Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Cristiane da Silveira Lima (UFSB)

Minicurrículo

    Professora do Centro de Formação em Artes e Comunicação da UFSB. Doutora pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da UFMG. Bacharel em Radialismo, com formação complementar livre em Música. Integra o corpo docente permanente do Programa de Pós-graduação em Artes (PPGArtes/UFSB). Atua na Coordenação de Culturas Populares e Relações Comunitárias da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFSB.

Ficha do Trabalho

Título

    Territorializando afetos através da música: cultura popular e pertencimento em Café com Canela

Resumo

    Revisitamos o filme Café com Canela (Glenda Nicácio e Ary Rosa, 2017), longa-metragem produzido e ambientado no Recôncavo Baiano, tomando como ponto de partida a sua musicalidade. A partir da análise do filme, da trilha musical e de entrevista realizada com o diretor musical do filme, buscaremos discorrer sobre as contribuições da música para a territorialização dos afetos e para a construção de um senso de pertencimento em seus/suas espectadores/as, especialmente no interior da Bahia.

Resumo expandido

    A proposta deste trabalho é revisitar o filme Café com Canela (2017), primeiro longa-metragem dirigido por Glenda Nicácio e Ary Rosa, tomando como ponto de partida o modo particular pelo qual o filme inscreve o território do Recôncavo Baiano a partir de sua musicalidade, contribuindo para uma territorialização dos afetos mobilizados pela narrativa, mas também contribuindo para um engajamento afetivo e para a construção de um senso de pertencimento em seus/suas espectadores/as. A perspectiva apresentada insere-se no contexto da pesquisa ‘Dinâmicas de cinema na Bahia: comunidades, territórios e interseccionalidades’ [2024-2028], que tem como objetivo contribuir para o conjunto de reflexões da Linha de Pesquisa Processos Artísticos e Comunidades do Programa de Pós-Graduação em Artes da UFSB.

    O filme narra a história de duas mulheres negras moradoras do Recôncavo: Margarida, uma professora que vive isolada em São Félix e que sofre o luto pela perda de seu filho Paulinho; e Violeta, uma jovem moradora da cidade de Cachoeira, que ganha a vida como vendedora de coxinhas e que fora aluna de Margarida no passado. O reencontro entre as duas acaba por descortinar vivências passadas e impulsionar uma jornada de transformação de ambas. Interpretado majoritariamente por um elenco de pessoas negras, o filme vem despertando o interesse de muitos/as pesquisadores/as no Brasil, que destacam suas contribuições para o cinema brasileiro contemporâneo, em perspectiva interseccional e racializada. Já existe uma relativa fortuna crítica em torno da obra; destacamos aí produções de Joel Zito Araújo (2018), Edileuza Penha Souza (2022) e Sheila Cristina Silva Aragão Caetano et al. (2023), para citar alguns exemplos.

    Como forma de contribuir para esse importante debate, nossa ênfase recai sobre a forma como o território vem contribuir para a forma do filme (tanto narrativamente quanto em seus processos de produção colaborativos), mas dando atenção a elementos ainda pouco abordados nas análises já em circulação, como é o caso da sua dimensão sonora (e musical, em particular). Acreditamos que parte da força do filme é tributária, por exemplo, da presença do timbre inconfundível da voz do compositor cachoeirano Mateus Aleluia, que interpreta parte da trilha musical; e da presença corporal de Dona Dalva Damiana de Freitas, matriarca do samba de roda da região e integrante da Irmandade da Boa Morte de Cachoeira, que interpreta a avó de Violeta. Esses dois gigantes da cultura popular cachoeirana impregnam o filme, assim como outras participações mais pontuais, como o grupo de Samba de Roda Varre Estrada, que aparece de passagem no longa ou da Filarmônica Minerva Cachoeirana, cujo cortejo aparece de forma brevíssima ao lado do Rio Paraguaçu. Há ainda uma linda sequência interpretada pelo ator Antônio Fábio, ao interpretar Ivan, que executa em cena a João Valentão, de Dorival Caymmi, canção praieira inspirada em um pescador conhecido seu e que se tornou emblema de todo um universo cultural da Baía de Todos os Santos e de exaltação à terra natal. A presença dessas referências musicais locais agregam inúmeros sentidos ao filme e ajudam a compor esse território (geográfico, experiencial e também afetivo) vivido pelas personagens e, por extensão, pelos/as espectadores/as.

    Para além da análise fílmica, buscaremos construir nosso argumento a partir da análise da trilha musical dirigida pelo músico e pesquisador Guilherme Maia, entrevistado para a pesquisa. A trilha é composta por 9 peças musicais que estão disponíveis no Canal no Youtube da Rosza Filmes, a saber: 1 – Tema de Abertura (Intérprete: Mateus Aleluia); 2 – João Valentão (Composição: Dorival Caymmi, Intérprete: Antônio Fábio); 3 – Atabaques; 4 – Oro Mi Maió (Canto para Oxum); 5 – O Serpentear da Natureza; 6 – Oxum Transe; 7 – Tema 01; 8 – Tema 02; 9 – Tema Final. Elas contam com a participação dos músicos Mateus Aleluia, Edu Nascimento, Daniel Gomes Neto, Ícaro Sá, Victor Jesus, Guilherme Maia.

Bibliografia

    ARAÚJO, Joel Zito. “O tenso enegrecimento do cinema brasileiro nos últimos 30 anos”. Cinémas d’Amérique latine [En ligne], 26 | 2018, mis en ligne le 24 juillet 2019. Disponível em: http://journals.openedition.org/cinelatino/4185. Acesso em 16/02/2021.
    CAETANO, Sheila Cristina Silva Aragão; SCHWARTZ, Rosana Maria Barbato; DE SOUZA NETO, João Clemente. Café com canela pela perspectiva do cinema negro e da história da cultura. Práticas Educativas, Memórias e Oralidades-Rev. Pemo, v. 5, p. e510637-e510637, 2023. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/revpemo/article/view/10637/9671. Acesso em: 27ago.2025.

    SOUZA, Edileuza Penha. Café com canela e a edificação do afeto no Cinema Negro Feminino. Avanca Cinema Journal. N.º 13 (2022). p.16-25. Disponível em: https://publication.avanca.org/index.php/avancacinema/article/view/400. Acesso em: 06/09/2024.