Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Francisco Carlos Malta (Pós-doutorado-PUC-RJ)

Minicurrículo

    Francisco Malta -Pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUC-Rio. Doutor em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), possui MBA em Gestão de Negócios pelo Ibmec. É graduado em Letras, Publicidade e Direito. Atua como roteirista, diretor , produtor e professor universitário. Mais informações: www.franciscomalta.com.br

Ficha do Trabalho

Título

    Melodrama em fluxo: deslizamentos de tela e reconfigurações narrativas da telenovela em Dona de Mim

Mesa

    O melodrama brasileiro no streaming e suas estratégias de mercado

Resumo

    Este trabalho analisa as reconfigurações do melodrama na telenovela Dona de Mim, de Rosane Svartman, diante dos deslizamentos de tela e da lógica do streaming. A obra preserva elementos clássicos do gênero, como emoção, conflitos e identificação, ao mesmo tempo em que adapta sua narrativa ao consumo fragmentado e multiplataforma. Assim, Dona de Mim ressalta a capacidade de reinvenção da telenovela brasileira ao articular melodrama, diversidade e novas formas de circulação audiovisual na cultura.

Resumo expandido

    Este trabalho propõe refletir sobre as reconfigurações do melodrama na telenovela contemporânea a partir de Dona de Mim, escrita por Rosane Svartman e exibida na faixa das 19h pela TV Globo, considerando os impactos das novas dinâmicas de circulação audiovisual marcadas pelos deslizamentos de tela, pela lógica do streaming e pelos modos fragmentados de consumo. Em um cenário de convergência midiática, no qual a experiência televisiva disputa a atenção do público com múltiplas plataformas, temporalidades e formas de interação, o melodrama se reorganiza para preservar sua potência de engajamento emocional e sua centralidade como matriz narrativa da teledramaturgia brasileira.

    A partir da análise de Dona de Mim, busca-se compreender como a telenovela contemporânea incorpora estratégias narrativas e estéticas capazes de dialogar com espectadores habituados ao fluxo contínuo de conteúdos, ao consumo sob demanda e à atenção dispersa mediada por diferentes telas. Elementos clássicos do melodrama como conflitos afetivos, segredos, revelações, tensões morais e mecanismos de identificação emocional permanecem estruturantes, mas passam a operar articulados a uma narrativa mais dinâmica, sustentada por ganchos frequentes, aceleração dramática e circulação expandida entre televisão aberta, plataformas digitais e redes sociais.
    No entendimento de Jesús Martín-Barbero, “o melodrama nasce como ‘espetáculo total’ para um povo que já pode se olhar de corpo inteiro” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 158), apontando sua força como forma narrativa capaz de mobilizar identificação coletiva, afetos e reconhecimento social. No folhetim eletrônico, essa dimensão se manifesta de maneira expressiva na trajetória da personagem Kami, influenciadora digital, cuja narrativa alcança um dos pontos mais intensos ao abordar a violência sofrida por ela. Svartman tem habilidade em articular drama íntimo com temas socialmente sensíveis e amplamente debatidos no espaço virtual, a trama reforça a vocação melodramática de transformar conflitos individuais em experiências coletivas de reconhecimento e comoção.
    Essa perspectiva dialoga com a leitura de Marlyse Meyer(1996) sobre a permanência do melodrama como forma narrativa popular fundada no excesso emocional, na polarização moral e na dramatização das experiências cotidianas. Na telenovela , essas características se mantêm presentes, mas são moduladas por ritmos narrativos mais velozes e por uma dramaturgia pensada para reverberar para além da exibição linear, ampliando a circulação das emoções melodramáticas em clips, comentários, cortes e interações nas plataformas digitais.
    Além das transformações formais, a telenovela também expõe deslocamentos temáticos relevantes, especialmente no que se refere à diversidade. A autora Rosane Svartman(2023) destaca que o compromisso com a diversidade opera em duas dimensões complementares: uma ética, ligada à necessidade de ampliar a representatividade na tela e nos processos criativos; e outra pragmática, associada à percepção de que essa ampliação responde às demandas contemporâneas do público e às tendências do mercado audiovisual. Na visão da escritora, essa perspectiva se manifesta na construção de personagens, conflitos e universos sociais que buscam dialogar com um Brasil plural.
    Dessa forma, o trabalho propõe pensar Dona de Mim como expressão das continuidades e transformações do melodrama em um contexto de convergência midiática, no qual a telenovela passa a operar em fluxo expandido entre telas, plataformas e interações sociais. Ao preservar estruturas melodramáticas clássicas e, simultaneamente, incorporar estratégias narrativas alinhadas à lógica do streaming e à ampliação da representatividade, a obra demonstra a capacidade de reinvenção da teledramaturgia brasileira diante das novas formas de consumo audiovisual e das demandas culturais contemporâneas.

Bibliografia

    AUCAR, B.; SICILIANO, T.; MALTA, F.; HELICH, T. Da televisão linear ao streaming: o melodrama como modelo de negócios. Revista EPTIC, 27(1), 2025.

    BROOKS, P. The Melodramatic Imagination. Londres: Yale University Press, 1995.

    MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. 1 Ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.

    MEYER, M. Folhetim, uma história. São Paulo: Cia das Letras, 1996.
    JENKINS, H. Cultura da convergência: Aleph, São Paulo, 2009
    SVARTMAN, R. A telenovela e o futuro da televisão brasileira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2023.