Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Danielle Bertolini da Silva (UFMT)

Minicurrículo

    Mestra em Estudos de Cultura Contemporânea (UFMT/2024) e graduada em Comunicação Social (PUC/SP). Documentarista, roteirista e diretora, com foco em temas de cinema, feminismo e direitos humanos em Mato Grosso. É diretora e curadora do festival Tudo Sobre Mulheres. Em sua filmografia, destacam-se “Águas Encantadas do Pantanal” (2000) e “Filhos da Lua na Terra do Sol” (2016). Atualmente finaliza o longa-metragem “Somos Tereza”, fruto de sua pesquisa sobre lideranças quilombolas matogrossenses.

Coautores

    Andrea Ferraz Fernandez (UFMT)
    MÁRIO CEZAR SILVA LEITE (UFMT)

Ficha do Trabalho

Título

    Tereza de Benguela no Imaginário de Vila Bela: Fabulação Crítica e Cinema Amefricano

Resumo

    Esta comunicação apresenta resultados da pesquisa de mestrado sobre as representações de Tereza de Benguela no imaginário de mulheres de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT). Utilizando a Fabulação Crítica de Saidiya Hartman e a teoria do Imaginário Simbólico de Gilbert Durand, investigamos como a memória da líder quilombola influencia identidades contemporâneas e fundamenta o desenvolvimento do filme “Somos Tereza”, tensionando as fronteiras entre documento, fabulação e resistência.

Resumo expandido

    Esta proposta apresenta os resultados da pesquisa de mestrado defendida em dezembro de 2024, em Estudos de Cultura Contemporânea, pela Universidade Federal de Mato Grosso, que investiga a presença e a representação de Tereza de Benguela — conhecida como a rainha do Quilombo do Quariterê — no imaginário das mulheres negras contemporâneas de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT). O estudo não se limita à historiografia oficial, mas mergulha nas subjetividades e narrativas orais, explorando como a figura de Tereza habita o cotidiano, os sonhos e as identidades dessas mulheres, influenciando suas percepções de si e de sua comunidade.

    A pesquisa fundamenta-se na metodologia da Fabulação Crítica, desenvolvida por Saidiya Hartman (2019), que permite operar nas lacunas do arquivo histórico para dar voz e corpo a trajetórias silenciadas pela colonialidade. Aliada a essa perspectiva, utilizamos a teoria do Imaginário Simbólico de Gilbert Durand (1993) e o conceito de Amefricanidade de Lelia Gonzalez (1988), buscando compreender as estruturas antropológicas que sustentam a resistência cultural quilombola em Mato Grosso.

    A coleta de dados envolveu observação participante e entrevistas em profundidade, revelando uma multiplicidade de vozes que alternam entre o silêncio e a emoção intensificada pela fantasia e pelo sonho. Os resultados indicam que Tereza de Benguela não é apenas uma figura do passado, mas uma presença transformadora que oferece modelos de empoderamento e liderança, desafiando os padrões eurocêntricos e a invisibilidade imposta pela branquitude.

    Como desdobramento, a pesquisa se expande no projeto cinematográfico Somos Tereza, longa-metragem em desenvolvimento que se constitui como prática de pensamento. De acordo com a sinopse, o filme ergue pontes entre passado e presente: a memória de Tereza de Benguela ressurge nas vozes e corpos das mulheres de Vila Bela. Entre ficção, documentário e performance, constrói-se como um canto de liberdade, revelando o quilombo como território vivo de resistência e reinvenção, onde persistem e se atualizam legados das resistências negras e indígenas.

    O filme busca captar a essência das experiências vividas, tensionando a relação entre o cinema documental e a fabulação ficcional como ferramentas de poder e ressignificação histórica. Ao discutir a forma como o cinema pode exercer esse poder, a pesquisa propõe um “giro decolonial” na história amefricana, valorizando as histórias quilombolas frequentemente marginalizadas.

    Concluímos que a memória de Tereza de Benguela atua como um elo vital entre o passado e o presente, fortalecendo a resistência cultural e a construção de identidades locais. Esta comunicação pretende, portanto, debater como as práticas de fabulação no audiovisual e na pesquisa acadêmica podem subverter narrativas hegemônicas, promovendo uma compreensão multifacetada da liderança negra e sua importância simbólica na contemporaneidade brasileira. Assim, a memória de Tereza de Benguela emerge como elo entre temporalidades, ativando processos de pertencimento, resistência e criação.

Bibliografia

    DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
    GOMES, Flávio dos Santos. Enciclopédia Negra. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
    GONZALEZ, Lelia. A categoria político-cultural da amefricanidade. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, n. 92/93, p. 69-82, jan./jun. 1988.
    HARTMAN, Saidiya. Vidas rebeldes, belos experimentos: histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais. São Paulo: Fósforo, 2022.
    RODRIGUES, Bruno. A luz de Tereza de Benguela não apagará: o dito e o não-dito pelas fontes históricas. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais, v. 19, n. 1, p. 495–510, jan./jun. 2022.