Ficha do Proponente
Proponente
- Nívea Faria de Souza (UNESA)
Minicurrículo
- Doutora e Mestre em Arte e Cultura Contemporânea pela UERJ, com doutorado sanduíche pela Universidade do Algarve (PDSE/Capes). Bacharel em Artes Cênicas (EBA/UFRJ). Atua como figurinista, cenógrafa e diretora de arte em audiovisual e teatro. Professora em cursos de Cinema e Artes Cênicas (Celso Lisboa, UNESA e UNIFACHA), onde coordena a Agência Experimental de Cinema. Integra grupos de pesquisa e orienta bolsistas CNPq (PIBIC/UNESA). Contemplada por programas de pesquisa da UNESA.
Ficha do Trabalho
Título
- Antes de Filmar: Processos de Pesquisa e Criação de Figurino na Formação em Cinema
Seminário
- Estética e Teoria da Direção de Arte Audiovisual
Resumo
- O trabalho discute a orientação de projetos de figurino de época na graduação em cinema, com foco na pedagogia da pré-produção como espaço formativo. Propõe o uso de fontes primárias brasileiras para deslocar a pesquisa de referenciais eurocentrados e evitar estereótipos de personagens populares. Articula figurino, fotografia, direção de arte, direção e produção como linguagens integradas desde a pesquisa, em projetos realizados sob tempo e custo restritos.
Resumo expandido
- Orientar projetos audiovisuais de ficção histórica em cursos de graduação em cinema implica enfrentar uma tensão que raramente é nomeada com precisão: a distância entre o desejo de fazer e a necessidade de saber. Estudantes universitários chegam às disciplinas práticas com urgência, querem filmar, querem ver resultados, e tendem a tratar o período de preparação como um obstáculo entre a ideia e a câmera. O problema se agrava quando o projeto exige reconstituição histórica. Nesse caso, a ansiedade diante do tempo curto, um curta-metragem por semestre, realizado coletivamente com orçamento restrito, frequentemente empurra o estudante para saídas visuais de superfície: repertórios disponíveis no Pinterest, referências de segunda mão que reproduzem os mesmos estereótipos que a ficção histórica brasileira já consagrou.
Este trabalho relata e analisa a experiência de orientação de projetos de figurino de época em disciplinas práticas de graduação em cinema, a partir de uma metodologia pedagógica que trata o período de pré-produção como espaço formativo insubstituível. O argumento central é que o amadurecimento criativo da proposta, o refinamento do conceito e a construção de um repertório visual consistente não antecedem o filme: eles constituem o filme. Decupagens, mapas visuais, colagens de referência, cadernos de pesquisa, todos esses instrumentos são tratados não como formalidades de entrega, mas como dispositivos de pensamento que revelam ao estudante o que ele ainda não sabe, e que forçam, com isso, um retorno às fontes.
A questão das fontes é o núcleo da experiência pedagógica aqui descrita. A historiografia da moda e do vestuário disponível ao estudante brasileiro é notoriamente eurocentrada e restrita à indumentária das elites, o que produz, quase automaticamente, projetos que estereotipam personagens populares, negros, trabalhadores, mulheres pobres: precisamente os corpos que a ficção histórica mais frequentemente distorce ou invisibiliza. A resposta metodológica não é uma lista de leituras obrigatórias, mas uma pedagogia da desconfiança. Ensinar o estudante a interrogar o que as fontes disponíveis mostram, o que omitem, e a buscar fontes primárias que deslocam esse eixo: revistas ilustradas brasileiras do período de referência, fotografias de época, registros de produção de vestuário popular e o acervo audiovisual das novelas históricas exibidas pelo Canal Viva, tratadas não como verdade histórica, mas como documento de um repertório plástico amplamente circulado que pode ser criticamente reelaborado.
Outro eixo da experiência é a interdisciplinaridade entre as áreas do curso. Em um curso de cinema, o figurino raramente é visto como linguagem, sendo percebido como detalhe logístico ou responsabilidade de alguém. A orientação pedagógica aqui descrita insiste em que uma escolha de figurino é inseparável da iluminação que vai recebê-lo, do espaço cenográfico que o enquadrará, da direção de atores que dará corpo à roupa. Isso implica articular, dentro do mesmo projeto, as perspectivas da direção de fotografia, da direção de arte, do figurino, da direção e da produção, não como compartimentos técnicos, mas como linguagens que precisam dialogar desde a fase de pesquisa. O desafio pedagógico é ensinar essa integração a estudantes que ainda estão aprendendo cada área separadamente, sob pressão de tempo e com recursos escassos.
O resultado mais significativo dessa experiência não é facilmente mensurável em termos da qualidade dos projetos entregues, embora isso também importe. É a transformação da postura do estudante diante do processo: aprender que o tempo de pesquisa não rouba tempo do filme. Ele é o tempo em que o filme começa a existir.
Bibliografia
- BUTRUCE, Débora; BOUILLET, Rodrigo (orgs.). A direção de arte no cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Caixa Cultural, 2017.
ELSAESSER, Thomas; HAGENER, Malte. Teoria do cinema: uma introdução através dos sentidos. Campinas: Papirus, 2018.
FERREIRA, Benedito (org.) et al. Dimensões da direção de arte na experiência audiovisual. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2023.
LUCA, Tania R. de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla B. (org.). Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2005.
SOUZA, Gilda de Mello e. O espírito das roupas: a moda no século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.