Ficha do Proponente
Proponente
- Guilherme Fumeo Almeida (UFF)
Minicurrículo
- Doutor pelo PPGCOM-UFRGS. Realiza pós-doutorado no PPGMC/UFF. Integra o LACCOPS – Laboratório de Comunicação Comunitária e Publicidade Social –, o EPOCHA – Grupo de Estudos em Economia Política da Comunicação e Hegemonia – e o ARTIS – Grupo de Pesquisa em Estética e Processos Audiovisuais. Bolsista FAPERJ. E-mail: almeidaguif@gmail.com.
Coautor
- Rafael Sbeghen Hoff (UFAM)
Ficha do Trabalho
Título
- De Chico Anysio a Marcelo Adnet: construção de identidade nacional nos caminhos do humor audiovisual
Resumo
- Este trabalho pretende problematizar o papel da crítica política humorística audiovisual brasileira na construção da identidade nacional, destacando a consolidação da sátira política no audiovisual televisivo brasileiro e como ela dialoga com as mudanças sociopolíticas do país nos últimos 50 anos. O marco teórico parte das interfaces entre público e privado na formação sociopolítica brasileira e mundial e das relações entre humor, efeito de real/realidade e mise-en-scène.
Resumo expandido
- O humor audiovisual brasileiro contemporâneo revela marcas estéticas e criativas vinculadas à tradição televisiva, apontando para a crítica ao poder instituído como alvo da derrisão. Estas marcas dialogam com décadas de história da consolidação do humor político audiovisual brasileiro, incorporando e fundindo diversas influências estéticas e narrativas em suas formas de construir um diálogo entre humor e sociedade.
Chico Anysio (1931-2012), recordista em número de personagens na televisão brasileira, em se tratando de política, ficou conhecido por criar tipos que dialogavam com a autoridade e o governo militar no período da ditadura, como a “amiga do presidente” lá do Rio Grande do Sul, Salomé. Jô soares (1938-1922), por sua vez, destacou-se pela criação de personagens que criticavam o poder político por meio da sátira e da imitação, em diálogo com o contexto nacional de redemocratização, passando por figuras célebres como o Reizinho e Sua Excelência, claramente inspirada no ex-presidente José Sarney.
Casseta & Planeta Urgente (1992-2010), também da Rede Globo, trazia à frente das câmeras um humor “de cara limpa”, menos caricato e mais naturalista, com figuras que investiam no surreal, na ruptura com “aquilo que deveria ser” e no humor dirigido a personagens públicas do contexto político nacional para fazer rir. A partir de 2005, com a ampliação da conectividade no país por dispositivos móveis e o surgimento da plataforma de compartilhamento de conteúdos audiovisuais YouTube, inicia uma nova fase mercadológica para o audiovisual brasileiro.
Em 2012, um dos coletivos formados para a produção e exibição de conteúdo humorístico audiovisual na web foi o Porta dos Fundos, que apresenta, a partir de esquetes curtos, independentes entre si, uma crítica à sociedade e ao poder instituído, fomentando a crítica social a respeito de pautas como racismo, homofobia, violência, corrupção e misoginia. Os esquetes do programa Sinta-se em casa, por sua vez, foram roteirizados e interpretados por Marcelo Adnet em sua residência, durante o isolamento social no contexto da pandemia de COVID-19, e exibidos na programação da TV Globo ao longo de 2020, também sendo disponibilizados no YouTube e no Globoplay, apresentando uma forte crítica à política governamental de Bolsonaro por meio da imitação, do exagero, da distorção e do registro de uma realidade absurda e, portanto, risível.
Este trabalho pretende problematizar o papel da crítica política humorística audiovisual brasileira na construção da identidade nacional, com destaque para o histórico da consolidação da sátira política no audiovisual televisivo brasileiro e como esta consolidação dialoga com as mudanças sociopolíticas do país nos últimos 50 anos. O marco teórico parte das interfaces entre público e privado na formação sociopolítica brasileira e mundial e das relações entre humor, efeito de real/realidade e mise-en-scène.
Em um primeiro momento, é possível destacar que o humor audiovisual brasileiro segue uma tendência histórica de apontar para uma diversidade tonal que transcende o fazer rir para, em última instância, acionar uma reflexão sociopolítica sobre os discursos e seus desdobramentos no estado de espírito do público, que é co-enunciador desses esquetes, relacionando emoções e questões sociopolíticas e econômicas. O humor audiovisual, assim, demonstra investimentos cíclicos, ora mais contundentes e “ácidos” na reflexão sobre agentes públicos e suas condutas, ora focados no aspecto privado, “doméstico” e interpessoal das relações na sociedade brasileira. É dessa ordem que entendemos o humor audiovisual sobre política na história e cultura midiática nacional como um fator aglutinador de perspectivas e/ou marcas de um espírito do tempo marcado por desigualdades e idiossincrasias institucionais, onde o riso torna-se a válvula de escape e o gesto político possível frente aos absurdos contextuais retratados (e criticados) pelos conteúdos midiáticos.
Bibliografia
- BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre o significado do cômico. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.
CARDOSO, João Batista Freitas; SANTOS, Roberto Elísio. Humorísticos da TV brasileira: a trajetória do riso. In: Revista Lumina, v.2 n.2, dezembro de 2008.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
JAGUARIBE, Beatriz. Ficções do real: notas sobre as estéticas do realismo e pedagogias do olhar na América Latina contemporânea. In: Revista Ciberlegenda, Nov/2010.
JOST, François. Do que as séries americanas são sintoma? Porto Alegre: Sulina, 2012.
SALIBA, Elias Thomé. Raízes do riso: a representação humorística na história brasileira – da Belle Époque aos primeiros tempos do rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
SCWARCZ, Lília Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.