Ficha do Proponente
Proponente
- Júlia Balista Novaes Pereira (UFBA)
Minicurrículo
- Júlia Balista é roteirista, diretora e preservadora audiovisual, mestra em dramaturgia pelo PPGAC-UFBA (2025). Idealizadora do Acervo Digital Roque Araújo, produtora da Mostra Iriri de Cinema Experimental (2024, BA) e voluntária na organização Cinemilite. Com o curta-metragem “Jaqueline” premiado no Festival Internacional de Cinema Analógico de Recife (2025, PB), além da formação em restauração de filmes na FIAF (2026, Itália) e em preservação audiovisual no Talents Rio (2025, RJ).
Ficha do Trabalho
Título
- Acervos caseiros, independentes e marginais: Outras perspectivas do cinema baiano
Seminário
- Arquivo e contra-arquivo: práticas, métodos e análises de imagens
Resumo
- Com a experiência do “Acervo Digital Roque Araújo”, a pesquisa tensiona a noção do “status de arquivo”, de Achille Mbembe, pela coexistência do acervo e seu autor. As imagens de Super 8 preservadas por Roque Araújo, um homem negro de 89 anos, são um contra-arquivo que ativa perspectivas paralelas à “versão oficial” da historiografia do cinema baiano. A pesquisa discute os limites e contextos dos acervos caseiros, independentes e marginais, e possíveis protocolos de preservação audiovisual.
Resumo expandido
- Para além da concepção de acervos como uma reunião de itens, relatos e memórias, estes arquivos são, principalmente, fruto de uma decisão: quais elementos serão guardados e quais serão descartados? Classificados como “inarquiváveis” (MBEMBE, 2002), os bens culturais que não se enquadram no “status de arquivo” não tem outra opção senão sobreviver através de métodos independentes, recorrendo ao apoio comunitário e iniciativas pontuais. Neste contexto, a indiferença pública e privada sobre a existência de acervos marginais, um esforço coletivo e consciente de preservação da memória, pode indicar como os arquivos não-oficiais provocam algum tipo de ameaça à “versão única da história”.
Sob essa perspectiva, o cineasta baiano Roque Araújo reúne, desde os anos 1970, um acervo audiovisual com mais de 10.000 bens culturais em diferentes suportes, entre películas de Super 8, 16mm e 35mm, fotografias, documentos, equipamentos 3D e mais. Aos 89 anos de idade e contemporâneo à grandes ícones do cinema, Roque Araújo entra no set pelo departamento de maquinária e elétrica, trabalhando em obras como “Redenção” (1959), “O Grito da Terra” (1964), “Tenda dos Milagres” (1977) e mais, além de participar de todos os longa-metragens do amigo Glauber Rocha. Foi preciso Roque Araújo existir para que dezenas de estrelas do Cinema Novo brilhassem, mas a versão oficial da história não o valoriza como parte da identidade do cinema brasileiro.
A negligência com o acervo gerido, protegido e armazenado por Roque não é uma ideia abstrata, mas uma ação concreta: é ele quem, aos 89 anos, enfrenta os desafios de gestão do Instituto Roque Araújo de Cinema e Audiovisual (IRA). Dada à sua insistência em preservar outros pontos de vista sobre o cinema baiano, Roque, em si, é o próprio contra-arquivo: sua existência reverbera memórias de produções e experiências não hegemônicas, sobrevivendo ao desgaste do tempo. Através de seu acervo caseiro, independente e marginal, Roque insiste em expor novas perspectivas do audiovisual nacional, ativando um arquivo sub-representado do cinema.
Tanto o acervo e quanto o corpo que o preserva, enfrentam outro obstáculo latente para alcançar o “status de arquivo”: a morte. Conforme reflete Mbembe, a memória viva de Roque desafia a ideia de distanciamento entre o acervo e seu autor, enfraquecendo a noção de que o mesmo foi “enclausurado pelo período exigido antes que pudesse ser acessado” (p.3). O arquivo do cineasta propõe outra abordagem, viva e orgânica, que resiste à passagem do tempo. A urgência da preservação não se dá apenas pela vulnerabilidade do arquivo, mas principalmente por ser construído ao lado de Roque Araújo, uma lenda viva do cinema brasileiro.
No “Acervo Digital Roque Araújo”, projeto de diagnóstico, catalogação e difusão contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc (2025 e 2026), foram localizadas 12 curta-metragens em Super 8. Entre elas, “Rodolfo Cavalcanti – Poeta de Cordel” (1970c.), com imagens inéditas de Mestre Buli Buli e banda no centro de Salvador, e “Deus Não Está Morto” (1974), de Chico Liberato, um diálogo entre natureza e tradições populares do recôncavo baiano. Encontrar estes arquivos é como se deparar com “testemunhos de algo que ocorreu, de algo que está e já não está” (LARIOS, 2021). Ao encarar estes fragmentos da história, o acervo proporciona outros ângulos para enxergar o cinema feito na Bahia, com possibilidades de novas interpretações e criações de sentidos.
À partir das imagens encontradas, a pesquisa apresenta o trajeto de preservação audiovisual do “Acervo Digital Roque Araújo”, em seu contexto e limites. Através da exibição de trechos dos curta-metragens, discute-se as noções de contra-arquivo, desarquivo e ativação de arquivo, presentes neste acervo. A experiência pode apontar para protocolos de preservação de coleções caseiras, independentes e marginais espalhadas pelo território baiano e sub-representadas na memória do audiovisual, revelando novas cenas do cinema brasileiro.
Bibliografia
- CASTRO, Natália de. Revisão de filmes: manual básico. Rio de Janeiro: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. 2023.
DAHOMEY. Direção: Mati Diop. Produção: Judith Lou Lévy, Eve Robin, Mati Diop. França; Senegal; Benin: Les Films du Bal; Fanti Masa, 2024. 68 min, som, cor.
LARIOS, Shanday. Objetos como archivo en potencia. Podcast: Archivo, desarchivo, anarchivo, contrarchivo y otra vez archivo. Archivos y Activaciones. 2021. Disponível em: https://www.archivosyactivaciones.com/podcast. Acesso em: 14 abr. 2026.
MBEMBE, Achille. O poder do arquivo e seus limites. Tradução de Camila Matos. 2002. Disponível em: https://memoriayficcao.wordpress.com/wp-content/uploads/2019/08/mbembe-achille.-o-poder-do-arquivo-e-seus-limites-1.pdf. Acesso em: 12 abr. 2026.
ROLNIK, Suely. Arquivo-mania. Cadernos de Estudos Culturais. UFMS. v. 3. n 5. 2011.