumo expandido

    A partir de um relato etnográfico da minha experiência na montagem do longa-metragem Futuro Futuro (2024), esta apresentação investiga as transformações formais e narrativas impulsionadas pelas tensões teóricas, éticas e estéticas que a integração da Inteligência Artificial generativa provocou no processo criativo. A IA produz um excedente paradoxal: ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades formais, ela insere imagens automatizadas — formas probabilísticas desprovidas de intencionalidade humana (Manovich e Arielli, 2021-2024) — que exigem um rigoroso julgamento qualitativo, uma vez que se produzem esvaziadas de afeto. Para investigar a resolução desse conflito, defende-se que as soluções criativas capazes de transformar o material algorítmico em afetos cinematográficos não emergem de um ato isolado e puramente racional do montador, mas sim das tensões dinâmicas e intersubjetivas que constituem o espaço de trabalho.
    Essa perspectiva relacional encontra forte ressonância empírica nas reflexões do montador francês Yann Dedet. Em Le spectateur zéro (2020), Dedet relata como suas decisões nascem do embate contínuo com os pares de trabalho e com a própria matéria fílmica, afirmando, com um vocabulário de notável viés psicanalítico, que “esse trabalho de edição não é o de um juiz, mas de um analista” (Dedet e Suaudeau, 2020, p. 317). O montador chega a comparar a sala de edição a “um quarto, não o quarto dos amantes, mas o de um casal cujo objetivo não é viver junto, mas dar à luz” (Dedet e Suaudeau, 2020, p. 315). É a partir dessa intuição intersubjetiva da prática da montagem que a apresentação propõe uma aproximação formal com a teoria psicanalítica do campo, inicialmente introduzida por Madeleine e Willy Baranger desenvolvida por Antonino Ferro (1995, 2009) e seus colaboradores (Ferro e Basile, 2009; Ferro e Civitarese, 2015). Para Ferro, a sessão analítica (e, em nossa analogia, a “ilha” de edição) não busca desvendar uma verdade oculta preexistente, mas é um espaço onde há “uma verdade a construir sobre o funcionamento das duas mentes na sessão” (Ferro, 1995, p. 107). Nesse modelo, o analista não atua apenas como um decodificador do incosciente do analisando; ele inclui suas próprias transferências e cocria ativamente a narrativa da sessão de análise, acolhendo os personagens que surgem das conversas e passam a habitar o espaço. No entanto, esse analista tem a função fundamental de organizar e conduzir essa narrativa a partir de um estado de receptividade sensível (rêverie) capaz de processar emoções e elementos brutos latentes no ambiente.
    Respeitando as evidentes diferenças entre as práticas — uma vez que a ilha de edição não possui finalidade terapêutica para os envolvidos —, propõe-se teorizar a sala de montagem também como esse campo emocional e intersubjetivo vivo, habitado por múltiplos personagens, temporalidades e afetos. Nesse contexto, o foco desloca-se do analisando para a matéria audiovisual, e o objetivo principal passa a ser encontrar a forma final desse material, algo que só pode ser forjado justamente por meio de todo esse processo criativo e relacional do campo.
    Retornando à montagem de Futuro Futuro, a apresentação utiliza essa teoria do campo para demonstrar de que modo o trabalho relacional definiu os julgamentos frente às múltiplas possibilidades fornecidas pelos algoritmos. Nesse espaço de forças, as imagens de IA, o montador, a direção, as inspirações cinematográficas e as próprias referências teóricas que embasam as angústias sobre a precarização do trabalho e o extrativismo de dados (Crawford, 2021) interagiram como “habitantes” cocriadores de um campo particular para aquela obra. Por meio da intersubjetividade e da escuta, foi possível decantar os impasses conceituais introduzidos pela alteridade algorítmica, selecionando ativamente as formas probabilísticas capazes de sustentar a proposta crítica e especulativa do filme até que estas se transformassem em autênticos afetos cinematográficos.

Bibliografia

    CRAWFORD, Kate. Atlas of AI: Power, Politics, and the Planetary Costs of Artificial Intelligence. New Haven: Yale University Press, 2021.
    DEDET, Yann; SUAUDEAU, Julien. Le spectateur zéro: conversation sur le montage. Paris: P.O.L., 2020.
    FERRO, Antonino. A técnica na psicanálise infantil: a criança e o analista da relação ao campo emocional. Tradução de Mercia Justum. Rio de Janeiro: Imago, 1995.
    FERRO, Antonino. Mind Works: Technique and Creativity in Psychoanalysis. Translated by Philip Slotkin. London: Routledge, 2009.
    FERRO, Antonino; BASILE, Roberto (Eds.). The Analytic Field: A Clinical Concept. London: Karnac Books, 2009.
    FERRO, Antonino; CIVITARESE, Giuseppe. The Analytic Field and its Transformations. London: Karnac Books, 2015.
    MANOVICH, Lev; ARIELLI, Emanuele. Artificial Aesthetics: Generative AI, Art and Visual Media. Online publication, 2021–2024. http://manovich.net/index.php/projects/artificial-aesthetics