Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    JULIANA VIEIRA COSTA (PUCRS)

Minicurrículo

    Doutora em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com pesquisa sobre cineclubismo. Desde 2024, coordena o Programa de Alfabetização Audiovisual, projeto educativo da Cinemateca Capitólio. Integra grupos de pesquisa ”Cinema e Audiovisual: comunicação, estética e política (Kinepoliticom)” e ”Cinema, audiovisual, tecnologias e processos formativos”, ambos na PUCRS.

Ficha do Trabalho

Título

    Circulação de filmes e ideias: o cineclubismo como constituição de pensamento sobre cinema

Seminário

    Políticas, economias e culturas do cinema e do audiovisual no Brasil

Resumo

    Fazendo um breve percurso histórico e tomando como estudo de caso a programação do Cine Vestígio, cineclube em atividade na cidade de Porto Alegre, esta comunicação pretende analisar de que formas o cineclubismo – como um dispositivo que articula circulação de filmes, discursos e práticas -, constitui um importante vetor de constituição de pensamento sobre cinema.

Resumo expandido

    Além de um dispositivo histórico de circulação fílmica, o cineclubismo pode ser compreendido como um dispositivo privilegiado de produção de pensamento sobre o cinema. Desde suas origens, os cineclubes articularam exibição e debate como práticas indissociáveis, deslocando o cinema de uma condição estritamente comercial para o campo da reflexão crítica. Nesse contexto, não apenas os filmes circulam, mas também modos de ver, interpretar, discutir e pensar o cinema, instaurando uma dinâmica na qual a experiência estética se converte em elaboração coletiva de pensamento.

    Ao longo do século XX, os cineclubes desempenharam papel central na circulação alternativa de obras cinematográficas, sobretudo em oposição à hegemonia da indústria hollywoodiana e em contextos de escassez de salas de exibição. Essa circulação não se restringe ao acesso material aos filmes, mas implica também a circulação de ideias, teorias e sensibilidades, que se configuram nos debates, textos críticos e práticas curatoriais.

    Compreendido como um dispositivo (Agamben, 2009), o cineclubismo articula uma rede heterogênea de elementos – filmes, espaços, discursos, práticas – que respondem a urgências contextuais específicas. Assim, a produção de pensamento sobre cinema a partir das práticas curatoriais e dos debates nos cineclubes é constituída por meio da sua programação, seus debates, disputas e dissensos, e em como estes elementos se relacionam com o meio onde está inserido. Essa dimensão evidencia o cineclubismo como instância ativa na constituição de pensamento sobre o campo cinematográfico.

    O primeiro cineclube brasileiro que se tem notícias, o Chaplin Club, já exemplifica esta articulação, ao promover sessões, leituras e discussões que visavam afirmar o cinema como arte em oposição ao cinema como entretenimento, a exemplo dos cineclubes franceses do período. A partir das décadas de 1960 e 1970, especialmente nos contextos das ditaduras latino-americanas, o cineclubismo intensifica sua dimensão militante, tornando-se espaço de resistência e circulação de ideias críticas. Nesse período, o movimento cineclubista irá contribuir para o pensamento sobre cinema brasileiro e identidade nacional, debate que ganha espaço entre os atores do campo cinematográfico do período.

    Esta comunicação toma como estudo de caso a programação do Cine Vestígio, cineclube em atividade na cidade de Porto Alegre, para pensar em como na nossa contemporaneidade, marcada pela ampla disponibilidade digital de filmes, o cineclubismo reafirma sua relevância ao deslocar o foco do acesso para a curadoria e a construção coletiva de sentido. Desta forma, pretendemos analisar como a programação cineclubista passa a operar como uma forma de pensamento, na qual a escolha e articulação dos filmes produzem narrativas e ideias sobre o cinema.

Bibliografia

    AGAMBEN, Giorgio. O que é um dispositivo. O que é o contemporâneo e outros ensaios. Chapecó: Editora Argos, 2009.

    GONRING, Gabriel Menotti. Cineclubes Piratas: aparatos tradicionais com tecnologia imprópria. Revista FAMECOS, 22(3), 96-109, 2015.

    GUIMARÃES, César. O que é uma comunidade de cinema?. Revista Eco Pós: arte, tecnologia e mediação. Vol. 18, nº 1, 2015.

    MACEDO, Felipe. Cineclube e autoformação do público. IN: ALVES, G; MACEDO, F. Cineclube, Cinema & Educação. Londrina: Ed. Praxis, 2010.

    RANCIÈRE, Jacques. A Partilha do Sensível. São Paulo: Editora 34, 2005.

    ______A Partilha do Sensível. São Paulo: Editora 34, 2005.

    SALES, Priscila. O movimento cineclubista brasileiro e suas modulações na recepção cinematográfica. Anais do XXVIII Simpósio Nacional de História. Florianópolis, 2015.