Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Juliana Ferreira Torres (UNICAMP)

Minicurrículo

    Doutoranda em Multimeios na Unicamp. Roteirista e realizadora audiovisual. Tem licenciatura em Letras e mestrado em Cinema e Artes do Vídeo (PPG-CINEAV) pela Unespar. Pesquisa o cinema de autoria negra e feminina. Organizadora do catálogo Cineastas das Margens – cartografia de diretoras negras no estado do Rio de Janeiro (LPG/SECEC-RJ).

Ficha do Trabalho

Título

    O OLHAR DISRUPTIVO: quando mulheres negras olham para a câmera

Seminário

    (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências

Resumo

    Esta comunicação tem como objetivo analisar sequências de filmes do Cinema brasileiro dirigidos por cineastas negras nos quais as mulheres negras em cena olham para a câmera, rompendo a fábula, como estratégia de provocar desconforto sobre os regimes de visibilidades de seus corpos através da exposição do dispositivo cinematográfico.

Resumo expandido

    Esta comunicação tem como objetivo analisar sequências de filmes do cinema brasileiro dirigidos por cineastas negras nos quais as mulheres negras em cena olham para a câmera rompendo a fábula como estratégia de provocar reflexões sobre os regimes de visualidades sobre seus corpos através da exposição do dispositivo cinematográfico. Quando a personagem Violeta, do filme Café com Canela (2017) dirigido por Ary Rosa e Glenda Nicácio, olha diretamente para câmera/espectador e questiona: Será que eles me veem também? Ela não estaria igualmente se/nos perguntando se é vista, sendo uma mulher negra, no/pelo cinema? As mulheres negras têm sido tem sido retratadas por câmeras desde o surgimento das máquinas fotográficas, que depois deram origem às máquinas de cinema. Seus corpos eram plasmados na película porém suas subjetividades e individualidades anuladas, como vemos nos cartões-postais de Marc Ferrez e Rodolpho Lindemann, entre tantos outros, a partir do século XIX, em que pessoas negras, principalmente mulheres, eram exibidas como “tipos exóticos” facilmente ocupados em seus labores. Mais tarde encontramos as representações de mães-pretas, estereotipadas e superficiais, do cinema hollywoodiano. Porém, ao assumir a direção e devolver o olhar, mulheres negras, desafiam o status quo das narrativas audiovisuais que invisibilizam as mulheres negras. Como bell hooks afirma: “Ao olhar corajosamente, declaramos em desafio: “Eu não só vou olhar. Eu quero que meu olhar mude a realidade”, por isso, nosso interesse está no momento em que as atrizes em cena olham diretamente para a câmera, rompendo com os códigos do cinema narrativo clássico e expondo o dispositivo cinematográfico, como estratégia de denuncia e crítica da representação de mulheres negras pelo cinema. De novo é bell hook que sustenta que o cinema feito por mulheres negras é: “um processo crítico que “desfaz a estrutura da narrativa clássica por meio de uma insistência naquilo que ela reprime”. Aqui serão analisadas sequências dos filmes Café com canela (2017) de Glenda Nicácio e Ary Rosa, República (2020) de Grace Passô e Experimentando o vermelho em dilúvio (2016) de Michelle Mattiuzzi tendo em mente que, o Cinema Negro Feminino brasileiro vem reconfigurando as visualidades, alimentando o imaginário coletivo com outras imagens, como diz Leda Maria Martins “não importa apenas desvelar os malefícios da imagem. É necessário desmontá-la, interromper seu fluxo, incidir sobre ela, propor outras possibilidades de sua produção e registros”.

Bibliografia

    BORGES, Rosane. Mídia, racismos e representações do outro: ligeiras reflexões em torno da imagem da mulher negra. In: BORGES, R. C. S.; BORGES, R. (org.). Mídia e racismo. Petrópolis, 2012.

    DAYAN, Daniel. O código tutor do cinema clássico. In RAMOS, Fernão. Teoria contemporânea do cinema, vol.1. São paulo: Senac, 2004.

    HOOKS, bell. Olhares Negros: raça e representação. São Paulo: Editora Elefante, 2019.

    LAURETIS, Teresa. Tecnologias do gênero. In Tendências e impasses: O feminismo como crítica da cultura. HOLLANDA, Heloisa Buarque de (orgs). Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

    MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó: Encruzilhada, 2021.

    MACHADO. Arlindo. O sujeito na tela, modos de enunciação no cinema e no ciberspaço. São Paulo: Ed. Paulus, 2007.

    MIRZOEFF, Nicholas. O direito a olhar. In: ETD – Educação Temática Digital, v. 18, n. 4,
    nov., p. 745-768. Revista Eletrônica da Faculdade de Educação da UNICAMP. Campinas,2016.