Ficha do Proponente
Proponente
- Talitha Gomes Ferraz (PPGCine-UFF)
Minicurrículo
- Talitha Ferraz é mestre e doutora pela ECO-UFRJ, com doutorado sanduíche pela Universidade Nova de Lisboa. Realizou pós-doutorado no Centre for Cinema and Media Studies (CIMS) da Ghent University, Bélgica, com apoio da Capes. É professora do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (PPGCine-UFF), além de coordenar o HoMER – History of Moviegoing Exhibition and Reception Network e integrar o International Media & Nostalgia Network (IMNN).
Ficha do Trabalho
Título
- Ruínas de cinemas de rua: hauntologia, imaginários e espacialidades
Seminário
- Cinema e Espaço
Resumo
- Discutimos a desaparição de cinemas de rua vinculando-a a mudanças urbanas, tecnológicas e socioculturais. Investigamos os processos de arruinamento desses dispositivos cinematográficos sob a ótica de noções como hauntologia e ruínas. Refletimos sobre os casos de dois cinemas abandonados do subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, analisando como esses espaços se entrelaçam com a cidade e os indivíduos, tensionando memórias, nostalgias, experiências e imaginários.
Resumo expandido
- A desaparição e o arruinamento dos cinemas de rua nas cidades estão associados a transformações complexas, que incluem tanto a reorganização dos espaços e do tempo dedicados ao lazer cinematográfico nas realidades urbanas, as dinâmicas socioculturais e os cotidianos dos indivíduos, quanto as mutações tecnológicas e industriais ocorridas no âmbito das mídias audiovisuais a partir das últimas décadas do século XX. De modo geral, o apagamento físico e simbólico de equipamentos coletivos de lazer cinematográfico nas calçadas (não apenas no Brasil) é um fenômeno iniciado com maior força por volta dos anos 1980.
Desde então, muitos cenários urbanos vivenciaram a subtração de cinemas de rua, que, após o encerramento de suas funções exibidoras, foram destinados a outras atividades comerciais ou culturais (mantendo ou não características arquitetônicas e design originais), demolidos ou simplesmente abandonados à mercê das ações do tempo.
O objeto de análise deste trabalho são os cinemas de rua extintos, abandonados e inoperantes, cujas estruturas, em variados graus de deterioração, permanecem visíveis nas paisagens citadinas como “ruínas urbano-cinematográficas” (Ferraz, 2025). Refletiremos sobre como essas ruínas, que se aderem a diferentes camadas temporais, são capazes de reverberar, conjugar e representar memórias, nostalgias, experiências e imaginários ligados à relação entre cinema de rua, públicos e cidade, considerando contextos que tanto podem exaltá-las quanto relegá-las ao desprezo ou ao plano dos interditos.
Interessa-nos aproximar a ideia de ruínas urbano-cinematográficas da noção de hauntologia, pensada por Mark Fisher (2022) a partir de Jacques Derrida, e pensar acepções do conceito de ruína elaboradas por Walter Benjamin (1984), Svetlana Boym (2011) e Andreas Huyssen (2014), principalmente no que se refere à imagem de presença-ausência inerente a esse termo e às possibilidades de tensionamento de critérios como corporeidade, ambiência e espacialidade, que orbitam em torno da figura da sala de cinema e de sua interlocução com a cidade e as pessoas.
Ao mesmo tempo, utilizaremos a expressão “ruínas urbano-industriais” (Santos; Spadoni, 2022) para refletir sobre os espaços decadentes resultantes da derrocada de um projeto de mundo pautado nas intenções da megaindustrialização e da racionalidade técnica. Entendido como um dispositivo e uma tecnologia de época que reinou quase absoluto por boa parte do século XX, fortemente ancorado em um primado simbólico de legitimidade (a despeito das poderosas investidas de outros modelos de sala de cinema e demais dispositivos de circulação, acesso e fruição audiovisual), o cinema de rua convencional estaria, nesse sentido, entre tais equipamentos destituídos de protagonismo ou validade imediata diante das novas funções e expectativas de uso dos espaços traçadas pelas lógicas do capitalismo contemporâneo. Daí também advêm os casos de cinemas de rua extintos e transformados em ruínas ou destroços.
Nesse sentido, estudaremos dois cinemas extintos localizados no bairro de Ramos, subúrbio da cidade do Rio de Janeiro. Por meio da observação dos escombros do Cine Rio Palace (1962-1972) e das ruínas do Cinema Rosário/Ramos (1938-1992) e da percepção da paisagem atual formada por esses vestígios urbano-cinematográficos, pretendemos refletir sobre as implicações materiais e simbólicas entrelaçadas nos processos de destituição e arruinamento desses cinemas, considerando a abordagem teórica anteriormente mencionada.
Bibliografia
- BENJAMIN, W. Origem do drama barroco alemão. Trad.: Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1984.
BOYM, S. Ruinophilia: appreciation of ruins. In: Atlas of Transformation. Transit, 2011. Disponível em: http://monumenttotransformation.org/atlas-of-transformation/html/r/ruinophilia/ruinophilia-appreciation-of-ruins-svetlana-boym.html
FERRAZ, T. Ruínas de cinemas suburbanos: aspectos hauntológicos entre destituições, tecnostalgias e limiares cinematográficos. Mídia e Cotidiano, [S. l.], v. 19, n. 3, p. 76-106, 2025.
FISHER, M. Fantasmas da minha vida: escritos sobre depressão, assombrologia e futuros perdidos. São Paulo: Autonomia Literária, 2022.
HUYSSEN, A. Culturas do passado-presente: modernismos, artes visuais, políticas da memória. Rio de Janeiro: Contraponto, 2014.
SANTOS, M. S.; SPADONI, F. Contravenção em ruínas arquitetônicas contemporâneas. V!RUS, n. 24, 2022. Disponível em: http://www.nomads.usp.br/virus/papers/v24/729/729pt.php