Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Vinicius Augusto Carvalho (ESPM)

Minicurrículo

    Doutor em Cinema e Audiovisual (PPGCine UFF) com mestrado em Economia Criativa (ESPM) e especialização em TV Digital, Radiodifusão e Novas Mídias de Comunicação Eletrônica (UFF). Jornalista de formação (UFSC), atua como professor na ESPM-Rio nos cursos de Cinema e Audiovisual, Design e Jornalismo. Após 13 anos de TV Globo, editando e finalizando audiovisuais jornalísticos e de entretenimento, hoje é editor e montador freelancer em projetos audiovisuais independentes.

Ficha do Trabalho

Título

    Fusão: o agente nada secreto nos longas-metragens de Kleber Mendonça Filho

Seminário

    Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas

Resumo

    Investiga-se a fusão como recurso enunciativo na filmografia de Kleber Mendonça Filho, analisando o papel desse efeito de transição em O Som ao Redor (2012), Aquarius (2016), Bacurau (2019), Retratos Fantasmas (2023) e O Agente Secreto (2025). Entendida para além do recurso técnico de suavizar a junção de planos, como articuladora espaço-temporal e marca estética e estrutural da narrativa, a fusão é estudada como estratégia de comunicação na construção de linguagem, atmosfera e ritmo.

Resumo expandido

    Esta comunicação analisa a fusão como elemento estruturante da enunciação cinematográfica na filmografia de Kleber Mendonça Filho, investigando de que modo esse recurso de transição participa ativamente da construção do tempo, do espaço e do sentido narrativo em O Som ao Redor (2012), Aquarius (2016), Bacurau (2019), Retratos Fantasmas (2023) e O Agente Secreto (2025). Muito além de efeito de suavização entre planos, a fusão é compreendida como um dispositivo expressivo capaz de criar hiatos narrativos, articular estéticas, espaços e camadas temporais e revelar a posição autoral do cineasta.

    A partir de uma perspectiva histórica que remonta ao uso inaugural da fusão por Georges Méliès em Cinderella (1899), o trabalho considera esse recurso como um dos mecanismos fundamentais por meio dos quais o cinema aprendeu a representar a passagem do tempo como experiência sensível e inteligível. Inserida no campo da montagem, a fusão opera como marca visível de elipse e como sinalização de descontinuidades significativas, diferenciando-se do corte seco ao propor relações transitivas entre os segmentos que conecta. Nesse sentido, dialoga-se com a noção de “junções super significantes”, formulada por Christian Metz, ao destacar trechos omitidos como relevantes para a progressão do enredo, mesmo na ausência de representação direta.

    A estratégia de análise das transições trabalha com três parâmetros propostos por Cutting (2014): tempo, espaço e personagens. Mudanças em uma ou mais destas características ao aplicar uma fusão entre segmentos criam uma movimentação para uma nova cena e faz emergir fronteiras que podem ser identificadas: [T] para uma mudança temporal, [E] para alterações no espaço, de local, e [P] para uma mudança que envolva personagens principais.

    A análise do corpus revela que a fusão ocupa lugar de destaque na organização narrativa dos filmes de Kleber Mendonça Filho, sendo majoritariamente empregada para reforçar deslocamentos temporais, ainda que frequentemente associe mudanças espaciais e modulações de ponto de vista. Em O Som ao Redor (2012), as fusões contribuem para a dilatação do tempo cotidiano e para a construção de uma sensação de continuidade fragmentada, em consonância com a apresentação progressiva dos personagens e de suas rotinas. Já em Aquarius (2016), o recurso assume papel decisivo na articulação entre presente e memória, consolidando a relação entre o espaço físico do edifício e as temporalidades subjetivas da protagonista. Em Bacurau (2019) destaca-se por apresentar fusões que articulam simultaneamente tempo, espaço e personagem, conferindo ao recurso forte carga simbólica. Nessas junções, a fusão não apenas transporta o espectador entre coordenadas narrativas distintas, mas produz imagens híbridas que instauram estados de suspensão no enredo. Por sua vez, Retratos Fantasmas (2023), apesar do caráter documental da obra, o uso recorrente da fusão reforça a dimensão da memória e dos espaços cinematográficos revisitados. Em O Agente Secreto (2025) o cineasta reduz significativamente o uso da fusão como pontuação isolada na comparação com os outros quatro títulos, o que sugere um redirecionamento estrutural e estético. Ainda assim, a fusão permanece presente em momentos específicos de flashback e avanços temporais, integrada a sequências de transição do tipo montage sequence, nas quais funciona como parte de uma construção mais ampla, associada à música, à repetição e à compressão do tempo diegético.

    Percebe-se que a fusão, na obra do diretor Kleber Mendonça Filho, constitui uma escolha estética consciente e recorrente, responsável por articular uma montagem híbrida que combina procedimentos clássicos e modernos. Seu uso reiterado evidencia um cinema atento à materialidade do tempo, à memória e à experiência sensorial do espectador, reafirmando a fusão como um recurso fundamental na construção do estilo e da expressividade narrativa do cineasta.

Bibliografia

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