Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Manuela Malheiros Silva (UNESPAR)

Minicurrículo

    Manuela Malheiros cursa bacharel em Cinema e Audiovisual na UNESPAR/FAP, atualmente é pesquisadora e bolsista do Programa de Iniciação Científica (PIBIC/Unespar) com bolsa da Fundação Araucária. É membro do Grupo de Pesquisa CineCriare Cinema: criação e reflexão (PPG-CINEAV/UNESPAR/CNPq). É tecnóloga em Produção Audiovisual (UNITAU) e especialista em Processos Criativos e Gestão da Indústria Cinematográfica (FAAP). Atua nas áreas de montagem, edição, produção e assistência de direção.

Ficha do Trabalho

Título

    Paisagens emocionais do cinema paranaense no fim da década de 1960

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    O trabalho analisa os primeiros longas paranaenses, “O Diabo de Vila Velha” (1965) e “Lance Maior” (1968), sob a perspectiva da representação dos espaços geográficos e arquitetônicos do Estado. Enquanto o primeiro busca criar uma paisagem mitológica via projeto institucional, o segundo adota o cinema moderno e autoral para situar Curitiba como palco de desilusões amorosas. Embora ambos construam “paisagens emocionais”, revelam estratégias estéticas distintas de representação do Paraná.

Resumo expandido

    A comunicação propõe uma análise dos dois primeiros longa-metragens paranaenses lançados em circuito comercial de cinema: “O Diabo de Vila Velha (1965)” e “Lance Maior” (1968). Compreendendo os filmes como importantes registros históricos da paisagem do Paraná, o trabalho investiga como as obras articulam cinematograficamente experiências urbana e rural, os deslocamentos e as questões geracionais em um momento de intensa transformação social e cultural no Brasil no ano de 1960.
    Em “Lance Maior”, dirigido por Sylvio Back, acompanhamos um casal de classes sociais distintas que circulam por diferentes lugares de Curitiba, a capital do Estado: o centro, as praças, a universidade, um bairro periférico, um clube de elite… evidenciando tanto os limites quanto às possibilidades de mobilidade urbana e social. A cidade aparece como um espaço em transformação e desejo das personagens, refletindo suas ambições de elevar de vida enquanto estão estagnadas, inscrevendo o município como um lugar vivido e reconhecível, inclusive nos dias de hoje. O filme dialoga com a noção de “cinema de autor”, com Sylvio Back sendo a principal força criativa na obra.
    Já em “O Diabo de Vila Velha”, acompanhamos um grupo de criminosos, que intimida uma pequena cidade. Os moradores encontram apoio na polícia e se mobilizam para combater os criminosos. O título faz referência direta a um dos principais pontos turísticos do estado, O Parque Estadual de Vila Velha, sítio geológico situado no município de Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, que ganha destaque em determinadas cenas, com grandes planos gerais, numa espécie de tentativa institucional de criação mítica, que dialoga com o faroeste norte-americano. Apesar disso, outra parte significativa do filme não foi baseada em Ponta Grossa: todas as cenas internas foram gravadas no Teatro Guaíra, em Curitiba, evidenciando um contraste no tipo de abordagem cinematográfica. O filme passou por mudanças na direção durante as filmagens, passando pelas mãos de Armando de Miranda, Ody Fraga e José Mojica Marins; impactando diretamente em uma perceptível fragmentação. A construção espacial tende à descontinuidade, com ambientes que se justapõem mais do que se articulam.
    A análise dialoga com a noção de cinema como prática cartográfica formulada por Giuliana Bruno em “Atlas of Emotion” (2018), onde a autora associa etimologicamente “emoção” à ideia de movimento, deslocamento e transferência entre lugares. A partir dessa perspectiva, os filmes são compreendidos não apenas como narrativas, mas como dispositivos que mapeiam afetos e, principalmente, tensões espaciais, transformando as cidades em superfícies sensíveis percorridas por corpos e desejos de diferentes personagens.
    Além disso, a comunicação conversa com as pesquisas de Rosane Kaminski sobre “Lance Maior” e a “Curitiba melancólica” do fim dos anos 1960, propondo compreender a cidade como um atlas emocional, constituído a partir da mobilidade e da experiência sensível. Essa abordagem permite deslocar o olhar da cidade como cenário fixo para uma concepção dinâmica, criada pela mise en scène dos filmes, em que o espaço urbano é continuamente reconfigurado pelas trajetórias individuais e coletivas através de enquadramentos, movimentos de câmera, duração dos planos e montagem.
    A investigação comparativa dos dois filmes evidencia tanto aproximações quanto desvios de sua produção como de suas formas de registrar o cenário no Paraná. Por um lado, ambos participam de um mesmo contexto histórico e produzem pela primeira vez imagens paranaenses no cinema comercial, com grande destaque às paisagens reais; por outro, diferem na forma como foram produzidas e como representam o espaço geográfico e arquitetônico. Essas diferenças revelam não apenas distintas estratégias estéticas, mas também modos diversos de imaginar e representar o Paraná.

Bibliografia

    BRUNO, Giuliana. Atlas of Emotion: Journeys in Art, Architecture and Film. Nova Iorque: Verso, 2018.
    KAMINSKI, Rosane. A formação de um cineasta: Sylvio Back na cena cultural de Curitiba nos anos 1960. Curitiba: Editora UFPR, 2018.
    KAMINSKI, Rosane. O Brasil urbano no cinema dos anos 1060; Curitiba melancólica em Lance Maior, de Sylvio Back (1968). Revistas Estudos Históricos, vol. 25, nº49, p. 88-111, 2012.
    PEREIRA, Rodrigo. Mojica Goes West. Disponível em https://revistazingu.blogspot.com/2008/10/djmm-mojicagoeswest.html. Acesso em 20 de abril de 2026.
    PRYSTHON, Angela. Figuras na Paisagem: Cinema Narrativo e Topofilia. A Cuarta Parede. n. 23, p. 1-8, 2014. Disponível em http://www.acuartaparede.com/wp-content/uploads/2014/09/Artigo-Figuras-na-Paisagem-portugu%C3%A9s.pdf. Acesso em 08 de março de 2026.