Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Rogério Luiz Silva de Oliveira (UESB)

Minicurrículo

    Professor do Curso de Cinema e Audiovisual e do Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB. Pesquisador, autor do livro “Memória e criação na direção de fotografia audiovisual” (2023) e um dos organizadores da coletânea “Cinematografia, Expressão e Pensamento” (2019). Realizador audiovisual, co-dirigiu “Dentro de mim passa um rio ” (2024) e “Agora que tudo está acabado” (2025).

Ficha do Trabalho

Título

    A cinematografia de extração em O Cristal Oscilador (1947)

Mesa

    A cinematografia entre criação e extração de memórias

Resumo

    O objetivo do trabalho é estudar a direção de fotografia do documentário O Cristal Oscilador (1947), assinada José A. Mauro. O filme, produzido para o Instituto Nacional de Cinema Educativo – INCE, foi dirigido por Humberto Mauro. Interessa estudar a economia visual do filme, a fim de compreender o modo como as imagens contribuem para uma cristalização da memória sobre a mineração no Brasil. A intenção gira em torno de como os processos extrativistas determinam a feição das imagens em movimento.

Resumo expandido

    O Cristal Oscilador (1947) integra um conjunto de filmes produzidos entre 1938 e 1966 pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo – INCE. A pesquisa que abriga este estudo prioriza as obras que têm uma temática em comum: a atividade mineradora no Brasil. São documentários construídos num contexto propagandista da Era Vargas, evidenciando inequívoca relação entre cinema e estado naquele período (Simis, 2015). Os filmes foram dirigidos, em sua maior parte, por Humberto Mauro e estão alinhados com um objetivo notado por Sheila Schvarzman. Ela ressalta que, ao lado do antropólogo Edgard Roquette-Pinto, diretor do INCE, Mauro “participou da empreitada de, pelas imagens de seus vultos históricos, suas riquezas naturais, suas descobertas científicas e tecnológicas, criar um novo país” (Schvarzman, 2004, p. 16). O filme definido como objeto desta proposta é um exemplo fiel e comprobatório disso. Com perfil didático, recorrendo a voz off e música clássica, o filme apresenta as etapas de processamento de um bloco de quartzo, até se tornar cristal oscilador, um componente eletrônico utilizado em equipamentos de uso cotidiano, como relógios, smartphones, tablets, computadores, etc.
    A utilidade dada à matéria-prima extraída da terra, como aborda o filme em questão, suscita conexões com ideias como as que são desenvolvidas por Sebastián Figueroa. Situando o cinema em meio à “violência social e ambiental da indústrias extrativas” (Figueroa, 2022, p. 1, tradução nossa), ele “recorda a íntima relação entre cinema, arquivo e extrativismo, não só porque o cinema é um portador da memória industrial, mas porque em si mesmo é um registro mineral do passado” (idem, p. 7, tradução nossa).
    Ao aceitar a integração entre ferramenta cinematográfica e contexto extrativista, sugerida pelo autor, a elaboração enseja tomar a cinematografia como ferramenta de extração, dando-nos chance de associá-la a uma tradição de estudos que parte do aspecto material dos filmes para buscar compreender de quais maneiras o cinema “ajudou a moldar e expandir a imagem das indústrias extrativas para uma florescente cultura visual do século XX” (Jacobson, 2025, p. 3).
    Desse modo, o objetivo da proposta é imergir nas imagens em movimento do filme com a mediação da noção de cinematografia de extração, elaborada à luz da interlocução com Brian Jacobson, que alicerça a compreensão de que a cinematografia é um conjunto de ferramentas e procedimentos que tem sua essência no contexto de sua produção (Jacobson, 2025, p. 8). Sendo assim, a metodologia adotada na investigação considera a forma como a direção de fotografia dos filmes em questão se integra ao tema.
    Pesa, ainda, a favor da proposição do estudo, o fato de que a direção de fotografia do período da obra, primeira metade do século XX, é ainda pouco estudada, o que coaduna com a constatação de Eduardo Morettin quanto às lacunas existentes em relação aos trabalhos produzidos na primeira metade do século XX: “Há uma conhecida e lamentada dificuldade em travar contato com as imagens produzidas, o que explica porque, até o momento, elas não foram, de maneira geral, objetos de estudos voltados para o seu conteúdo e estilo” (Morettin, 2012, p. 11).
    A escolha por O Cristal Oscilador se dá pelo fato de que o filme pertence a um período do cinema no qual predomina “certo padrão de ‘ordem visual’ em que se afirmam o senso de controle (enquadramento, movimentos) e de equilíbrio (o que se entende como o melhor ponto de vista diante de cada assunto)” (Morettin, p. 28), como observa Morettin ao estudar os filmes da primeira metade do século XX, o que enseja a análise de padrões imagéticos que, mesmo resultantes de gestos deliberados de criação, parecem moldados por uma política desenvolvimentista. Cabe à investigação verificar quais e de que maneira as ferramentas de cinematografia são mobilizadas no sentido de assimilar uma política de memória da atividade mineradora no Brasil.

Bibliografia

    Figueroa, S. Apuntes sobre cine y extractivismo. Revista laFuga, 26, 2022, ISSN: 0718-5316. Disponível em: https://lafuga.cl/apuntes-sobre-cine-y-extractivismo/1100. Acesso em: 23 de fevereiro de 2026.

    JACOBSON, Brian. The Cinema of Extractions: film materials and their forms. New York: Columbia University Press, 2025.

    MORETTIN, Eduardo. Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. In: MORETTIN, Eduardo; NAPOLITANO, Marcos; KORNIS, Mônica Almeida. História e Documentário. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2012.

    Morettin, Eduardo. Fotografar e filmar no cinema brasileiro silencioso. In: ESPADA, Heloísa (org.). Moderna pelo avesso: fotografia e cidade, Brasil, 1890-1930 (Catálogo da exposição). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2022.
    SIMIS, Anita. Estado e Cinema no Brasil. São Paulo: Editora Unesp, 2015.

    SHVARZMAN, Sheila. Humberto Mauro e as imagens do Brasil. São Paulo: Unesp, 2004.