Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Mairon Elme da Silva (Unicamp)

Minicurrículo

    Doutorando e Mestre em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Mairon Elme é pesquisador em estudos queer, animação e televisão. Bacharel em Comunicação Social – Midialogia (Unicamp), também tem experiência em estágio em docência nas disciplinas ”Projetos em TV e Vídeo I” e ”Projetos em TV e Vídeo II”, ministradas pelo Prof. Gilberto Sobrinho, e em extensão universitária, por meio de seu estágio no Museu Exploratório de Ciências da Unicamp.

Ficha do Trabalho

Título

    Desviando para novos mundos: práticas de criação de mundos queer em Steven Universo

Resumo

    Este trabalho investiga os aspectos estéticos e narrativos da série animada “Steven Universo” (Cartoon Network, 2013–2019) que contribuem para a criação de mundos dissidentes da heteronormatividade. Os dois mundos analisados — um diegético, resultante das ações políticas de seu protagonista queer, e um extradiegético, referente à forma em que a série discute questões de gênero dentro de uma animação televisiva — revelam possibilidades de subversão política na produção audiovisual comercial.

Resumo expandido

    Este texto é embasado na dissertação de mestrado “Os mundos queer de Steven Universo: práticas estéticas e políticas de criação de mundos em séries de animação” (Elme, 2025). Ao longo da pesquisa, foram analisados diferentes elementos visuais, sonoros e narrativos presentes em “Steven Universo” (Cartoon Network, 2013–2019) que aproximam o seu processo de produção da criação de mundos alternativos queer proposta por Schoonover e Galt (2016). Segundo os autores, ao passo que o cinema é capaz de imaginar realidades alternativas àquelas em que vivemos, os filmes queer — filmes que não apenas apresentam personagens e vivências homossexuais, mas que evidenciam e discutem normas sobre corpo, gênero e sexualidade — permitem a criação de realidades (novos mundos) em que a heteronormatividade, a colonialidade e o capitalismo operam de modos diferentes daqueles encontrados nos seus respectivos contextos de produção. Portanto, objetivou-se verificar se e como “Steven Universo” poderia fazer o mesmo que esses filmes, na condição de animação seriada televisiva.
    A série apresenta Steven, um garoto criado na Terra por seu pai e por três tutoras alienígenas da espécie gem, composta por seres cujos corpos são formados por pedras preciosas e luz. Apesar de serem assexuadas, todas as gems referem-se a si mesmas no feminino, com exceção de Steven, que é filho de um humano com uma gem. A natureza de Steven, que extrapola os limites entre humano e não humano, orgânico e inorgânico, homem e mulher, é a primeira de diferentes características queer do programa.
    “Steven Universo” não é a única obra de animação a fazer isso. Por exemplo, nas animações seriadas da franquia “X-Men”, Bessa enxerga “uma alegoria ‘bem-humorada’ dos seres humanos que nós cotidianamente consideramos extra-humanos, para não dizer anômalos, aberrações etc…” (1998, p. 34). No entanto, “Steven Universo” diferencia-se ao construir mundos queer dentro e fora de seu próprio programa. Sua criadora, Rebecca Sugar, produziu sua série com a preocupação de que seu público infantil entendesse a importância de se expressar e de não se culpar pelo julgamento do outro sobre seus gostos pessoais ou a forma como se vestem (McDonnell, 2020). Mesmo sendo desencorajada a apresentar personagens e vivências queer em seu programa sob o risco de ter sua série cancelada, Sugar assim fez por conta desse posicionamento.
    Enquanto Sugar batalhava contra um modelo de televisão que fortalece a heteronormatividade, no seu programa, Steven e sua família protegiam a Terra do Império Gem, que extraía recursos de outros planetas para produção de novas gems até o ponto de seu colapso. Não bastasse a ameaça à vida terráquea, o Império Gem perseguia toda gem que não seguisse as normas de suas respectivas castas, ou que apresentasse alguma deficiência ou diferença física. Essa inclusão explícita de personagens queer que lutam pela proteção de outros seres marginalizados pelas normas de conduta e corpo do seu universo tem dois resultados: ela permite que “Steven Universo” discuta as consequências de normas violentas sobre corpo, gênero e sexualidade dentro de uma narrativa voltada a telespectadores infantis, assim como propõe métodos para enfrentá-las e subvertê-las na ficção e no mundo real.
    Apesar de perdas ao longo do processo, tanto Steven quanto Sugar conseguem mudar os mundos em que vivem por conta de suas vivências queer. Steven desfaz o Império Gem ao evidenciar seu fracasso em seguir suas próprias normas, e Sugar torna-se uma das pioneiras na inclusão de diversidade de gênero e sexualidade em animações televisivas. Para Chambers (2009), política e cultura são indissociáveis, e portanto, a televisão pode não só amplificar as normas que a produziu, como também subvertê-las. Logo, o caso de “Steven Universo” contribui para seu argumento, mostrando que a dissidência da sua produção e de sua narrativa também pode criar alternativas às normas hegemônicas de se fazer televisão e audiovisual.

Bibliografia

    BESSA, Karla Adriana M. Posições de Sujeito, Atuações de Gênero… Revista Estudos Feministas, [S. l.], v. 6, n. 1, p. 34, 1998. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/12033. Acesso em: 8 jul. 2025.
    CHAMBERS, Samuel A. The Queer Politics of Television. Londres: I.B.Tauris, 2009.
    ELME, Mairon. Os mundos queer de Steven Universo: práticas estéticas e políticas de criação de mundos em séries de animação. 2025. Dissertação (Mestrado em Multimeios) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP.
    MCDONNELL, Chris. Steven Universe: End of an era. Abrams, Inglaterra, 2020.
    SCHOONOVER, Karl; GALT, Rosalind. Os mundos do cinema queer: da estética ao ativismo. ArtCultura, [S. l.], v. 17, n. 30, 2016. Disponível em: https://bit.ly/4cUOr8X. Acesso em: 20 abr. 2026.
    STEVEN Universo [Seriado]. Criação: Rebecca Sugar. Burbank (Califórnia): Cartoon Network Studios, 2013–2019. Disponível em: https://bit.ly/4tT8rhT. Acesso em: 18 abr. 2026.