Ficha do Proponente
Proponente
- Luana Mendonça Cabral (UFPE)
Minicurrículo
- Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com mestrado e graduação em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), respectivamente. Interessada nas relações entre estética e política no campo do cinema, teorias e práticas do documentário, cinema de curta-metragem. Atua como pesquisadora em produções audiovisuais e iniciativas de preservação e memória audiovisual.
Ficha do Trabalho
Título
- “O mastro do Bino Santo” (1971): Usos e abusos do arquivo a partir do cinema de Ramon Alvarado
Resumo
- Esta pesquisa tem como problema central a utilização de imagens de arquivo no filme “O Mastro do Bino Santo” (Ramon Alvarado, 1971). Considerando as relações estabelecidas entre arquivo, montagem e a manipulação das imagens originais apropriadas pelo filme, proponho a existência de rasuras na continuidade histórica sugerida pela narrativa fílmica que subvertem os sentidos atribuídos às imagens do passado/presente e aprofundam a crítica à formação colonial do Brasil presente na obra.
Resumo expandido
- Ramon Alvarado (Recife, 1946) tornou-se na década de 1960 um dos precursores do cinema capixaba a partir de sua atuação como diretor e fotógrafo no chamado ciclo de cinema amador do Espírito Santo, primeiro movimento de realização cinematográfica autoral do estado (Henriques, 2007, p. 54). Em 1968, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar como técnico cinematográfico. Paralelamente, desenvolveu sua carreira como curta-metragista realizando documentários no Rio de Janeiro e no Espírito Santo ao longo das décadas de 70 e 80. Seus filmes foram exibidos principalmente no circuito cineclubista, em salas de cinema como complemento ao longa-metragem (Alvarado, 2022) e em alguns festivais, como Gramado e Brasília.
Em 2022, o projeto Acervo Capixaba: Ramon Alvarado, realizado pela produtora Pique-Bandeira Filmes, desenvolveu a digitalização e restauração de sete filmes realizados por Alvarado. À exceção de “A Escola Nova” e “Floresta da Tijuca”, cujos materiais utilizados em suas digitalizações foram localizados no acervo da Cinemateca do MAM (RJ), todos os filmes foram digitalizados a partir de materiais preservados pelo próprio cineasta. Ramon Alvarado também conservou, ao longo de décadas de trabalho, dezenas de documentos relativos à sua atuação como diretor e fotógrafo. Este acervo inclui fotografias de cena, matérias de jornais, certificados, entre outros tantos itens que ajudam a recontar sua trajetória, bem como a reconstituir parte da história do cinema realizado no Espírito Santo e no Brasil.
O “impulso arquivístico” e historiográfico que caracteriza a relação de Ramon Alvarado com sua própria obra relaciona-se também à temática de parte de seus documentários, tais como “Brincadeira dos Velhos Tempos?” (1977) e “Floresta da Tijuca” (1980). Nesses filmes, o cineasta se utiliza da narração (voice over) e do uso de imagens de arquivo para construir narrativas descritivas e de caráter histórico sobre seus objetos de interesse, sejam eles a tradição de soltar pipas ou a famosa floresta no Rio de Janeiro.
A narrativa de “O Mastro do Bino Santo” (1971), por sua vez, gira em torno da tradicional festa da Puxada do Mastro de São Benedito, realizada anualmente no município da Serra (ES). Neste filme, a narração persiste como principal estratégia de aproximação da festa ao seu passado histórico. Contudo, o uso de imagens de arquivo é marcado pelas relações estabelecidas entre montagem, ritmo e trilha sonora (Gomes, 2022), bem como pelas intervenções feitas nas imagens originais apropriadas pelo filme, em sua maioria obras do pintor alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858). O material iconográfico, originalmente colorido, é incorporado ao filme em versão preto e branco, por vezes ampliado e recortado para privilegiar certos aspectos das cenas retratadas. É o caso da obra “Derrubada de uma floresta” (litografia sobre papel, 1853), cujo recorte presente no filme dá centralidade à figura de três homens negros que levam nas mãos pedaços de troncos de árvores, estabelecendo uma crítica direta ao processo de exploração do trabalho de pessoas escravizadas no Brasil em sua indissociável aproximação com a formação cultural do país (Gonzalez, 2024) e sugerindo, ainda, uma possível relação entre os troncos carregados e a figura do mastro, central para a festa.
Neste trabalho, busco compreender de que maneiras “O Mastro do Bino Santo” se vale das manipulações realizadas nos arquivos originais, sobretudo a alteração de suas cores e enquadramentos, para aprofundar a crítica proposta em sua narrativa acerca do passado colonial brasileiro e criar possibilidades de subversão através da festa, da música. A partir de Lindeperg (2015), Leandro (2013) e Foucault (1987), proponho que o uso e abuso dos arquivos se faz aqui capaz de rasurar as continuidades existentes entre as “imagens do passado” e as imagens do presente, estabelecendo relações históricas entre ambas, mas conferindo-lhes sentidos e visualidades distintas.
Bibliografia
- ALVARADO, Ramon. Minha invisibilidade cinematográfica. In: Acervo Capixaba (site). 2022.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.
GOMES, Juliano. Festa, cinema e tempo transmutado (sobre O Mastro do Bino Santo). In: Acervo Capixaba (site). 2022.
GONZALEZ, Lélia. Festas populares no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2024.
HENRIQUES, Milson. Geração 60 e o movimento do cinema amador. In: OSÓRIO, Carla (Org). Catálogo de filmes: 81 anos de cinema no Espírito Santo. Vitória: ABD, 2007.
LEANDRO, Histórias de montagem, montagens da História (Godard e os arquivos). In: COUTINHO, Mário Alves e MAYOR, Ana Lucia Soutto (org). Godard e a educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
LINDEPERG, Sylvie. O destino singular das imagens de arquivo: contribuição para um debate, se necessário uma “querela”. In: Revista Devires, v.12, n. 1, pp. 12-27. Belo Horizonte, 2015.