Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Fernando Morais da Costa (UFF)

Minicurrículo

    Professor titular do Departamento de Cinema e Vídeo e do PPGCine da Universidade Federal Fluminense. Possui pós-doutorado na Universidade Federal de Pernambuco. Foi professor visitante na University of Cambridge. É fundador e ex-coordenador dos Seminários Temáticos sobre Som no Audiovisual da Socine. Foi secretário acadêmico (2017 -2019) e membro do comité cientifico (2019-2021) da mesma instituição. É autor de O som no cinema brasileiro (Rio de Janeiro: 7 letras, 2008).

Ficha do Trabalho

Título

    Dinâmica? Contrastes sonoros e uma possível marca do cinema contemporâneo

Seminário

    Histórias e tecnologias do som no audiovisual

Resumo

    Dinâmica, como é de conhecimento básico na acústica como área e nos estudos de som no cinema como aplicação, trata da variação entre manifestações sonoras mais intensas e menos. Levantamos a hipótese de que certos filmes atuais investem numa variação dinâmica ampla, no alto contraste entre sons de grandes intensidades e outros menos intensos, como estratégia narrativa e consequente engajamento do espectador. É o caso de O agente secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025) e Sirat (Óliver Laxe, 2025).

Resumo expandido

    O conceito de dinâmica é basilar para a acústica e consiste na proporção entre sons de maiores intensidades e outros de menor presença. Dentre sua aplicação nas mais diversas áreas que tratam da manipulação sonora como parte de seu trabalho, no cinema sua aplicabilidade está em produzir efeitos de variação sensível para os espectadores entre os sons mais e menos intensos de um filme. Por exemplo, entre momentos nos quais a presença das músicas é marcadamente intensa e sequências com, digamos, sons ambientes de volume mais rarefeito. Um contrate perceptivo para a audiência entre um volume sonoro que cause impacto e a sensação seguinte de queda desse movimento.

    Michel Chion, em texto de cerca de vinte anos atrás sobre a exibição multicanal em salas de cinema, descrevia o que chamou de uma “estética do preenchimento”, um modo de sonorizar os filmes que propõe a presença intensa e concomitante de um grande número de elementos sonoros tocados durante a exibição, a partir da possibilidade de uma quantidade cada vez maior de pistas e canais disponíveis. Paradoxalmente, Chion nota que a mesma estética gera, em momentos de rarefação da trilha sonora, impressões agudas de silêncios, como se houvesse um novo espaço para preencher, mais também para silenciar (CHION, 2003). Chion não cita o conceito de dinâmica em seu argumento, mas é ele que está implícito quanto se trata de analisar tamanhas variações.

    A hipótese desta proposta de pesquisa é que alguns filmes contemporâneos propõem uma variação dinâmica intensa, um amplo contraste entre os seus sons mais volumosos e os mais rarefeitos e que isso se transforma em uma importante ferramenta narrativa, gerando um impacto perceptivo notório para os espectadores.
    Analisaremos de forma mais detida, além de mencionar outros casos, dois filmes: O agente secreto, de Kleber Mendonça Filho, e Sirat, de Óliver Laxe, ambos de 2025. No caso brasileiro, o impacto dos momentos musicais, e aqui tomamos o cuidado de chamados de momentos e não números musicais, pois não os são, de acordo com Amy Herzog (HERZOG, 2010) é notário. Exemplos são a sequência em que o personagem principal tem que atravessar o bloco de carnaval no Recife Antigo depois de deixar o prédio do Cine São Luiz e a cena sonorizada por Guerra e pace, pollo e brace, de Ennio Morricone, originalmente escrita para o filme Desejo Perverso, dirigido por Salvatori Samperi (1968). Na ocasião do lançamento comercial de O agente secreto nas salas de cinema brasileiras, o diretor escreveu um texto direcionado as responsáveis do circuito exibidor, além de divulgado em suas redes sociais, no qual pedia que passassem o filme com “o volume alto”, para ter “os melhores resultados junto ao público”. Assim seria respeitada a “grande força sonora” do filme, o que gerou discussão entre os setores relacionados ao trabalho com o som no audiovisual brasileiro (MENDONÇA FILHO, 2026)

    Em Sirat, ficou conhecido entre os trabalhadores do som cinematográfico no Brasil e demais interessados o esforço de produção da equipe responsável pelo som da produção espanhola para reproduzir os efeitos das raves no deserto. Equipe essa majoritariamente feminina, é importante dizer. Sobre essa relação entre trabalho com som e gênero falaremos mais, ainda que brevemente, quando da palestra completa. Para além da criatividade em estúdio ao gerar uma situação verossímil de tradução da dinâmica entre a força dos sound systems e a sutileza dos sons ambientes no deserto, a sound designer Lara Casanovas destaca que a intenção era “gerar um impacto emocional no espectador” (SIRĀT, 2026). Tal declaração está, aliás, de acordo com um pressuposto teórico relevante dos estudos sobre cinema contemporâneo: a ideia de um “realismo sensório”, como descrito por Erly Viera Jr. (VIERA JÙNIOR, 2020). Discutiremos, a partir dos filmes citados, tais marcas sonoras do cinema contemporâneo e, de forma mais detida, questões sobre dinâmica, na comunicação que estamos propondo.

Bibliografia

    CHION, Michel. The silence of the loudspeakers or why with Dolby Sound is the film that listens to us. In. SIDER et al. Soundscape – The School of Sound Lectures 1998 -2001. London: Wallflower, 2003, p. 150-154.
    HERZOG, Amy. Dreams of Difference, Songs of the Same: The Musical Moment in Film. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2010.
    MENDONÇA FILHO, Kleber. O agente secreto. 7 de novembro de 2025. Disponível em https://www.instagram.com/p/DQwSQDqDlfc/?igsh=MTNtaWNlNzhlY2thMw== Acesso em 16 de abril de 2026.
    PAIVA, Samuel. Crítica de cinema e realização cinematográfica: considerações sobre documentários de Kleber Mendonça Filho. Rumores: São Paulo,19, 2025, p. 111-124.
    SIRAT, Fazendo o som. 16 de janeiro de 2026. Disponível em https://youtu.be/gcZ0eKxT7qk?si=79I8sZuCK2inTLzY Acesso em 16 de abril de 2026.
    TENENBAUM, Roberto. Fundamentals of Applied Dynamics; New York: Springer Verlag, 2004.
    VIEIRA JÚNIOR, Erly. Realismo sensório no cinema contemporâneo. Vitória: Edufes, 2