Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Maria Rita Aguilar Nepomuceno de Oliveira (PPGCOM PUC-RJ)

Minicurrículo

    Maria Rita Nepomuceno é documentarista e doutoranda em comunicação social pela PUC-RJ com bolsa CAPES, pesquisa a relação do movimento feminista com os documentários dirigidos por mulheres nas décadas de 1970 e 1980 que abordam o trabalho doméstico. Cineasta formada pela UFF, mestre em Multimeios pela UNICAMP, é professora de Cinema na Escola de Comunicação e Design Digital e sócia proprietária da produtora RioByte – Arte e Informação.

Ficha do Trabalho

Título

    “Tempo Quente” de Leilany Fernandes Leite: a historicidade das imagens do feminismo negro no Brasil

Resumo

    Este artigo propõe uma análise de Tempo Quente (1980), dirigido por Leilany Fernandes Leite, a partir de um diálogo entre teorias pós-coloniais e debates sobre a estética realista no cinema documental. Parte-se da hipótese de que o filme mobiliza o dispositivo documental não apenas como forma de registro, mas como operador de produção de experiência, articulando regimes de visibilidade e reconhecimento.

Resumo expandido

    Tempo Quente (1980) torna visíveis imagens raras da presença de mulheres negras no I Congresso da Mulher Fluminense, realizado entre 14 e 15 de junho de 1980, no Rio de Janeiro (Bandeira; Melo, 2010, p. 55). Lélia Gonzalez identifica este Congresso como o momento em que o feminismo brasileiro passa a escutar as demandas das mulheres negras (Gonzalez, 2020, p.61). A historiografia do feminismo brasileiro invisibilizou o fato de que mulheres negras já se reuniam na UFF em 1973 organizadas por Beatriz Nascimento no GTAR – Grupo de Trabalho André Rebouças (Gonzalez, 2020, p.162). O artigo expande a análise deste registro histórico para além de sua função indexical como evidência das relações entre mulheres brancas e negras no movimento feminista no Rio de Janeiro. Iremos recorrer ao debate sobre o realismo estético (Xavier, 2005, p.88) para analisar como Tempo Quente (1980) mobiliza estratégias formais que intervêm nas relações de privilégio que determinam quem vê, quem é visto e sob quais condições nas imagens documentais produzidas no Brasil. A “escrita da etnicidade da psique branca ocidental” (Doane apud Columpar, 2002, p.31) revela-se insuficiente para dar conta das experiências de mulheres negras. Jane Gaines enfatiza as “relações de olhar”, o male gaze da teoria feminista do cinema, como pautado pela diferença sexual, no interior de um regime que pressupõe que “a exploração é personificada por uma mulher branca” (Gaines, 1986, p.66). Outras teóricas, como Corinn Columpar, retomam este debate: “os olhares colonial e etnográfico são semelhantes ao olhar masculino na medida em que conferem a seus portadores uma posição de domínio e designam seus objetos como o local/visão da diferença” (Columpar, 2002, p.40). Como argumenta Kara Keeling, “tornou-se crucial buscar articulações alternativas tanto do trabalho histórico e cultural que a raça realiza quanto das relações socioeconômicas tornadas visíveis pela imagética racial” (Keeling, 2003, p.92). O “intervalo” designa o ponto em que o reconhecimento falha, suspendendo o esquema sensório-motor e abrindo a imagem à experiência (Keeling, 2003, p.116). A análise fílmica de Tempo Quente (1980) investiga o uso, no documentário, de procedimentos da decupagem clássica como o plano ponto-de-vista e a câmera subjetiva para perguntar se a estética realista permite a emergência do “intervalo” ou se ela opera como forma de “taxidermia etnográfica”, estabilizando a mulher negra como alteridade (Rony, 1996, p.101). A imagem documental de intensa excitação política entre mulheres brancas e negras no I Congresso da Mulher Fluminense ativa a possibilidade de “mimesis política” formulada por Jane Gaines (1999), na qual a imagem atua sobre o corpo do espectador e não apenas sobre sua interpretação.A história do filme, preservado pelo Centre Audiovisuel Simone de Beauvoir e recuperado por esta pesquisa, retoma a circulação política e os debates que suscitou, assim como a forma como o circuito feminista transnacional mediado por mulheres brancas permitiu a preservação da cópia com a dublagem de Coralie Seyrig, sobrinha de Delphine Seyrig, fundadora do Centre Audiovisuel Simone de Beauvoir em 1982, e do coletivo feminista Les Insoumises, ativo a partir de 1974. A dublagem opera como gesto de apagamento ao sobrepor o francês ao pretoguês e ao dificultar as possibilidades de individuação das falas das mulheres negras filmadas por Leilany Fernandes Leite. Esta história não apenas evidencia lacunas institucionais, mas também indica como os regimes de visibilidade operam na própria constituição dos arquivos. A circulação e preservação da cópia do filme inscrevem-se, assim, na disputa pela historicidade das imagens do feminismo negro no Brasil.

Bibliografia

    BANDEIRA, Lourdes; MELO, Hildete Pereira de. Tempos e memórias: movimento feminista no Brasil. Brasília: Secretaria de Políticas para as Mulheres, 2010.
    COLUMPAR, Corinn. The gaze as theoretical touchstone: the intersection of film studies, feminist theory, and postcolonial theory. Women’s Studies Quarterly, v. 30, n. 1/2, p. 25-44, 2002.
    GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
    GAINES, Jane. White privilege and looking relations: race and gender in feminist film theory. Cultural Critique, n. 4, p. 59-79, 1986.
    ___________. The real returns. In: RENOV, Michael; GAINES, Jane (ed.). Collecting visible evidence. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1999a. p. 1-18
    ___________.Political mimesis. In: RENOV, Michael; GAINES, Jane (ed.). Collecting visible evidence. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1999b. p. 84-102.
    KEELING, Kara. In the interval: Frantz Fanon and the “problems” of visual representation. Qui Parle, v. 13, n. 2, 200