Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    José Carlos Pereira (ESPM)

Minicurrículo

    Realizador audiovisual e mestrando em Economia Criativa, Estratégia e Inovação, integra o LEMBRAR (Laboratório de Estudos de Memória Brasileira e Representação) da ESPM Rio, com interesse nas relações entre memória, imagem e narrativa. É graduado em Estudos de Mídia pela UFF e em Direção de Cinema pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. É fundador da Moldura, produtora especializada em memórias. Possui experiência em documentário, videoarte e direção audiovisual e artística no Brasil e no exterior.

Ficha do Trabalho

Título

    Os arquivistas da felicidade: viajantes ausentes e a curadoria da memória em Marker, Gomes e Aïnouz

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Nesta proposta, lançamos um olhar sobre as formas que Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009) e Sans Soleil (1983) articulam imagens de arquivo em dispositivos híbridos entre documentário e ficção, mediados por narradores ausentes. Argumentamos que esses narradores operam como curadores afetivos da memória: fabricam, a partir de imagens de arquivo, uma memória identitária do presente que revela menos o passado do que o desejo de felicidade.

Resumo expandido

    Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009) e Sans Soleil (1983), são filmes construídos a partir de imagens de arquivo em dispositivos híbridos entre documentário e ficção, nos quais narradores que nunca aparecem imprimem uma forte dimensão subjetiva às imagens. A interseção simbólica entre essas obras se manifesta de forma particularmente evidente na comparação entre o prólogo de Sans Soleil e o epílogo de Viajo Porque Preciso. Esses são momentos em que os narradores elegem imagens específicas como emblemas da felicidade e da coragem: as crianças islandesas em Marker, os mergulhadores de Acapulco em Gomes e Aïnouz.

    Neste trabalho, argumentamos que, nesses trechos, os narradores operam como curadores afetivos da memória: mais do que organizar materiais preexistentes, eles selecionam, reorganizam e narrativizam imagens a partir de regimes de emoção, fabricando uma memória identitária do presente que revela menos o passado do que o desejo. Essa operação é significativa porque as imagens mobilizadas não pertencem à experiência vivida dos narradores, são imagens de outros, observadas e apropriadas como parte ficcional de uma memória construída.

    Essa curadoria afetiva pode ser compreendida a partir da noção de sobrevivência das imagens em Georges Didi-Huberman (2013), segundo a qual as imagens carregam temporalidades heterogêneas que se reativam no presente pelo gesto de montagem. Em diálogo com essa perspectiva, a imagem dialética benjaminiana permite pensar esses trechos como pontos de condensação temporal nos quais passado e presente se chocam, produzindo constelações de sentido que escapam à linearidade histórica. A esse quadro soma-se a contribuição de Andreas Huyssen: seus present pasts (2003) apontam para uma cultura em que o arquivo deixa de ser instância excepcional para tornar-se regime dominante de experiência temporal, condição na qual toda imagem já aparece como potencialmente arquivável, reativável e ressignificável.

    Nesse contexto, seguindo Michel Pollak (1992), para quem a memória é uma construção social continuamente reconfigurada em função de identidades e narrativas no presente, compreendemos esse gesto curatorial como uma operação identitária: os narradores não recuperam o passado, mas o inventam a partir das imagens que elegem. Em Sans Soleil, essa lógica se manifesta na circulação global de imagens e na construção de uma arqueologia afetiva que se aproxima do atlas de Aby Warburg relido por Didi-Huberman. Já em Viajo Porque Preciso, a reorganização de registros do sertão brasileiro sob forma de narração confessional aproxima o arquivo de uma estrutura melodramática, na qual dor, ausência e redenção organizam a experiência sensível.

    Finalmente, a partir das elaborações de Arlette Farge (2009) em O sabor do arquivo, podemos pensar os dois narradores como curadores da seus próprios arquivos de memórias sob jogos de aproximação e de oposição e do que a teórica chama de despojamento, selecionando inclusive o uso de memórias que não são suas ou mais possíveis naquelas narrativas. Dessa forma, os dois filmes usam nos trechos selecionados algo que “sobrevém as surpresas: o arquivo inesperado, fora do campo que se estipulou, vem chacoalhar a monotonia da coleção.” (FARGE, 2009, p. 66). E tal escolha causa uma ruptura que reforça a subjetividade dos narradores sobre essas imagens mais distantes de sua narrativa como uma citação-ruptura (FARGE, 2009) para além de suas memórias: “ … a citação às vezes dá um descanso, propõe uma pausa, uma praia talvez.” (FARGE, 2009, p. 69).

    À luz desse quadro, os trechos analisados afirmam-se não como registros do passado, mas como espaços de disputa, reinscrição e invenção da memória: um atlas afetivo projetado para o futuro dessas narrativas, que revela o que cada narrador deseja lembrar e, por isso, o que deseja ser.

Bibliografia

    BENJAMIN, Walter Benjamin. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987.
    DIDI-HUBERMAN, Georges Didi-Huberman. A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.
    DIDI-HUBERMAN, Georges Didi-Huberman. “Quando as imagens tocam o real”. Revista Pós, v. 2, n. 4, p. 204–219, 2012.
    FARGE, Arlette. O sabor do arquivo. Trad. Fatima Murad. São Paulo: Edusp, 2009.
    HUYSSEN, Andreas Huyssen. Present pasts: urban palimpsests and the politics of memory. Stanford: Stanford University Press, 2003.
    POLLAK, Michel. “Memória e identidade social”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, p. 200–212, 1992.

    Filmografia
    Sans Soleil. Direção: Chris Marker. França, 1983.
    Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo. Direção: Marcelo Gomes; Karim Aïnouz. Brasil, 2009.