Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Luiz Antonio Mousinho (UFPB)

Minicurrículo

    Professor Titular do Departamento de Comunicação e da Pós-graduação em Letras da UFPB. Graduado em Jornalismo pela UFPB, fez mestrado em Letras na mesma instituição e doutorado em Teoria e história literária na UNICAMP. É autor de, entre outros, A sombra que me move: ensaios sobre ficção e produção de sentido (2012), O mal-assombrado e iluminado dia diário: narrativa e vozes sociais no cinema e na TV (2023) e A carne herdada: narrativa e vozes sociais em Clarice Lispector (2023).

Ficha do Trabalho

Título

    O cinema de Kleber Mendonça Filho e a noção de regionalismo nordestino

Resumo

    O cineasta Kleber Mendonça Filho tem reagido com rechaço e ironia às indicações de que sua obra teria cunho regionalista, sinalizações que, percebemos, têm partido tanto da crítica acadêmica, quanto das abordagens jornalísticas. Pretendemos fazer uma análise comparada entre aspectos do Manifesto regionalista (1976), de Gilberto Freyre, e alguns dos filmes do cineasta, verificando se, e até que ponto, tal aproximação se sustenta.

Resumo expandido

    O cineasta Kleber Mendonça Filho tem reagido com rechaço e ironia às indicações de que sua obra teria cunho regionalista, sinalizações que, percebemos, têm partido tanto da crítica acadêmica, quanto das abordagens jornalísticas. Pretendemos fazer uma análise comparada entre aspectos do Manifesto regionalista (1976), de Gilberto Freyre, e alguns dos filmes do cineasta, verificando se, e até que ponto, tal aproximação se sustenta.
    Buscaremos rastrear na materialidade textual do Manifesto e sobretudo nas obras fílmicas, elementos que caracterizem ou não esse viés regionalista. Daremos atenção principal à intenção das obras, muito embora intenção do autor e da recepção (Joly, 2017) também possam contribuir no entendimento do fenômeno, qual seja, a percepção de possível filiação dos textos cinematográficos às propostas do Regionalismo nordestino e ao ambiente cultural e histórico no qual foi forjado.
    A partir da segunda metade do século XIX, as mudanças processadas na economia em nível internacional teriam reflexos evidenciados no Brasil, determinando uma nova ordenação das forças produtivas. Isso definiria o novo perfil do país, com o eixo econômico se transferindo da então região Norte, hoje Nordeste, para o chamado Centro-Sul, espaço classificado atualmente como Sudeste. Como assinala Rosa Godoy Silveira (1984, p. 16), nesse processo “novos espaços se configuraram mais dinamicamente inseridos no sistema econômico mundial capitalista, como foi o caso da área cafeeira estabelecida territorialmente no então denominado Centro-sul do país”. Por outro lado, prossegue a autora (1984, p.16), “outros espaços, sobretudo o chamado Norte, perderam o dinamismo, postas as contradições das forças produtivas e das relações sociais que os estruturavam”. O fim da mão-de-obra escrava, a queda de preços do açúcar e do algodão no mercado internacional e a ascensão da economia cafeeira no Sudeste determinariam esse novo desenho do mapa do poder econômico nacional.
    Sintoma de mudança do eixo de poder econômico do atual Nordeste para o Sudeste, o Manifesto regionalista (1976), como ressalta Moema Selma D’Andrea (1984, p. 19), traduz uma intenção de reagrupamento de forças para ressuscitar valores do patriarcalismo açucareiro. Trazendo a birra de “uma fração açucareira da classe dominante brasileira, em vias de subordinação a uma outra fração hegemônica comercial-cafeeira” (Silveira, 1984, p. 17).
    A percepção do cinema de Kleber como regionalista parece ser difusa, contaminada pelo dado histórico de a indústria cultural ter o Sudeste como centro irradiador de falares, sotaques e costumes a serem aceitos como nacionais, padrão, o normal. Ainda mais com o estabelecimento da TV em rede nacional no país a partir dos anos 1970 (Bucci, 1997; Jambeiro, 2001). Porém um comentário com estrutura de artigo do pesquisador Jorge Coli (2026), publicado em suas redes sociais, avança no sentido da percepção de O agente secreto se filiar a um topos do ressentimento e ao ideário regionalista de Freyre, criando o contraste entre um Brasil autêntico e outro estrangeirado e invasor.
    Vamos rastrear em filmes como O som ao redor e Aquarius o que eles constroem em termos de olhar sobre as classes dominantes do Nordeste ou enquanto possível autocrítica das classes médias de Pernambuco. E Bacurau e O agente secreto no sentido de como delineia visões dos embates em personagens-tipo (Candido et al, 1992) que representam o Nordeste e o Sul-Sudeste. Pretendemos colocar questões sobre se e até que ponto a obra arranha essa percepção do senso comum do Nordeste como sendo regional. Ou em que medida os filmes sintonizam com o ressentimento de fração de classe traduzido no Manifesto regionalista. Reflexões sobre as relações entre ficção e sociedade (Shohat, Stam, 2006), focalização (Genette, 2017; Gaudreault, Jost, 2009), tato e entonação (Bakhtin, 2016; Stam, 1992) e personagem (Candido et al, 1992) serão as categorias nas quais nos basearemos para analisar as obras.

Bibliografia

    BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. São Paulo: Editora 34, 2016.
    CANDIDO, Antonio et. al. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1992.
    COLI, Jorge. COLI, Jorge. Kleber Mendonça é um cineasta original e importante. São Paulo, 16 jan. Facebook: Jorge Coli. Disponível em https://www.facebook.com/photo?fbid=10164077113183944&set=a.10150607302923944&locale=pt_BR Acesso em: 20 jan. 2026.
    D’ANDREA, Moema Selma. O ideário regionalista-tradicionalista e sua apresenta- ção na literatura nordestina. 1987. Dissertação (Mestrado Teoria e História Literária) —Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1987.
    Espadeiro Martins. Lisboa: Edições 70, 2002.
    FREYRE, Gilberto. Manifesto regionalista. Recife: MEC; Instituto Joaquim Na- buco de Pesquisas Sociais, 1976.
    GAUDREAULT, André. e JOST, François. A narrativa cinematográfica.
    Tradução de Adalberto Muller. Brasília: EDUNB, 2009.
    JOLY, Martine. A imagem e sua interpretação. Tradução de José Francisco
    SHOHAT, Ella; STAM, Robert. Crítica