Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ana Camila de Souza Esteves (UFF)

Minicurrículo

    Ana Camila Esteves é jornalista, produtora e pesquisadora, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA) com pesquisa sobre Nollywood e Netflix. Cofundadora e diretora da Mostra de Cinemas Africanos. Foi research associate do King’s College London (2023-2024), é pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Federal Fluminense com pesquisa sobre a direção de fotografia no cinema nigeriano contemporâneo.

Ficha do Trabalho

Título

    Regimes de valor em Nollywood: a direção de fotografia de Muhammad Atta Ahmed

Mesa

    Estudos de trajetória em Direção de Fotografia

Resumo

    Com base em entrevistas e análise fílmica, investigo a trajetória do diretor de fotografia nigeriano Muhammad Atta Ahmed para compreender a cinematografia como elemento de distinção no cinema nigeriano contemporâneo. Ao examinar sua atuação entre blockbusters e filmes de baixo orçamento, analiso como sua prática opera em diferentes ecossistemas produtivos, gerando formas específicas de valor estético, simbólico e mercadológico dentro do campo.

Resumo expandido

    O cinema nigeriano contemporâneo é atravessado por diferentes regimes de produção que disputam legitimidade estética, alcance mercadológico e reconhecimento internacional (Esteves, 2025). Este artigo analisa a trajetória do diretor de fotografia nigeriano Muhammad Atta Ahmed a partir de entrevistas realizadas com o próprio profissional, articuladas à análise fílmica, para compreender a direção de fotografia como elemento de distinção nesse campo.

    O recorte concentra-se em dois filmes cuja direção de fotografia é assinada por ele: Chief Daddy (2018), dirigido por Niyi Akinmolayan e produzido pela EbonyLife Studios, liderada por Mo Abudu, e Freedom Way (2024), dirigido por Afolabi Olalekan e produzido pelo BluHouse Studio, liderado por Blessing Uzzi. Ambos se organizam a partir de uma lógica de estúdio – característica central do cinema nigeriano –, embora mobilizem estratégias distintas de construção de valor.

    Em outros contextos, essa diferenciação poderia ser lida como uma oposição direta entre cinema comercial e cinema autoral. No caso nigeriano, trata-se de disputas internas ao próprio campo, que opera com formas específicas de desenvolvimento industrial e circulação (Esteves, 2025). Diferentes modelos de estúdio articulam, em graus variados, o alcance de audiências massivas e a busca por reconhecimento internacional, produzindo estratégias híbridas de legitimação.

    Chief Daddy insere-se em um modelo industrial consolidado, orientado por metas de mercado, padronização estética e estratégias de circulação ampliada, alinhadas à expansão de Nollywood para plataformas globais (Esteves, 2023). Nesse contexto, a direção de fotografia integra uma estrutura de produção voltada à eficiência e à consistência de marca, contribuindo para a produção de valor comercial (Endong, 2023). As entrevistas evidenciam, no entanto, limites no controle criativo de Ahmed, especialmente na pós-produção, o que restringe sua intervenção sobre a imagem final .

    Em Freedom Way, observa-se um modelo de baixo orçamento que, embora também organizado em torno de uma lógica de estúdio, investe na diferenciação estética e na circulação em festivais. Como argumenta Lindiwe Dovey, esses circuitos funcionam como instâncias de mediação e consagração simbólica, reconfigurando a posição de obras fora dos circuitos comerciais dominantes, especialmente filmes africanos (Dovey, 2015). Nesse caso, Ahmed é incorporado desde o desenvolvimento do projeto, participando da construção narrativa e visual do filme, e a opção por uma visualidade naturalista, em contraste com expectativas estilísticas previsíveis, articula-se a uma estratégia de distinção voltada à recepção crítica internacional.

    A análise em perspectiva desses dois casos permite compreender a direção de fotografia como um eixo privilegiado para investigar as disputas de valor no cinema nigeriano contemporâneo. Ao transitar entre modelos de estúdio que operam com objetivos distintos, Ahmed evidencia como o grau de autonomia e participação do diretor de fotografia impactam a construção da imagem e, consequentemente, as formas de distinção estética e os circuitos de circulação dos filmes.

Bibliografia

    BEACH, Christopher. A hidden history of film style: Cinematographers, directors, and the collaborative process. Univ of California Press, 2015.

    DOVEY, Lindiwe. Curating Africa in the age of film festivals. New York: Palgrave Macmillan, 2015.

    ESTEVES, A. C. Cinematography as Distinction: Ebun Pataki and the Visual Aesthetics of Beyond Nollywood films. AVANCA | CINEMA 2025, v. 16, p. 16-22, 2025.

    ESTEVES, A. C. O lugar da Netflix no campo do poder: reflexões sobre o impacto da empresa no audiovisual africano a partir da Nigeria. MÍDIA E COTIDIANO, v. 17, p. 1-21, 2023.

    OLIVEIRA, Rogério Luiz. Memória e Criação na direção de fotografia audiovisual. Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2023.