Ficha do Proponente
Proponente
- JULIANA VIEIRA COSTA (PUCRS)
Minicurrículo
- Doutora em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com pesquisa sobre cineclubismo. Desde 2024, coordena o Programa de Alfabetização Audiovisual, projeto educativo da Cinemateca Capitólio. Integra grupos de pesquisa ”Cinema e Audiovisual: comunicação, estética e política (Kinepoliticom)” e ”Cinema, audiovisual, tecnologias e processos formativos”, ambos na PUCRS.
Ficha do Trabalho
Título
- Circulação de filmes e ideias: o cineclubismo como constituição de pensamento sobre cinema
Seminário
- Políticas, economias e culturas do cinema e do audiovisual no Brasil
Resumo
- Fazendo um breve percurso histórico e tomando como estudo de caso a programação do Cine Vestígio, cineclube em atividade na cidade de Porto Alegre, esta comunicação pretende analisar de que formas o cineclubismo – como um dispositivo que articula circulação de filmes, discursos e práticas -, constitui um importante vetor de constituição de pensamento sobre cinema.
Resumo expandido
- Além de um dispositivo histórico de circulação fílmica, o cineclubismo pode ser compreendido como um dispositivo privilegiado de produção de pensamento sobre o cinema. Desde suas origens, os cineclubes articularam exibição e debate como práticas indissociáveis, deslocando o cinema de uma condição estritamente comercial para o campo da reflexão crítica. Nesse contexto, não apenas os filmes circulam, mas também modos de ver, interpretar, discutir e pensar o cinema, instaurando uma dinâmica na qual a experiência estética se converte em elaboração coletiva de pensamento.
Ao longo do século XX, os cineclubes desempenharam papel central na circulação alternativa de obras cinematográficas, sobretudo em oposição à hegemonia da indústria hollywoodiana e em contextos de escassez de salas de exibição. Essa circulação não se restringe ao acesso material aos filmes, mas implica também a circulação de ideias, teorias e sensibilidades, que se configuram nos debates, textos críticos e práticas curatoriais.
Compreendido como um dispositivo (Agamben, 2009), o cineclubismo articula uma rede heterogênea de elementos – filmes, espaços, discursos, práticas – que respondem a urgências contextuais específicas. Assim, a produção de pensamento sobre cinema a partir das práticas curatoriais e dos debates nos cineclubes é constituída por meio da sua programação, seus debates, disputas e dissensos, e em como estes elementos se relacionam com o meio onde está inserido. Essa dimensão evidencia o cineclubismo como instância ativa na constituição de pensamento sobre o campo cinematográfico.
O primeiro cineclube brasileiro que se tem notícias, o Chaplin Club, já exemplifica esta articulação, ao promover sessões, leituras e discussões que visavam afirmar o cinema como arte em oposição ao cinema como entretenimento, a exemplo dos cineclubes franceses do período. A partir das décadas de 1960 e 1970, especialmente nos contextos das ditaduras latino-americanas, o cineclubismo intensifica sua dimensão militante, tornando-se espaço de resistência e circulação de ideias críticas. Nesse período, o movimento cineclubista irá contribuir para o pensamento sobre cinema brasileiro e identidade nacional, debate que ganha espaço entre os atores do campo cinematográfico do período.
Esta comunicação toma como estudo de caso a programação do Cine Vestígio, cineclube em atividade na cidade de Porto Alegre, para pensar em como na nossa contemporaneidade, marcada pela ampla disponibilidade digital de filmes, o cineclubismo reafirma sua relevância ao deslocar o foco do acesso para a curadoria e a construção coletiva de sentido. Desta forma, pretendemos analisar como a programação cineclubista passa a operar como uma forma de pensamento, na qual a escolha e articulação dos filmes produzem narrativas e ideias sobre o cinema.
Bibliografia
- AGAMBEN, Giorgio. O que é um dispositivo. O que é o contemporâneo e outros ensaios. Chapecó: Editora Argos, 2009.
GONRING, Gabriel Menotti. Cineclubes Piratas: aparatos tradicionais com tecnologia imprópria. Revista FAMECOS, 22(3), 96-109, 2015.
GUIMARÃES, César. O que é uma comunidade de cinema?. Revista Eco Pós: arte, tecnologia e mediação. Vol. 18, nº 1, 2015.
MACEDO, Felipe. Cineclube e autoformação do público. IN: ALVES, G; MACEDO, F. Cineclube, Cinema & Educação. Londrina: Ed. Praxis, 2010.
RANCIÈRE, Jacques. A Partilha do Sensível. São Paulo: Editora 34, 2005.
______A Partilha do Sensível. São Paulo: Editora 34, 2005.
SALES, Priscila. O movimento cineclubista brasileiro e suas modulações na recepção cinematográfica. Anais do XXVIII Simpósio Nacional de História. Florianópolis, 2015.