Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Catarina de Almeida Apolonio (UFPE)

Minicurrículo

    Catarina Apolônio é mestre em Informação e Comunicação pela Facultad de Información y Comunicación de la Universidad de la República de Uruguay (FIC Udelar). É especialista em som para cinema e TV pelo curso regular da Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV, Cuba) e graduada em Comunicação Social, com habilitação em Rádio e TV, pela UFPE. Atua como sound designer freelancer e é servidora da UFPE, onde trabalha na Rádio Paulo Freire.

Ficha do Trabalho

Título

    A questão de gênero no discurso sonoro do filme Manas

Resumo

    Este estudo analisa o discurso sonoro do filme Manas (2024). Com base no ensaio de Forcinito (2018) sobre som cinematográfico e gênero, bem como na análise crítica do som em ambientes multimodais proposta por autores como Griffith e Machin (2014), investigamos como o feminino emerge no uso de vozes, ambiências, efeitos e música em uma obra de ficção que aborda uma questão social relevante para as mulheres.

Resumo expandido

    Esta comunicação propõe uma análise do discurso sonoro do filme Manas (Brennand, 2024). Com base em uma perspectiva feminista e na análise crítica do som em ambiente multimodal, nosso objetivo é identificar as questões de gênero que emergem da dimensão acústica desta obra de ficção.

    A exploração sexual de meninas em regiões onde o poder público é ausente constitui um problema frequentemente invisibilizado em nossa sociedade. As questões que orientam este estudo dizem respeito a como esse fenômeno é retratado e narrado por meio de vozes femininas; e a como o desenho sonoro enfatiza ou tensiona estereótipos e constrói ou subverte relações de poder em Manas. A análise desses elementos pode contribuir para a compreensão de como, também na vida social, há mulheres que falam e outras que são silenciadas.

    A metodologia da pesquisa baseia-se no ensaio de Forcinito (2018), que propõe uma leitura feminista de obras cinematográficas e busca, por meio das vozes e dos olhares, estabelecer contrapontos à expressão heterossexista dos padrões masculinos naturalizados ao longo da vida social. Para favorecer a compreensão do estudo, recorremos ainda às contribuições de Schafer (2001), especialmente no que se refere à descrição dos aspectos psicoacústicos do som. Assim, para analisar a banda sonora de Manas, utilizamos as sensações associadas às características acústicas do som, a saber: intensidade, tom (ou melodia), duração (ou ritmo) e timbre.

    O filme acompanha as transformações de Marciele, uma adolescente de 13 anos que vive com a família às margens do rio Tajapuru, na Ilha do Marajó, Norte do Brasil. O desenho de som naturalista da obra evidencia tanto a força da natureza quanto a intimidade e a cumplicidade nas relações entre meninas que se reconhecem como ‘manas’.

    Em Manas a questão de gênero aparece nos sons delicados e comedidos da personagem principal, Marciele. No silêncio da mãe, Daniele. Ambas violentadas e oprimidas pelos sons fortes e graves produzidos por Marcílio, o patriarca. A opressão também aparece nos ruídos intensos, contínuos, ásperos, com faixa tonal limitada dos barcos e balsas que circulam pela região. Dos sons graves e contínuos dos geradores. Na música amplificada que se ouve no bar e na igreja. Na voz estridente e no discurso verbal da pastora. Segundo Schafer (2001), ruído é poder. Apesar dos sons da natureza estarem presentes no filme, demonstrando força e onipresença, eles são emascarados nos momentos listados acima. Os ruídos das máquinas também sinalizam que a Ilha do Marajó não é um lugar tão isolado.

    A diretora Mariana Brennand rompe com a ideia de que o masculino representa poder e o feminino submissão ao levar a personagem principal à ação. À medida que o rio vai secando, a lama do rio vai, aos poucos, ficando evidente e a paisagem sonora se modifica. Marciele também muda diante dos abusos reiterados do pai e da omissão dos que estão no seu entorno. A 1h33m48s, a maré volta a encher. Ao perceber que Marcílio havia levado sua irmã mais nova para caçar, Marciele vai ao encontro do agressor. Ela levanta a voz. Seus passos são ruidosos. Seu nado é vigoroso. Sua respiração ofegante ocupa o primeiro plano sonoro ao mesmo tempo que a aspereza das cigarras e do som da mata nos submergem e quase encobrem as vozes de Marcílio e Carol. O disparo efetuado por Marciele é tenso, grave, tem timbre opaco e turvo e interrompe um ciclo geracional de abusos. Marciele e Carol ocultam o corpo de Marcílio na lama do rio. A natureza, ambivalente, desassossega e acalma, revela e oculta; é, sobretudo, testemunha das ‘manas’. Em entrevista a Couto (2025), Brennand argumenta que os troncos retorcidos que vemos ao final de Manas é uma maneira de representar visualmente o interior da protagonista. O final aberto, no qual podemos ver Marciele e Carol chegando juntas em casa e encarando a mãe, nos convida a também agir.

Bibliografia

    CARREIRO, R., OPOLSKI, D. y MEIRELLES, R. (2023). A imersão sonora no cinema. Editora Estronho.

    COUTO, A. [Metrópolis]. (2025, maio 1º). Metrópolis Entrevista: Marianna Brennand | 01/05/25. . Youtube. https://youtu.be/tWIzon_oSks?si=5GwXogOrcOx8ihlE

    FORCINITO, A. (2018). Óyeme con los ojos. Cine, mujeres, visiones y voces. Fondo Editorial Casa de las Américas.

    SCHAFER, R. Murray. (2001). A afinação do mundo. Editora UNESP.

    VAN LEEUWEN, T. (1999). Speech, Music, Sound. Palgrave.