Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ian de Vasconcellos Schuler (UFRJ)

Minicurrículo

    Pós-doutorando em artes visuais pela UFRJ, doutor em artes visuais pela UERJ, mestre em comunicação pela UFRJ e graduado em cinema pela UNESA. Foi professor substituto do curso de cinema da UFJF entre 2023 e 2024. Atualmente, pesquisa roteiros e processos prático-teóricos em cinema e videoarte na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA-UFRJ), e realiza filmes e vídeos.

Ficha do Trabalho

Título

    Esboços, partituras: os roteiros de Poetic Justice (1972) e Cinema Shadow (2012)

Resumo

    A partir dos roteiros de Poetic Justice (1972), de Hollis Frampton, e Cinema Shadow (2012), de Laura Lima, esta apresentação discute procedimentos de roteirização que se desviam dos modelos tradicionais, aproximando o roteiro de vertentes das artes visuais, como partituras de ação, desenhos e outros formatos. No primeiro filme, o roteiro propõe um dispositivo conceitual, enquanto, no segundo, assume uma forma aberta ao improviso. Assim, a análise busca apontar diferentes concepções de roteiro.

Resumo expandido

    Esta apresentação relaciona o roteiro cinematográfico a diferentes vertentes da produção artística, deslocando-o de sua associação mais comum com procedimentos literários e aproximando-o de outras formas, como arte conceitual, partitura de ações, desenho, entre outras. O argumento se desenvolve a partir da análise dos roteiros de dois filmes: Poetic Justice (1972), de Hollis Frampton, e Cinema Shadow (2012), de Laura Lima. No filme de Frampton, assistimos às páginas de um roteiro que lemos ao longo do próprio filme, formando uma estrutura que determina o que se vê e coincide com a própria obra, em um gesto que remete a certas estratégias da arte conceitual. Já no filme expandido de Laura Lima, o roteiro enviado à equipe de filmagem sugere uma forma aberta, sendo composto por desenhos, poemas e fragmentos dispersos, sugerindo ações indeterminadas e mantendo o processo em um estado contínuo de improvisação.

    De modo geral, o roteiro cinematográfico constitui um objeto que media a realização do filme, encadeando ações e compondo uma lógica narrativa geralmente associada a formas literárias. No entanto, ao longo da história do cinema, essa concepção foi tensionada por práticas que deslocam tanto sua forma quanto sua função. Considerando a história do roteiro a partir das análises de Steven Price (2013), Anna Ksenofontova (2020), entre outros, esse objeto passa por diferentes transformações em seu formato e em seu sentido ao longo do tempo, deixando de operar como descrição de cenas e mobilizando outras formas de concepção e organização visual, articulando diferentes materiais e modos de escrita, como fotografias, colagens, desenhos, poemas e outros elementos.

    Os trabalhos analisados aqui sinalizam algumas dessas diferentes formas de conceber o roteiro. Em Poetic Justice, a apresentação do roteiro coincide com a realização do próprio filme, instaurando um movimento de confirmação tautológica e estabelecendo um diálogo com práticas da arte conceitual, como a proposição de dispositivos ou a ideia do filme como objeto de autorreflexão. Nesse sentido, podemos aproximá-lo da noção de “programa”, como formulada por Allan Kaprow (2010), e também de um conjunto de filmes que se constroem a partir de dispositivos conceituais, como Ten (2002), de Abbas Kiarostami. Essas aproximações permitem compreender o roteiro de Frampton como um caso que explicita o próprio conceito de roteiro: o de operar como uma estrutura antecipatória que organiza a forma do filme.

    Em Cinema Shadow, por outro lado, essa lógica é tensionada em sentido oposto: o roteiro deixa de funcionar como instância de determinação para operar como campo de abertura, no qual instruções, desenhos e fragmentos orientam ações sem fixar resultados. Nesse contexto, ele assume um caráter mais subjetivo e processual, remetendo a outro âmbito de práticas artísticas. Cinema Shadow foi apresentando em sessões ao vivo de três horas por dia e durante um mês, na sala de cinema da Caixa Cultural do Rio de Janeiro, totalizando um filme de quase cem horas. Nesse contexto, o filme se conecta com práticas do cinema expandido e da instalação, produzindo um filme híbrido entre diferentes formas artísticas. Se, no primeiro caso, o roteiro tende ao controle integral, no segundo passa a funcionar como abertura ao indeterminado. Assim, entre esses dois casos, os trabalhos tornam visíveis distintos procedimentos de roteirização.

    A partir dessas análises, buscamos situar o roteiro em relação a práticas que escapam à sua aproximação mais tradicional com formas literárias, articulando-o com outras linguagens e procedimentos artísticos. Trata-se de deslocar o roteiro de sua função como instrumento de organização dramática para pensá-lo como uma estrutura capaz de operar segundo diferentes modos de construção. Nesse sentido, a apresentação investiga formas de funcionamento que sugerem uma ampliação do conceito de roteiro, a partir de propostas que tensionam e deslocam seu uso tradicional.

Bibliografia

    DUARTE, THEO; MOURÃO, Patrícia (orgs.) Cinema Estrutural. São Paulo: Aroeira, 2015.

    DUBOIS, P. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

    KAPROW, Allan. Como fazer um happening. In: KAPROW, Allan. Essays on the
    Blurring of Art and Life. Berkeley: University of California Press, 1993.

    KSENOFONTOVA, A. The modernist screenplay. Cham: Palgrave Macmillan, 2020.

    MACIEL, Kátia; FLORES, Livia (org). Instruções para filmes. Rio de Janeiro: +2 Editora, 2013.

    MARAS, S. Screenwriting: history, theory, and practice. London: Wallflower, 2009.

    PRICE, S. A history of the screenplay. London: Palgrave Macmillan, 2013.

    SITNEY, P. Adams. Visionary Film: the American Avant-Garde, 1943-2000. Nova York, Oxford University Press, 2002.