Ficha do Proponente
Proponente
- Tatiana Siciliano (PUC-Rio)
Minicurrículo
- Professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação e do Departamento de Comunicação da PUC-Rio. Doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional UFRJ. Líder do grupo de pesquisa Narrativas da Vida Moderna: dos folhetins às séries audiovisuais. Cocoordenadora do Núcleo de estudos Narrativas & Consumo, da PUC-Rio. Integrante da Coordenação Colegiada da Rede Obitel Brasil e cocoordenadora da Equipe PUC-Rio da Rede Obitel Brasil. Bolsista FAPERJ Cientista do Nosso Estado.
Ficha do Trabalho
Título
- De novo o cangaço: teledramaturgia no streaming e as matrizes do sertão nordestino
Mesa
- O melodrama brasileiro no streaming e suas estratégias de mercado
Resumo
- O trabalho propõe uma reflexão sobre os sentidos atribuídos ao sertão nas obras brasileiras originais das plataformas de streaming, tomando como objetos a série Cangaço Novo (2013) da Amazon Prime e a novela Guerreiros do Sol (2025) da Globoplay. Discute-se aqui a retomada de temas tradicionais da literatura e do cinema reconfigurados no contexto global e plataformizado do audiovisual.
Resumo expandido
- O trabalho propõe uma reflexão sobre os sentidos atribuídos ao sertão nas obras brasileiras originais das plataformas de streaming, tomando como objetos a série Cangaço Novo (2013) da Amazon Prime e a novela Guerreiros do Sol (2025) da Globoplay. Discute-se aqui a retomada de temas tradicionais da literatura e do cinema reconfigurados no contexto global e plataformizado do audiovisual. Nesse cenário, obras televisuais brasileiras buscam, como estratégia de visibilidade e ampliação de público, temáticas locais que, apesar de remeterem a questões estruturais do país, se valem de padrões estéticos e de linguagem globalizados.
No trabalho coletivo da memória vários são os sentidos atribuídos ao sertanejo e ao sertão: cangaceiro, jagunço, coronel, beato, padre, religiosidade, fome, violência e luta. Nesse emaranhado simbólico, a obra Os Sertões (Euclides da Cunha,1902) legou as matrizes conceituais sobre o tema: o sertanejo como um “Hércules-Quasímodo”, a caatinga como “martírio do homem”; a clivagem entre litoral e sertão e a defesa da integração do interior aos centros de poder do país como ideal civilizatório, a versão nacional da conquista do oeste. Ao palimpsesto imagético, somam-se o retirante famélico de Vidas Secas (Graciliano Ramos,1938), o “bandido social” (Hobsbawn, 1975) e “marginal sedutor” (Bernardet, 2007) do filme O Cangaceiro, de Lima Barreto (1953), que inspirado nos westerns, instaura o “cangaço” (nordestern) no cinema nacional. Glauber Rocha, em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963-4) alça o cangaceiro vingador à síntese do país, “cuja violência antes de ser primitiva é revolucionária” (Xavier, 2012). Ainda na chave da “elegia do cangaço”, Baile Perfumado (1996), de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, incorpora o pop e os elementos urbanos aos dilemas do par antinômico mar-sertão. O cinema como “imperativo da transformação social”, inicialmente defendido pelo Cinema Novo, reaparece em Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (2019), na celebração da vitória do povoado sobre o opressor
Novo cangaço é um termo – que remete ao cangaço tradicional imortalizado por Lampião – disseminado nas mídias e por agentes de segurança pública, para denominar a formação de grupos armados no interior do Nordeste que assaltam bancos com uso de veículos roubados. A série Cangaço Novo (2023), criada por Mariana Bardan e Eduardo Melo, e escrita em parceria com Fernando Garrido (roteirista-chefe) e Erez Milgrom, retoma contemporaneamente a estética do sertão e a linguagem da violência para retratar o fenômeno, pela perspectiva de um grupo de assaltantes (novos cangaceiros) no interior do Ceará. O arco narrativo do protagonista, herói forasteiro, sublinha tensões como cidade x interior e a moral do justiceiro social. Na série, que levou cerca de uma década para ser produzida e exibida, questões ainda estruturantes do país são diluídas, para o gosto universal, em cenas de ação temperada por romances de ocasião, vinganças, lembranças, traumas e busca por redenção dos sofrimentos. O empoderamento feminino aparece junto com a pauta de luta contra a misoginia e o mandonismo local.
A novela para o streaming, Guerreiros do Sol, assinada por George Moura e Sérgio Goldemberg, com 45 capítulos, foi disponibilizada na plataforma de modo serializado entre 11 de junho a 12 de agosto de 2025. A obra da plataforma brasileira também faz uma releitura do sertão e as mazelas políticas e sociais (ainda vigentes) de um Brasil mandonista e patriarcal, com enquadramentos estéticos do ambiente árido circundante e das cenas que pontuam embates, traiçoes e romances, que se mesclam a debates contemporâneos como orientação sexual, desejos femininos e lutas pela liberdade.
Bibliografia
- ALBUQUERQUE JÚNIOR, D. M. de. A invenção do nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2011.
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