Ficha do Proponente
Proponente
- Noel dos Santos Carvalho (UNICAMP)
Minicurrículo
- Noel dos Santos Carvalho é sociólogo, documentarista e professor de cinema brasileiro no Instituto de Artes da UNICAMP.
Ficha do Trabalho
Título
- Modernidade negra e cinema negro – vinte e cinco anos do Dogma Feijoada e Manifesto do Recife.
Mesa
- A produção audiovisual como instituição – identidade racial, políticas públicas e mercado.
Resumo
- A proposta dessa comunicação é: 1) apresentar as formulações dos manifestos do cinema negro formuladas no final dos anos 1990 (Dogma Feijoada e Manifesto do Recife) no contexto das relações raciais do início do século XXI; 2) fazer o levantamento da produção dos principais cineastas dos dois grupos vinte e cinco anos após e 3) analisar a sua irradiação para os campos da crítica e acadêmico.
Resumo expandido
- No final dos anos 1990 e início da década de 2000, dois coletivos de cineastas, atores e ativistas negros publicaram manifestos que postularam a fundação de um cinema negro no Brasil. O primeiro foi o Dogma Feijoada, formado majoritariamente por estudantes universitários e curta-metragistas. Em 1999 seus membros propuseram sete mandamentos antirracistas para orientar os jovens negros que aspiravam carreira no cinema. Sao eles: O filme deve ser dirigido por um realizador negro; O protagonista deve ser negro; O filme deve abordar a cultura negra brasileira; O projeto deve ter um cronograma exequível (produções rápidas/urgentes); Personagens estereotipados (negros ou não) são proibidos; O roteiro deve dar prioridade ao negro comum brasileiro; Super-heróis ou bandidos devem ser evitados.
O segundo, o Manifesto do Recife, foi publicado em 2001 e reivindicou a presença de negros nos cargos diretivos das empresas de audiovisual para tentar minorar a produção de estereótipos racistas. (Stam, 2008, Rodrigues, 2001) Utilizou os termos das políticas de ações afirmativas que teve na reivindicação por cotas raciais nas universidades a sua maior bandeira: “Este manifesto é a proposta de um pacto. A partir de hoje aplicaremos todos nossos esforços para reunir “as tribos de afro-descendentes” em atividades associativas ou cooperativas de defesa da ampliação do mercado de trabalho para atrizes, atores, técnicos, produtores, diretores e roteiristas afro-descendentes na TV, cinema e publicidade. Nos propomos a colaborar mutuamente em toda produção dos afro-descendentes voltada à valorização da história, presença e importância do povo negro e da herança africana na cultura brasileira.” (Carvalho, 2022)
Foi a primeira vez na história do cinema brasileiro que cineastas e produtores negros se posicionaram politicamente e questionaram as representações raciais. No decorrer dos anos 2010 e 2020 os dois manifestos se configuraram como inauguradores do cinema negro brasileiro.
O termo cinema negro é empregado de modo difuso para designar produtores, filmes, mostras, livros, festivais e agrupamentos de cineastas, entre outros usos. No sentido de esboçar uma conceituação, entendo o cinema negro como a “…comunidade de pessoas que trocam pensamentos ou se encontram numa situação de influência reciproca de pensamentos…” É formado por artistas, intelectuais e instituições engajadas na construção das relações entre o cinema, cultura e história negras. (Fleck, 2009, p. 82; Carvalho, 2023)
O cinema negro não nasceu isolado das disputas e reivindicações da população negra por integração na sociedade. Ao contrário é um herdeiro delas. Seus filmes, discursos e textos são formas infrapolíticas (Scott, 2013) de resistência e afirmação da negritude. Caracterizam o que Guimarães (2021) designa por modernidade negra, nas suas palavras, um dos modos de “inserção dos negros e das suas práticas culturais ao mundo moderno.” (p. 89). Destarte, os manifestos Dogma Feijoada e Manifesto do Recife são a expressão dessa modernidade no cinema brasileiro.
Nas décadas seguintes após a publicação dos manifestos os filmes, seus produtores e diretores foram celebrados em mostras temáticas, prêmios e festivais. Os dois manifestos ultrapassaram o meio estrito da produção, se irradiaram para a crítica e para as universidades. A proposta dessa comunicação é: 1) apresentar as propostas gerais dos dois manifestos no contexto das relações raciais da virada do século XXI; 2) fazer o levantamento da produção dos principais cineastas dos dois grupos e 3) analisar a sua irradiação para os campos da crítica e acadêmico.
Bibliografia
- Carvalho, Noel dos Santos. Cinema Negro. In Rios, Flávia; et al. Dicionário das relações étnico-raciais contemporâneas. São Paulo, Ed. Perspectiva, 2023.
Carvalho, Noel dos Santos. Cinema negro brasileiro. Campinas, Papirus editorial, 2022.
Fleck, Ludwik. Gênese e desenvolvimento de um fato científico. Belo Horizonte, Fabrefactum Editora, 2009.
Guimarães, Antonio Sérgio Alfredo. Modernidade negra. São Paulo, Editora 34, 2021.
Rodrigues, João Carlos. O negro brasileiro e o cinema. Rio de Janeiro, Pallas Editora, 2006.
Scott, James C. A dominação e a arte da resistência – discursos ocultos. Lisboa, Editora Terra Livre, 2013.
Stam, Robert. Multiculturalismo tropical. São Paulo, EDUSP, 2008.