Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ludmila Moreira Macedo de Carvalho (UFRB)

Minicurrículo

    Professora Adjunta do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias (CECULT) e dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação e Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Possui doutorado em Estudos Cinematográficos pela Université de Montreal – Canadá. Lidera desde 2018 o grupo Cinececult nas Escolas – Infância, cinema e cidadania, realizando atividades integradas de pesquisa e extensão na área de cinema e educação no território do Recôncavo da Bahia.

Ficha do Trabalho

Título

    Lotte Reiniger e a pedagogia do olhar através das sombras

Resumo

    Esta pesquisa articula cinema e educação destacando a pedagogia de Lotte Reiniger, pioneira da animação que, assim como muitas outras mulheres, foi sistematicamente apagada da história do cinema. Sua técnica de stop motion inspirou a criação de uma oficina com jovens do Recôncavo da Bahia, adaptando personagens articulados de papel para representar Orixás. A atividade valorizou protagonismo juvenil e narrativas afrocentradas, alinhando o cinema de animação às leis de educação étnico-racial.

Resumo expandido

    Esta comunicação apresenta resultados de um projeto de pesquisa e extensão em andamento, voltado para a articulação entre cinema e educação. Numa exploração acerca das múltiplas relações entre infância e os primórdios do cinema, destaca-se o nome da cineasta alemã Lotte Reiniger e sua obra. Reiniger (1899-1981) foi uma pioneira na arte da animação em stop motion. Apesar do filme Branca de Neve e os Sete Anões, dirigido por Walt Disney em 1937, ser considerado por muitos o primeiro longa de animação do mundo, Reiniger já havia realizado em 1926 o filme As Aventuras do Príncipe Achmed.
    No entanto, assim como aconteceu com muitas outras mulheres pioneiras ao longo da história do cinema, o trabalho de Reiniger foi sistematicamente apagado dos livros de história e das pesquisas acadêmicas. Embora seja inegavelmente um dos nomes mais importantes da história da animação, o apagamento da cineasta infelizmente ainda acontece, haja vista a escassez de pesquisas e trabalhos publicados sobre a cineasta.
    O pioneirismo de Reiniger advém principalmente da sua técnica de animação com recortes de papel. Nascida em Berlim em 1899, Charlotte Reiniger ficou fascinada pela descoberta do teatro de sombras chineses ainda na infância. Com a chegada do cinematógrafo no início do século XX e a inspiração dos filmes ilusionistas de Georges Méliès e Alice Guy, Reiniger desenvolveu uma técnica para transformar o teatro de sombras em cinema, que consistia na criação de silhuetas de papel articuladas e recortadas com grande minúcia de detalhes, que eram então dispostas sobre uma mesa de luz e animadas utilizando a técnica de fotografia quadro a quadro, resultando em movimentos incrivelmente fluidos. Além da técnica, é importante mencionar que o pioneirismo da cineasta foi também notório no que tange a questões de narrativa e representatividade. Ainda no início do século XX os filmes de Reiniger abordavam temas como protagonismo feminismo e representações positivas de pessoas da comunidade LGBTQIAPN+.
    Com o intuito de explorar a potencialidade pedagógica da técnica desenvolvida por Reiniger, elaboramos no âmbito do projeto de extensão uma oficina de animação para jovens do Recôncavo da Bahia. A oficina tinha, por um lado, o objetivo de apresentar o trabalho pioneiro da cineasta de forma prática e lúdica, através de uma oficina na qual seria utilizada a sua técnica. Por conta de seu caráter artesanal e extremamente acessível, o stop motion com bonecos de papel articulados pode facilmente ser realizado por diferentes públicos em diferentes contextos de produção.
    Por outro lado, não queríamos que os estudantes simplesmente copiassem a estética de Reiniger, mas sim que expressassem através dela suas próprias identidades, ligadas ao seu território. Considerando que a oficina aconteceria no período em que é celebrado o Bembé do Mercado em Santo Amaro, conhecido como o maior Candomblé de rua do mundo, optamos por ter a religião de matriz africana como tema central e, para isso, adaptamos as silhuetas de personagens de papel articulados de Lotte Reiniger para figuras dos Orixás cultuados durante o Bembé.
    Consideramos, portanto, que a oficina se alinhou com o Cinema Negro de Animação e sua proposta de dar visibilidade às cosmovisões afrodiaspóricas a partir de expressões narrativas feitas por e para pessoas negras. Consideramos que a atividade constituiu uma oportunidade importante não apenas para a visibilidade de expressões culturais afro centradas, mas sobretudo como proposta educacional afro-referenciada, ao apresentar técnicas do cinema de animação a serviço da valorização da diversidade étnica, cultural e religiosa. Trabalhar o cinema de animação neste contexto constitui uma importante ferramenta para o alinhamento da Lei 13.006/2024 do cinema brasileiro nas escolas com as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, de ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena.

Bibliografia

    Acadia, L. (2021). ‘Lover of Shadows’: Lotte Reiniger’s Innovation, Orientalism, and Progressivism. Oxford German Studies.
    Cruz, P. P.; Santos, E. R.; Couto, F. S.; Sousa, J. A. (2022). Cinema Negro de Animação e processos educativos afrocentrados. Avanca Cinema, 13, Portugal.
    Grace, W. (2017). Lotte Reiniger: pioneer of film animation. Jefferson, North Carolina: McFarland & Company, Inc.
    Schönfeld, C. (2006). Lotte Reiniger and the Art of Animation. In Schönfeld, C. (Ed.). Practicing Modernity: Female Creativity in the Weimar Republic (pp. 169–185). Würzburg: Königshausen & Neumann.
    Tello Díaz, L. (2023). Lotte Reiniger: animación, Expresionismo, Jugendstil y narrativa visual de vanguardia frente a la conceptualización abstracta del Cinéma Pur. Espacio Tiempo y Forma. Serie VII, Historia del Arte, 11, 33–58.
    Trindade, A. L. (2005). Valores Civilizatórios Afro-brasileiros na Educação Infantil. In Valores afro-brasileiros na educação (pp. 30–36).