Ficha do Proponente
Proponente
- CLOTILDE BORGES GUIMARÃRS (FAAP)
Minicurrículo
- Pesquisadora e artista de Arte Sonora e Audiovisual. Trabalha desde 1984 com gravação de som em longas-metragens, documentários e séries para streaming. Possui graduação (1983), Mestrado (2008) e Doutorado (2020) pela ECA/USP. Desde 2010, é professora de som do Curso de Cinema do Centro Universitário FAAP, São Paulo -SP. Entrou recentemente para o Programa de Pós Doutorado do MAC/USP com a proposta de pesquisar práticas sonoras artísticas experimentais no documentário brasileiro contemporâneo.
Ficha do Trabalho
Título
- Elongação sônica no documentário Bruscky: um autorretrato (Eryk Rocha, 2025)
Seminário
- Histórias e tecnologias do som no audiovisual
Resumo
- Elongação sônica é um termo criado pela pesquisadora britânica Holly Rogers para designar um momento do filme documentário em que gravações sonoras dos ambientes das locações são usadas de forma musical, deslocando-se para o campo da composição e da arte sonora. A sincronicidade com a imagem é reconfigurada, o que provoca uma perturbação na relação da imagem com o som. Identificamos esta prática no documentário Paulo Bruscky: um autorretrato (Eryk Rocha, 2025), e é sobre isso nossa proposta
Resumo expandido
- Elongação sônica é um termo criado pela pesquisadora britânica Holly Rogers para descrever uma situação em que a sincronia entre som e imagem no documentário é reconfigurada, quando os sons ambientais das locações se deslocam para o campo da composição musical, o que provoca uma relação mais folgada com a estética documental mais tradicional. Este termo é discutido no artigo de Rogers de 2020, Sonic Elongation: Creative Audition in Documentary Film, e será a principal base teórica utilizada para a análise do som do documentário dirigido por Eryk Rocha, Bruscky: um autorretrato (2025).Rogers analisa os documentários mais experimentais Leviatã (Lucien Castaing-Taylor e Véréna Paravel, 2012), Manufactured Landscapes (Jennifer Baichwalm, 2006) e All Tomorrow’s Parties (Jonathan Caouette, 2009), nos quais o tratamento dado aos sons ambientais capturados em locação sofre um pequeno deslocamento das suas características de autenticidade através de uma interferência artística nestes sons que, influenciados pela Música Concreta, ela chama de musicalização. A consequência disso é que ocorre uma perturbação da relação do som com a imagem, que faz com que o público preste mais atenção ao som, induzindo a uma atitude de escuta mais atenta e criativa que se ancora nas imagens documentais, num processo que Rogers denomina visualização causal, uma inversão da escuta causal.
Ao assistir o documentário Bruscky: um autorretrato (Eryk Rocha, 2025) no Festival É Tudo Verdade, o desenho de som de Isadora Maria Torres e Léo Bortolin me chamou a atenção. Aos 3:54 minutos, Paulo Bruscky, artista pernambucano, sai de seu atelier em Recife e anda pelas ruas próximas. Enquanto ele caminha, ouvimos sons de cidade em intensidade muito alta e vamos percebendo aos poucos que aqueles sons parecem pertencer àquelas imagens, e para os mais desatentos até poderiam ser, mas ao prestar mais atenção nas imagens que mostram Paulo em planos mais fechados nesta caminhada, dá para ver que são ruas tranquilas, não correspondem ao som de um tráfico intenso, anúncios de ambulantes em caixa de som e muitas pessoas falando. Isso acontece durante uns 10 minutos, com alguns intervalos na caminhada para entrar em algumas lojas onde conversa com os vendedores, onde este som, que chamaremos de “cacofonia de Recife”, se suaviza, para assim que ele retoma sua caminhada, retornar. Ao assistir este e outros trechos, senti uma estranha sensação de um pequeno deslocamento entre o som e a imagem e que tinha que dividir minha atenção entre eles, mas sempre tentando entender melhor o que estava acontecendo com o som.
Fiz uma entrevista com Léo Bortolin, na qual ele declara que trabalhou muito tempo com captação de Som Direto em filmes de curta-metragem, nos quais também fazia a pós-produção de som usando o Protools, e eventualmente compondo músicas. Ele fez Mestrado na Unicamp, orientado pelo prof. Dr. Francisco Elinaldo Teixeira, sobre o som do filme O Som ao Redor (Kleber Mendonça, 2012). Na sua dissertação de Mestrado é possível notar seu interesse pela Arte Sonora e videoarte (BORTOLIN, 2016, p. 12), onde declara que acredita na interdisciplinaridade entre as linguagens artísticas e que o trabalho do editor de som de cinema se aproxima do trabalho do compositor de Música Concreta (BORTOLIN, 2016, p. 89).
Rogers identifica possíveis causas dessa manipulação musical dos sons captados nas locações, com o surgimento dos formatos digitais de gravação e manipulação dos sons e a evolução das plataformas de edição de som, como o Protools, que possibilitaram a não divisão do trabalho de pós-produção de som entre a composição da trilha musical e a edição de sons dos filmes de baixo orçamento, como os documentários, por exemplo. Assim, a mesma pessoa que faria a música poderia manipular os outros sons do filme. Identifiquei a prática da elongação sonora neste documentário brasileiro, que se alinha a uma tendência do documentário experimental em outros países.
Bibliografia
- ALVIM, L.; CHAVES, R. P. Audiovisualidades contemporâneas, intermidialidades e remediações: entrevista com Holly Rogers. Revista Eco-Pós, v.25, n.1, 320-341, 2022. DOI:10.29146/ecops.v25i1.27898.
CAMPESATO, Lilian. Arte sonora: uma metamorfose das musas. Dissertação de Mestrado. ECA/USP, 2007.
CHAVES, R; IAZZETTA, F (eds.). Making it Heard: a history of Brazilian Sound Art. Bloomsberry Publishing, inc.. New York, London, 2019.
CHION, Michel. A Audiovisão: som e imagem no cinema. Edições Texto e Grafia, Lda. Lisboa, 2011.
MIGLIORIN, Cezar (org.). Ensaios no real: o documentário brasileiro hoje. Rio de Janeiro: Azougue, 2010.
ROGERS, Holly. “Sonic Elongation: Creative Audition in Documentary Film.” JCMS: Journal of Cinema and Media Studies, vol. 59 no. 2, 2020, p. 88-113. Project MUSE, https://dx.doi.org/10.1353/cj.2020.0004.
______. (Ed.). Music and Sound in Documentary Film. New York and London: Routledge, 2014.