Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Carolina Goncalves pinto (FEBASP)

Minicurrículo

    Doutora e Mestre em Meios e Processos Audiovisuais, pela ECA-USP, pós graduada no Le Fresnoy – Studio National, (França) com especialização em cinema documentário na La Fémis e graduação em Cinema e Vídeo na ECA – USP e formação em artes contemporâneas pela Exordi e especialização em docência pela UNIVESP. Atua como realizadora e roteirista, docente e pesquisadora. Atuou como Assistente de Direção longas metragens e outros produtos visuais. Atualmente leciona no Centro Universitário Belas Artes.

Ficha do Trabalho

Título

    Imagem de arquivo, memória e fabulação na criação audiovisual

Resumo

    Imagens são suporte da memória? O arquivo em super 8mm familiar recuperado é ponto de partida para discutir o desenvolvimento de uma obra fílmica e a aproximação entre memória e cinema e a produção de narrativas fabulares, que surgem do embate entre evocações da memória e imagens de arquivo. Circunscrevemos a investigação ao universo do filme ensaístico autobiográfico. Norteiam nossas investigações Walter Benjamin, Gilles Deleuze, Christa Blümlinger e Beatriz Sarlo.

Resumo expandido

    Imagens são suportes da memória? Apresentamos uma reflexão sobre o desenvolvimento de uma obra fílmica, partir de um material super 8mm recuperado de arquivo familiar. Investigamos como as narrativas dão origem a fabulações, suscitadas a partir de imagens desses arquivos pessoais. Pretendemos discutir uma aproximação entre memória e cinema e sob quais aspectos e parâmetros entendemos essa aproximação. Em nosso projeto de filme estamos tratando de como as narrativas dão origem a fabulações, suscitadas a partir de imagens de arquivos pessoais. Não esperamos criar uma obra que busque explicar os mecanismos da memória, mas de tornar evidente a distância entre a imagem registrada e a experiência que a memória pode oferecer em relação àquele registro. Circunscrevemos a investigação ao universo do filme ensaístico autobiográfico e a produção de narrativas fabulares, que surgem do embate entre evocações da memória e imagens de arquivo.
    Efetuamos as investigações a partir da conceituação sobre a memória do acontecimentos, conforme Walter Benjamin e a fabulação, conforme Gilles Deleuze apresenta, um recurso possível na criação de narrativas. Abordamos a auto-inscrição e o testemunho como um caminho reparador para o trauma a partir de Beatriz Sarlo e o reemprego das imagens de arquivo conforme entende Christa Blümlinger, um traço sintomático da contemporaneidade, além de Laura Racarolli, Michael Renov e Timothy Corrigan, a respeito das formas ensaístas e autobiográficas no cinema.
    Percorremos o universo obras fílmicas, confrontando nosso objeto à análise das obras Rocha que Voa (2002) de Eryk Rocha, As Praias de Agnès (2002) de Agnès Varda, Coração de Cachorro (2015), Laurie Anderson, Phantom Limb, (2015) Jay Rosenblatt, História Que Contamos (2013), de Sarah Polley e Uma Longa Viagem (2011) de Lúcia Murat.
    Foi a partir de uma falta que este projeto se desenvolveu; a inexistência de uma imagem numa bobina de super 8 mm. Ao vasculhar um material de arquivo recebido de sua família, esta pesquisadora estava em busca de imagens de seu pai falecido, quando esta tinha 4 anos de idade. A bobina transcorreu sem haja nenhuma imagem dele. A primeira suposição sobre sua ausência é a de que teria sido ele a empunhar a câmera e produzir aquelas imagens. Essa falta conduziu a outras lacunas, lapsos, esquecimentos. E foi motor para a criação de uma forma que pudesse responder ao vazio sem no entanto preencher este espaço. Uma ausência que torna manifesta uma privação simbólica dessa imagem, mas que remete à perda real. O encontro com a imagem não se deu apenas por que a imagem inexistia enquanto registro? Sendo a memória lacunar e imprecisa, seria possível ainda afiançar a natureza e sequência das imagens ali presentes? Dificilmente a imagem mental coincidirá com a impressa na película. Nos apropriamos desse material em super 8mm, para a criação de uma outra obra cinematográfica, ainda em processo, acompanhada da escrita de uma tese, já concluída. A resposta a essas indagações seria, nesse caso, a criação de um filme que explore a memória e por meio da fabulação, de forma que esta ausência pudesse se tornar presente.
    A memória nos interessa como um acontecimento por meio da qual podemos criar novas experiências, uma fonte de novas memórias e narrativas fabulares, ao se tentar traduzi-la no campo das artes. A visualização do material de arquivo familiar em super 8mm deu ensejo à especulação acerca dessa relação que se estabelece entre o registro fílmico, como um suporte para salvaguardar a memória, e as manifestações da memória dos acontecimentos.
    Ao refletir sobre nossas próprias estratégias de realização, nem sempre os eventos apresentados são passíveis de verificação, ou o que se apresenta nem sempre correspondem exatamente aos fatos: tata-se de invenções, de uma escrita de si que traduz, não de forma exata, aquilo que foi vivido, mas ao se elaborar por meio da fabulação, a narrativa de uma vida que foi ser inventada, para poder ser contada.

Bibliografia

    BENJAMIN, Walter. O Narrador, in Obras Escolhidas vol. 2, tradução Sérgio Paulo Rouanet, São Paulo, Brasiliense, 1996
    BLÜMILINGER, Christa Cinéma de Seconde Main – La esthétique du remploi dans l’art du film et des nouveaux médias, Paris, Klincksieck, 2013
    CORRIGAN, Timothy. O filme-ensaio desde Montaigne e depois de Marker, Campinas, Papirus, 2015
    DELEUZE, Gilles. L’Image Temps, Paris, Les Éditions de Minuit, 1985
    LEJEUNE, Philippe. O Pacto Autobiográfico – de Rousseau à Internet, Belo Horizonte, Editora UFMG, 2014
    FOUCAUL, Michel. A arqueologia do Saber. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2012
    RASCAROLI, Laura. The Personal Câmera – Subjective Cinema and The Essay Film, Wallflowers, Grã Bretanha, 2009
    RENOV, Michael. The Subject of Documentary, Minneapolis, University of Minnesota Press, 2004
    SARLO, Beatriz. Tempo Passado – Cultura da memória e guinada subjetiva,
    Companhia das Letras, São Paulo, 2007