Ficha do Proponente
Proponente
- Danielle Bertolini da Silva (UFMT)
Minicurrículo
- Mestra em Estudos de Cultura Contemporânea (UFMT/2024) e graduada em Comunicação Social (PUC/SP). Documentarista, roteirista e diretora, com foco em temas de cinema, feminismo e direitos humanos em Mato Grosso. É diretora e curadora do festival Tudo Sobre Mulheres. Em sua filmografia, destacam-se “Águas Encantadas do Pantanal” (2000) e “Filhos da Lua na Terra do Sol” (2016). Atualmente finaliza o longa-metragem “Somos Tereza”, fruto de sua pesquisa sobre lideranças quilombolas matogrossenses.
Coautores
- Andrea Ferraz Fernandez (UFMT)
MÁRIO CEZAR SILVA LEITE (UFMT)
Ficha do Trabalho
Título
- Tereza de Benguela no Imaginário de Vila Bela: Fabulação Crítica e Cinema Amefricano
Resumo
- Esta comunicação apresenta resultados da pesquisa de mestrado sobre as representações de Tereza de Benguela no imaginário de mulheres de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT). Utilizando a Fabulação Crítica de Saidiya Hartman e a teoria do Imaginário Simbólico de Gilbert Durand, investigamos como a memória da líder quilombola influencia identidades contemporâneas e fundamenta o desenvolvimento do filme “Somos Tereza”, tensionando as fronteiras entre documento, fabulação e resistência.
Resumo expandido
- Esta proposta apresenta os resultados da pesquisa de mestrado defendida em dezembro de 2024, em Estudos de Cultura Contemporânea, pela Universidade Federal de Mato Grosso, que investiga a presença e a representação de Tereza de Benguela — conhecida como a rainha do Quilombo do Quariterê — no imaginário das mulheres negras contemporâneas de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT). O estudo não se limita à historiografia oficial, mas mergulha nas subjetividades e narrativas orais, explorando como a figura de Tereza habita o cotidiano, os sonhos e as identidades dessas mulheres, influenciando suas percepções de si e de sua comunidade.
A pesquisa fundamenta-se na metodologia da Fabulação Crítica, desenvolvida por Saidiya Hartman (2019), que permite operar nas lacunas do arquivo histórico para dar voz e corpo a trajetórias silenciadas pela colonialidade. Aliada a essa perspectiva, utilizamos a teoria do Imaginário Simbólico de Gilbert Durand (1993) e o conceito de Amefricanidade de Lelia Gonzalez (1988), buscando compreender as estruturas antropológicas que sustentam a resistência cultural quilombola em Mato Grosso.
A coleta de dados envolveu observação participante e entrevistas em profundidade, revelando uma multiplicidade de vozes que alternam entre o silêncio e a emoção intensificada pela fantasia e pelo sonho. Os resultados indicam que Tereza de Benguela não é apenas uma figura do passado, mas uma presença transformadora que oferece modelos de empoderamento e liderança, desafiando os padrões eurocêntricos e a invisibilidade imposta pela branquitude.
Como desdobramento, a pesquisa se expande no projeto cinematográfico Somos Tereza, longa-metragem em desenvolvimento que se constitui como prática de pensamento. De acordo com a sinopse, o filme ergue pontes entre passado e presente: a memória de Tereza de Benguela ressurge nas vozes e corpos das mulheres de Vila Bela. Entre ficção, documentário e performance, constrói-se como um canto de liberdade, revelando o quilombo como território vivo de resistência e reinvenção, onde persistem e se atualizam legados das resistências negras e indígenas.
O filme busca captar a essência das experiências vividas, tensionando a relação entre o cinema documental e a fabulação ficcional como ferramentas de poder e ressignificação histórica. Ao discutir a forma como o cinema pode exercer esse poder, a pesquisa propõe um “giro decolonial” na história amefricana, valorizando as histórias quilombolas frequentemente marginalizadas.
Concluímos que a memória de Tereza de Benguela atua como um elo vital entre o passado e o presente, fortalecendo a resistência cultural e a construção de identidades locais. Esta comunicação pretende, portanto, debater como as práticas de fabulação no audiovisual e na pesquisa acadêmica podem subverter narrativas hegemônicas, promovendo uma compreensão multifacetada da liderança negra e sua importância simbólica na contemporaneidade brasileira. Assim, a memória de Tereza de Benguela emerge como elo entre temporalidades, ativando processos de pertencimento, resistência e criação.
Bibliografia
- DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
GOMES, Flávio dos Santos. Enciclopédia Negra. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
GONZALEZ, Lelia. A categoria político-cultural da amefricanidade. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, n. 92/93, p. 69-82, jan./jun. 1988.
HARTMAN, Saidiya. Vidas rebeldes, belos experimentos: histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais. São Paulo: Fósforo, 2022.
RODRIGUES, Bruno. A luz de Tereza de Benguela não apagará: o dito e o não-dito pelas fontes históricas. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais, v. 19, n. 1, p. 495–510, jan./jun. 2022.