Ficha do Proponente
Proponente
- MEIRE OLIVEIRA SILVA (UEMA)
Minicurrículo
- Pós-doutoranda em Literatura Brasileira, pela Universidade de São Paulo (DLCV-FFLCH-USP). Também é Doutora e Mestra em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (DTLLC-FFLCH-USP). É professora adjunta da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). É também autora de Liturgia da pedra: negro amor de rendas brancas (2018), O cinema-poesia de Joaquim Pedro de Andrade: passos da paixão mineira (2016).
Ficha do Trabalho
Título
- Brasília como microcosmos do país entre utopias e distopias, a partir de Joaquim Pedro de Andrade
Resumo
- Brasília, contradições de uma cidade nova (1967), de Joaquim Pedro de Andrade, é um documentário pautado pela análise da capital federal como um símbolo de progresso desde os anos 1960, por meio da arquitetura moderna ironicamente ancorada nas próprias fissuras da desigual formação do Brasil. Porém, a ordem urbana e as construções monumentais embatem-se à exclusão dos trabalhadores migrantes do Norte e Nordeste que a edificaram, apresentando um país imerso em contradições que perduram até hoje.
Resumo expandido
- A análise do documentário Brasília, contradições de uma cidade nova (1967), de Joaquim Pedro de Andrade, permite uma profunda incursão nas raízes das desigualdades brasileiras, utilizando a arquitetura modernista como metáfora de projeto de nação incompleto. Originalmente concebido como peça institucional encomendada pela Olivetti, o filme foi sumariamente rejeitado pela multinacional por expor as fissuras da desigualdade que o plano urbanístico de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer pretendia dissipar. Assim, desnuda-se uma capital planejada para ser uma utopia igualitária que, na prática, concentrou e segregou as tensões sociais pré-existentes no país desde a sua formação ancorada na colonialidade e escravidão (Silva, 2019). Logo, este filme estabelece um diálogo crítico com a monumentalidade ilusória. Enquanto os travellings iniciais sugerem uma ordem linear e equilibrada, a narração de Ferreira Gullar e as intervenções da câmera denunciam a exclusão do povo na paisagem suntuosa. Para Berman (2008), Brasília é uma cidade feita para ser vista do alto, assemelhando-se a um avião que alude à ideia de progresso, em seu plano piloto. Porém, quando vivenciada ao rés do chão, revela-se inóspita e desprovida de espaços públicos genuínos para o convívio humano. Essa segregação urbana, de certa forma, segue a lógica do “bota-abaixo” das reformas do prefeito (e engenheiro) Francisco Pereira Passos, no Rio de Janeiro , evidenciando certa tradição nacional de marginalização das classes populares em nome de uma ideia abstrata de modernidade. Desse modo, os “candangos”, majoritariamente migrantes nordestinos que construíram a capital, foram relegados às cidades-satélites inóspitas, vivendo em condições que, em alguns casos, beiravam à semiescravidão, como é verificado nos relatos da construção da barragem e do lago Paranoá (Silva, 2019). Como uma espécie de modus-operandi de engendramento histórico da formação do país, pode-se também mencionar a dizimação de centenas de pessoas em Itaipu , outro símbolo do progresso do Brasil e, sobretudo, uma propaganda do falacioso “milagre econômico”.
Já a Universidade de Brasília (UnB) surge no filme como uma denúncia desse colapso institucional. O esfacelamento do ensino e a paralisação da universidade refletem o caos social sob a ditadura militar, aparecendo como um dos redutos de saber e crítica que foi isolado e negligenciado pelo Estado. Além disso, a arquitetura do Palácio da Alvorada também configura uma série de questionamentos, já que, embora moderna, é a reprodução da “casa de fazenda brasileira”, segundo a narração da voice-over (de Ferreira Gullar) que desvela o discurso adotado pelo roteiro, sugerindo a permanência da estrutura da casa-grande no bojo daquele projeto arquitetônico avançado. Percebe-se, portanto, essa “alegoria do subdesenvolvimento” (Xavier, 1993) como uma sucessão de signos que norteiam a lógica da formação nacional, oscilando entre o arcaico e moderno, mas sempre afirmando a violência de suas disparidades. Tal constatação encontra ressonância nas discussões empreendidas por Petra Costa em obras tais quais Democracia em Vertigem (2019) e Apocalipse nos Trópicos (2024). Na primeira, a escala monumental de Brasília serve de cenário para a erosão das instituições democráticas, configurando um espaço onde o isolamento e a falta de diálogo público apontados por Berman (2008) seguem corroborando para o descolamento da realidade no que tange aos anseios populares. Já em Apocalipse nos Trópicos (2024), o mergulho no distorcido misticismo/messianismo político, é capaz de desvelar lacunas formadoras de nação, remetendo aos vaticínios religiosos e ao sonho profético de Dom Bosco antecedentes à fundação da cidade (Silva, 2019). Assim, observa-se um arco temporal de uma nação imersa em problemas que remetem à sua formação. Tais movimentos reiteram a permanência em um estado de estagnação permeado por problemáticas nunca superadas (Gomes, 1996).
Bibliografia
- BERMAN, M. Tudo que é sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
BERNARDET, J. C. Brasil em tempo de cinema: ensaio sobre o cinema brasileiro de 1958 a 1966. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. BIBLIOTECA VIRTUAL OSWALDO CRUZ. Reforma Pereira Passos. Disponível em: https://oswaldocruz.fiocruz.br/index.php/biografia/trajetoria-cientifica/na-diretoria-geral-de-saude-publica/reforma-pereira-passos. Acesso em: 19 abr. 2026.
GOMES, P. E. S. G. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
MEMÓRIAS REVELADAS. Itaipu na ditadura: mais de 100 operários mortos e […]. 19 jun. 2023. Disponível em: https://www.gov.br/memoriasreveladas […] SILVA, M. O. Desenvolvimentismo, plano-piloto e segregação: uma análise de Brasília, contradições de uma cidade nova, de Joaquim Pedro de Andrade. RUA, Campinas, v. 25, n. 1, p. 165-182, jun. 2019.
XAVIER, I. Alegorias do subdesenvolvimento. São Paulo: Brasiliense, 1993.