Ficha do Proponente
Proponente
- Letícia Benevides Araújo Almeida (UFG)
Minicurrículo
- Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) pela Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da Universidade Federal de Goiás. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Sou mulher negra, nascida e criada em Goiânia, sou publicitária, pesquisadora e escrevo a partir dos meus afetos, intimidades, fragilidades e potências.
Ficha do Trabalho
Título
- Facão, fel e ancestralidade: o cinema contracolonial, kilombola e feminino de Marta Kalunga
Resumo
- Neste texto refletimos como o cinema de Marta Kalunga, cineasta negra kilombola Kalunga, atua em uma feitura cinematográfica contracolonial (Bispo, 2023). O seu curta-metragem Meada Cor Kalunga (2023) é ponto de partida para pensar seu fazer cinematográfico como um antídoto ao colonialismo. Percebemos como Marta Kalunga contracolonializa ao fazer um cinema kilombola, feminino, negro e coletivo.
Resumo expandido
- Esta escrita parte dos caminhos iniciais da minha pesquisa de doutorado em que busco entender como se dá o processo de fazer cinema de modo coletivo, kilombola, negro, feminino, o que o torna contracolonial (Bispo, 2023). Vou atrás das imagens do cinema de Marta Kalunga, cineasta negra kilombola e mestra da cultura popular Kalunga. Penso nas imagens do primeiro filme kilombola Kalunga que assisti, o Meada Cor Kalunga (2023) dirigido por Marta Kalunga, Alcileia Torres e Analu Reis de Sá a fim de refletir como esta cinematografia atua em perspectivas outras.
Neste caminho, sigo Nego Bispo (2023) pensador kilombola que cunha o termo contracolonial para negar a colonização da população negra e índigena. “O contracolonialismo é simples: é você querer me colonizar e eu não aceitar que você me colonize, é eu me defender.” (Bispo, 2023, p.36). O contracolonial coloca em palavra o que somos contra, reivindicamos o nosso direito de existir, de ser, de estar, de fazer, de registrar, de pensar, de viver. “Trouxemos a palavra contracolonialismo para enfraquecer o colonialismo. Já que o referencial de um extremo é o outro, tomamos o próprio colonialismo. Criamos um antídoto: estamos tirando o veneno do colonialismo para transformá-lo em antídoto contra ele próprio.” (p.37).
Penso como este antídoto do colonialismo se aproxima do sabor de fel que minha mãe tanto fala dos xaropes que minha avó preparava para ela para suas irmãs e irmãos. Um gosto que amarga “até a alma” mas que é poderoso e preserva as nossas histórias. Contracolonizalizo ao escrever este texto a partir do filme Meada Cor Kalunga (2023), ao ouvir as mulheres que vieram antes de mim, ao sentir o gosto de fel, ao olhar em conjunto para as mulheres Kalunga.
Sou guiada por Bispo (2023) e utilizo do antídoto contracolonial, pego este veneno que tentou apagar a minha família e o transformo nesta escrita ao olhar para este filme kilombola Kalunga, negro e feminino. O curta guiado por Marta Kalunga acompanha as vivências da cineasta e de sua cumadi Dirani Kalunga na feitura das tinturas para as meadas. O filme começa com as duas conversando lado a lado, como se fossemos convidadas e convidados a entrar naquela roda, compartilhar histórias e vivenciar suas experiências. Dirani e Marta abrem o cerrado punhando um facão em busca das cascas de jenipapo e sucupira para tingir as suas meadas.
Ao longo do filme, nunca vemos Dirani ou Marta sozinhas, elas estão juntas, em coletivo, compartilhando os saberes ancestrais aprendidos com suas mães, irmãs, tias, avós. Ao protagonizarem o curta, contando suas próprias histórias, suas lidas com a roça, mostrando suas danças com seu próprio olhar, essas mulheres kilombolas retiram a fronteira da visualidade (Mirzoeff, 2016) que as isolam. Ao contrário, elas contracolonializam suas imagens, suas vivências, suas meadas, suas manualidades.
Diferente do que rotineiramente vemos em filmes documentais que apresentam “a outra/ o outro” (Kilomba, 2019), sozinhos, isolados, dando depoimentos a partir de um enquadramento frio e distante que as separam de suas subjetividades e existências. Meada Cor Kalunga (2023) apresenta Dirani em conjunto com Marta, compartilhando seus conhecimentos aos olhos, ouvidos, pés e mãos atentas de Marta e de todas que as assistem. Elas estão no quintal e ao olharmos as imagens nos sentimos dentro deste espaço, tornando-o um quintal coletivo, ancestral, onde a meada é tingida por mãos Kalunga. Para Bispo (2023) o quintal é a parte essencial da casa no kilombo porque “é onde as crianças aprendem a fazer tudo. É também onde guardamos espaço para construir a casa de quem vai nascer, as casas das próximas gerações. (Bispo, 2023, p.37). No filme da cineasta kilombola, o quintal é também o lugar onde se faz cinema. Ao olharmos esse filme e friccionarmos com a perspectiva contracolonial, nos aproximamos de Marta, Dirani, Analu, Alciléia e percebemos outras feituras cinematográfica expondo um cinema kilombola, feminino, negro e coletivo.
Bibliografia
- BISPO, Antônio dos Santos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/ PISEAGRAMA, 2023.
KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução: Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Editora Cobogó, 2019.
MEADA COR KALUNGA. Direção: Marta Kalunga, Alcileia Torres e Ana Luíza Reis. Roteiro: Marta Kalunga e Dirani Kalunga. Direção de Fotografia: Ana Luíza Reis e Alcileia Torres. Captação de Som: Lak Shamra, Alcileia Torres e Jhessyca Fernandes. Assistente de Fotografia: Lak Shamra. Produção Geral: Marta Kalunga e Sol Gil. Montagem: Ana Luíza Reis e Lak Shamra. Desenho de Som: Lak Shamra. Still / Making Of: Alcileia Torres, Sol Gil e Ana Luíza Reis. Vão das Almas, Goiás. Brasil, 2023 (23’17”).
MIRZOEFF, Nicholas. O direito de olhar. In: Revista Educação, Temática, Digital. Vol. 18, n.4. Campinas : São Paulo, 2016.