Ficha do Proponente
Proponente
- Laura Loguercio Cánepa (UNIP)
Minicurrículo
- Laura Cánepa é docente de Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista – UNIP. É Doutora em Multimeios (UNICAMP) e Bolsista Produtividade do CNPq.
Coautor
- Rodrigo Carreiro (UFPE)
Ficha do Trabalho
Título
- A maldição do trabalho reprodutivo no horror mundial contemporâneo: filmes e propostas analíticas
Seminário
- Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual
Resumo
- Este estudo analisa como diversos filmes de horror contemporâneos representam a crise do cuidado e a erosão do tempo no capitalismo tardio. Investiga-se como a exaustão laboral e afetiva, sobretudo feminina, é representada como violência sobrenatural, revelando a insustentabilidade de um sistema que cobra disponibilidade integral dos corpos, e no qual as necessidades biológicas de cuidado, afeto e repouso são repelidas como falhas monstruosas e ameaças horríficas à engrenagem 24/7.
Resumo expandido
- No livro 24/7: Capitalismo Tardio e os Fins do Sono, Jonathan Crary (2014) descreve um mundo em que o tecido temporal da vida é sequestrado por um regime de atividade permanente no qual o sono e o repouso são colonizados por imperativos econômicos de produtividade. Nesse horizonte, a política do cuidado e o trabalho reprodutivo tornam-se focos de enorme tensão. Afinal, como argumenta Silvia Federici (2019), a feminização e privatização do trabalho reprodutivo tornaram o cuidado indispensável, mas desvalorizado dentro das economias capitalistas. A contradição entre a necessidade e invisibilidade produz exaustão e culpa, elementos que muitos filmes de horror contemporâneos vêm tornando visíveis. Nossa proposta situa essas obras no campo do horror social (CARREIRO, CÁNEPA, 2025), termo dá visibilidade à tematização de conflitos históricos, preconceitos, desigualdades estruturais e formas de opressão pelo cinema de horror (como discutido por PEELE in PHILLIPS, 2017).
O suporte conceitual se fundamenta na economia do cuidado, entendida como o trabalho essencial para a manutenção da vida e da força de trabalho, frequentemente invisibilizado no sistema neoliberal (QUIROGA DIAZ; WOSNKIAL, 2022). O corpus é composto por filmes de diferentes nacionalidades e padrões de produção: Undertone (Ian Tuason, Canadá, 2026); Lidando com os mortos (Handling the Undead, Thea Hvistendahl, Noruega, 2024); Huesera (Michele Garza Cervera, Méxido, 2023); Relíquia Macabra (Relic, Natalie Erika James, Australia, 2021); The Dark and the Wicked (Bryan Bertino, EUA, 2020); Santa Maud (Saint Maud, Rose Glass, Reino Unido, 2019); A Sombra do Pai (Gabriela Amaral Almeida, Brasil, 2018).
Esse conjunto de títulos articula um discurso transnacional sobre a insustentabilidade de um sistema que exige um compromisso infinito com a manutenção da vida, mas sem suporte coletivo. Nas narrativas que reunimos para examinar neste trabalho, o isolamento doméstico e a abjeção corporal materializam a crise do trabalho invisível e da reação dos corpos a um regime no qual a eficiência é a norma, fazendo com que corpos que reclamam descanso ou requerem cuidados sejam considerados insurrectos e ameaçadores.
Nossa proposta afirma que o horror social, muito em voga nesta terceira década do século XXI, materializa a insurreição contra a colonização capitalista dos corpos por meio da abjeção exposta por organismos que se recusam a continuar funcionando como máquinas. A estética da fadiga e da devoção presente nos filmes permite observar como o cinema de horror global (hoje um dos gêneros audiovisuais mais bem-aceitos e disseminados da cultura popular) processa a crítica da erosão da vida sob o capital, imaginando (ainda que de forma trágica) gestos fronteiriços de revolta contra a exploração e o descarte dos corpos vulneráveis.
Bibliografia
- CARREIRO, Rodrigo; CÁNEPA, Laura. Cinema de horror: uma introdução. São Paulo: Gênio Editorial, 2025.
CRARY, Jonathan. 24/7: capitalismo tardio e os fins do sono. Tradução de Joaquim Toledo Jr. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. Tradução de Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2019.
LOWENSTEIN, Adam. Shocking Representation: Historical Trauma, National Cinema, and the Modern Horror Film. Nova York: Columbia University Press, 2005.
MILLER, Dorothy. The Sandwich Generation: Adult Children of the Aging. Social Work, v. 26, p. 419-423, 1981.
PHILLIPS, Michael. Jordan Peele on Get Out and social thrillers. Chicago Tribune, Chicago, 24 fev. 2017.
QUIROGA DIAZ, Natalia; WOSNKIAL, Heloísa. Economia do Cuidado: Reflexões para um Feminismo Decolonial. Revista X, Curitiba, v. 17, n. 1, p. 322-340, 2022.
REYES, Xavier Aldana. Contemporary Body Horror. Cambridge University Press, 2024.