Ficha do Proponente
Proponente
- flavia yared rocha (BAT-EBA-UFRJ)
Minicurrículo
- Doutora no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena (PPGAC-UFRJ. Mestre em Filosofia (PUC-RJ. Possui pós-graduação (DPEA) em Arquitetura e Cenografia (EACF-FR) e pós-graduação em Arte e Filosofia (PUC-RJ). Graduada em Arquitetura e Urbanismo (UFPR). Trabalhou 25 anos como cenógrafa na TV Globo e no mercado de audiovisual como Diretora de Arte. Atualmente é professora do Departamento de Artes Teatrais (BAT) no Curso de Cenografia em Artes Cênicas da EBA – UFRJ.
Ficha do Trabalho
Título
- VAI TER QUE ANDAR PRA FRENTE: O Lugar da Direção de Arte no Clipe do Programa A Gente Riu Assim.
Seminário
- Estética e Teoria da Direção de Arte Audiovisual
Resumo
- O artigo discute o processo da criação da Direção de Arte a partir da sua participação na construção do espaço cênico visual no clipe Vai Ter Que Andar Pra Frente do programa de humor A Gente Riu Assim – 2019. A discussão está fundamentada em aspectos da construção de uma obra de arte in Redes de Criação de Cecilia Almeida Salles, 2006; nos estudos sobre a soberania do artista e nos estudos de como as imagem apelam às nossas memorias in Sobre O Fio de George Didi-Huberman, 2013.
Resumo expandido
- Ao longo do presente artigo, pretendo analisar aspectos do processo de criação do espaço cênico visual do clipe Vai Ter Que Andar Pra Frente do programa de humor A Gente Riu Assim – 2019 (Estúdios Globo, 2019) entendendo-o como parte integrante de uma poética que incorpora imagens emblemáticas para a construção da narrativa. Situo a discussão no contexto político e social do final de 2019 em articulação com a perspectiva da encomenda de um programa de humor produzido e exibido pela Tv Globo.
A Gente Rio Assim foi um dos programas especiais de fim de ano produzidos pelos Estúdios Globo e exibidos no seu canal da tv aberta. Foram feitas duas edições (2018 e 2019), e neste artigo trato do clipe de encerramento do segundo programa da série exibido em 25 de dezembro de 2019 cuja proposta era abordar as notícias que marcaram o ano sobre o ponto de vista do humor. Esquetes produzidas nos diferentes programas humorísticos da emissora foram reunidas e as personagens que mais se destacaram durante o ano participaram de uma espécie de mesa redonda comandada por Marcelo Adnet – parodiando o programa Bem Amigos apresentado por Galvão Bueno – comentando todos os acontecimentos.
O ano de 2019, primeiro ano do governo do presidente do Brasil Jair Bolsonaro, foi marcado por intensas manifestações políticas, uma terrível crise econômica e retrocessos em todas as áreas sociais, ambientais, educacionais, culturais, etc. Neste contexto, os programas de humor desempenharam um papel fundamental de crítica onde se postulava: “está difícil competir com a realidade”. O mote dos programas humorísticos da TV Globo sintetizava a vontade de mergulhar no universo dos acontecimentos e das notícias jornalísticas que viraram terreno fértil de inspiração onde os esquetes poderiam apontar para todas as questões onde houvesse uma piada possível sobre o mundo contemporâneo. Na ocasião da sua exibição, nem se imaginava que o ano de 2020 traria uma pandemia de proporções mundiais cuja ideia de fim de mundo se tornou concreta e real.
Baseado na análise dos aspectos da construção de uma obra de arte no livro Redes de Criação de Cecilia Almeida Salles, 2006; dos estudos sobre a soberania do artista presente no livro Sobre O Fio de George Didi-Huberman, 2013; e dos estudos de como as imagem apelam as nossas memórias para dar forma aos nossos desejos de emancipação presente em Levantes organização de George Didi-Huberman, 2017; este artigo explora a tensão dialógica entre a soberania do artista mediante a uma encomenda e os embates resultantes das limitações frequentemente impostas pela realidade no processo de criação de uma equipe de audiovisual. Destacamos a escolha pelo emprego de imagens emblemáticas cristalizadas na memória como recurso narrativo e estilístico da Direção de Arte, que através de uma arquitetura de colagem, personagens e ações se configuram e se reconfiguram ao longo da música para a construção da dramaturgia visual. As imagens re-constituídas corporificam o roteiro em situações que, numa relação constante com a memória imagética, desnudam os embates sociais e tencionam visões de mundo e conflitos propostos pela perspectiva do humor.
Em termos mais específicos, esse clipe televisivo foi resultado de um trabalho coletivo sujeito a inúmeras interferências de uma rede de criação em constante ebulição que encontrou como forma de narrativa o emprego de imagens emblemáticas da história que pertencem à memória coletiva de uma nação. Apropriando-se do legado de imagens icônicas feitas por cineastas, fotógrafos e artistas, o espaço cênico visual consegue dar materialidade para a letra da música parodiada, atendendo a encomenda de produzir um clipe que passasse uma mensagem de esperança, apesar do caos, onde um futuro melhor pudesse se tornar possível somente se todos caminhassem pacificamente na mesma direção.
Bibliografia
- DIDI‐HUBERMAN, Georges. Sobre o fio. SP: Cultura e Barbárie, 2019.
DIDI‐HUBERMAN, Georges (org). Levantes. São Paulo: Ed. SESC São Paulo, 2017.
HAMBURGER, Vera. Arte em cena: a direção de arte no cinema brasileiro. São Paulo: Ed. Senac e Edições Sesc, 2014.
JACOB, Elizabeth M. Um Lugar para Ser Visto: a direção de arte e a construção da paisagem do cinema. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal Fluminense, 2006.
ROCHA, Flávia Yared. CONSTRUTORES DE ILUSÕES: O Lugar da Direção de Arte e da Cenografia na Criação do Espaço Cênico Visual da TV Globo. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena, Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ECO-UFRJ, 2024.
SALLES, Cecília Almeida. Redes de criação. Construção da obra de arte. São Paulo: Ed. Horizonte, 2006.
Clipe Vai ter que andar pra frente (https://globoplay.globo.com/v/8187791/)