Ficha do Proponente
Proponente
- Lucas Bastos Guimarães Baptista (Sem vínculo)
Minicurrículo
- Crítico de cinema e pesquisador. Mestre (2014) e Doutor (2019) em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA-USP. Desde 2013 é editor da Foco – Revista de Cinema. Colaborador do blog Estado da Arte do jornal Estado de São Paulo e um dos curadores da mostra Lumière Cineasta (CCBB, 2020). Ministrou os cursos O cinema e a aspiração radical: Annette Michelson e as vanguardas (2020), A poética de Robert Bresson (2023) e Crítica e análise no cinema (2024).
Ficha do Trabalho
Título
- A encruzilhada como figura das vanguardas
Seminário
- Estudos Comparados de Cinema
Resumo
- O que se propõe aqui é a comparação de textos escritos em diferentes épocas, e sobre diferentes transformações na história do cinema, mas que possuem em comum o recurso à mesma figura: a encruzilhada. Para esses autores, a encruzilhada é a figura pela qual uma vanguarda se projeta na arena histórica, reconhecendo o momento como sendo decisivo e sua atuação como definidora do potencial do cinema.
Resumo expandido
- Na primeira década do século XX, ganhava forma na produção de alguns países o que Noel Burch chamou de Modo de Representação Institucional (MRI). Para alguns historiadores, o processo indicava uma direção natural para a linguagem do cinema. Burch se opôs a essa visão, e argumentou que, até 1908, aquelas características eram dispersas e cercadas de outras que as relativizavam. A figura que melhor representaria esse problema seria Edwin Porter, que Burch viu como uma espécie de Jano, alguém posicionado em uma encruzilhada histórica: em seus filmes do período, coexistiriam modos de representação associados a diferentes momentos, como se observassem de uma só vez o passado e o futuro do cinema. O argumento de Burch se voltou contra a naturalização do progresso, e em outra ocasião ele defendeu um retorno ao primeiro cinema pelas vanguardas dos anos 1970, para que as características “neutralizadas” pelas convenções industriais fossem mais uma vez tornadas fontes de renovação.
Em 1928, um grupo de cineastas soviéticos assinou uma declaração sobre o futuro que vislumbravam para o cinema com a chegada do som. Eles defenderam que o desenvolvimento da arte implicaria necessariamente o lugar da montagem, considerada o seu principal componente. Reconhecendo que a introdução do som era uma questão de tempo, argumentaram que o seu uso provavelmente seguiria a “linha de menor resistência”: a sincronia naturalista entre os dois sentidos. Contra isso, defenderam um uso “polifônico”, um “contraponto orquestral” entre imagens e sons. O som, nesse caso, foi visto como “uma invenção de dois gumes”, abrindo caminho para um certo desenvolvimento e, com isso, exigindo a resposta de outro, como se na encruzilhada de possibilidades históricas uma das trajetórias representasse o fechamento e a outra representasse a abertura da invenção.
Em 1975, Wollen viu a história do cinema como levando à constituição de “duas vanguardas”, uma delas baseada em questionamentos das artes visuais e recusando as premissas do longa-metragem industrial, e outra mais próxima do teatro e da literatura, aceitando aquelas premissas ainda que para revisá-las criticamente. Se ambas coincidiam na recusa do cinema dominante, o faziam por vias distintas. A comunicação acidentada entre os dois lados, e a divergência radical de pressupostos, tornava difícil imaginar uma convergência entre eles. Mas foi justamente o confronto e a justaposição dessas características que Wollen considerou o caminho mais relevante para o cinema daquele momento: em meio à encruzilhada de possibilidades, Wollen, “escrevendo agora como cineasta”, diz que tomou essa “fantasia” como a sua principal referência.
Na emergência do MRI, na chegada do som, no surgimento das duas vanguardas, a figura da encruzilhada é a estratégia para, de uma só vez, destacar transformações em curso e atribuir valores aos direcionamentos possíveis. Em todos esses casos, há o reconhecimento de que o avanço “natural” seria restritivo, enquanto a abertura das possibilidades é igualada a um uso mais livre e ousado dos mesmos procedimentos. Em todos eles, a encruzilhada sugere a figura pela qual uma vanguarda se projeta na arena histórica, reconhecendo o momento como sendo decisivo e sua atuação como definidora do potencial do cinema.
Entre os nomes que sugerem uma contraparte dessa postura, nenhum se afirma mais do que o de André Bazin. A defesa de uma evolução “natural” da linguagem cinematográfica, que levaria à coroação de certas características como sendo essenciais, foram as bases do que Bazin defendeu em seu panorama do cinema no pós-guerra. Reconhecendo a mesma encruzilhada descrita pelos soviéticos, Bazin viu ali um movimento que integraria cada vez mais as diferentes possibilidades ao caminho do realismo – o que ele chamou de a “verdadeira vanguarda”.
Bibliografia
- BAZIN, André, “A evolução da linguagem cinematográfica” (1950-1955), in O que é o cinema? (São Paulo: Cosac Naify, 2014).
BURCH, Noel, “Porter, or Ambivalence” (1980), in In and Out of Synch: The Awakening of a Cine-Dreamer (Londres: Scolar Press, 1991).
EISENSTEIN, Sergei, “Declaração sobre o futuro do cinema sonoro” (1928), in A forma do filme (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2002).
WOLLEN, Peter, “The Two Avant-Gardes” (1975), in Readings and Writings: Semiotic Counter-Strategies (Londres: Verso, 1982).